trumbo

NOTA: 7 / Renato Furtado

Fundado em 1937, o complexo cinematográfico Cinecittá, até hoje o maior, mais célebre e mais importante estúdio produtor de filmes da Itália, foi criado com o intento de criar e produzir longas que pudessem funcionar como ferramentas propagandistas do regime ditatorial de Benito Mussolini que, à época da inauguração, declarou: “O Cinema é a arma mais forte”. Ao mesmo tempo, do lado de cá do Atlântico, no Hemisfério Norte, as tensões políticas nos Estados Unidos estavam em um nível alarmante, agravado após o término da Segunda Guerra Mundial e em decorrência do embarque dos estado-unidenses no período que ficou conhecido como Guerra Fria, onde, em solo pátrio, buscaram combater todas as pessoas filiadas ao Partido Comunista dos Estados Unidos.

Em meio ao pandemônio instalado na esfera política, o Cinema não escapou ileso. Como poderia escapar se os filmes norte-americanos sempre foram usados como arma de propaganda, disseminando estereótipos para facilitar o reconhecimento dos “inimigos” em meio à população e exaltando a figura do homem branco conquistador, vencedor na vida e no sonho americano por meio de seus esforços? Impossível. Na década de 40, portanto, alguns trabalhadores do setor audiovisual sofreram forte perseguição; o caso mais famoso de uma personalidade ligada ao cinema atingida pela política anti-comunista praticada na época pelo governo estado-unidense foi protagonizado por Dalton Trumbo, objeto de estudo da cinebiografia “Trumbo – Lista Negra”, dirigida por Jay Roach (Entrando Numa Fria).

Interpretado por Bryan Cranston (Walter White de Breaking Bad), acompanhamos a história de como Dalton Trumbo foi do céu ao inferno em questão de pouco tempo, perdendo rapidamente o prestígio conquistado durante anos de trabalho criando roteiros memoráveis para grandes filmes da década de 40 ao lutar pelos direitos dos trabalhadores do cinema, demandando um salário mais justo para todos os operários do cinema. Tal atuação política chamou a atenção do Congresso e, a partir deste momento, as coisas se complicaram bastante na vida do roteirista. O grande problema do longa é, justamente, não atingir o peso necessário dessa história tão importante.

O filme é bom, é verdade; no entanto, não empolga em momento algum. É simples e o fato de não se arriscar, aqui neste caso, é um problema uma vez que a narrativa acaba muito presa às convenções do gênero das biografias cinematográficas, correndo atrás o tempo todo da quantidade de tempo que precisa cobrir – o filme vai dos anos 40 até o início dos anos 70 -, em um recorte que não facilita a direção e que, consequentemente, apresenta um maior desafio para a equipe, especialmente pelo fato de que Roach é um diretor bastante limitado, com experiência apenas em filmes de comédia que permanecem em uma escala de qualidade do razoável para o fraco. A falta de peso que a trama acaba adquirindo é decorrente, além de outros fatores, da inabilidade de Roach de lidar com um tema tão complexo – principalmente se tratando da lama política dos Estados Unidos.

Apesar de a montagem ser razoável, trazendo claros problemas de ritmo, a trilha sonora funciona como um bom apoio e a fotografia, que alterna entre momentos monocromáticos e coloridos -, quando está a cores, lembra os filmes em preto e branco da era de ouro de Hollywood, com as luzes bem fortes e as sombras, ainda que não muito fortes, bem demarcadas. Além disso, o filme ganha força exatamente pela atuação de Cranston, indicado ao Oscar com todos os méritos. Para quem o viu em Breaking Bad – ou em qualquer outro papel -, pode perceber que é visível o quanto ele construiu bem Trumbo como um personagem que difere bastante dos personagens previamente interpretados por ele, desde os menores gestos, como a maneira de olhar, de escrever e de se sentar, até os maiores e mais chamativos – como a personalidade politicamente inflamada do roteirista.

O roteiro de John McNamara não é um primor quanto ao quesito adaptação, mas seus diálogos são bons, críveis e realistas e geram momentos bastante espaços para Cranston mostrar seus talentos. Entretanto, outro grande problema vem da escrita, já que alguns personagens são pouco aproveitados ou ganham tempo de cena muito além do necessário. Por exemplo, todo o elenco de apoio (composto por grandes nomes como Helen Mirren, Diane Lane, John Goodman e Elle Faning) é bastante periférico no filme, ainda que seus personagens sejam cruciais em momentos determinados. É perfeitamente compreensível esta situação, visto que Trumbo é o personagem principal; por outro lado, não faria mal se os personagens fossem melhor aproveitados – e seus atores também.

Michael Stuhlbarg (um ótimo e muito subestimado ator) tem uma participação de destaque ao interpretar como o astro Edward G. Robinson, famoso por estrelar diversos film noirs da década de 40. Aliás, as aparições de grandes personalidades durante a história como John Wayne, Louis B. Mayer, Otto Preminger e Kirk Douglas faz com que o filme conquiste o coração dos cinéfilos que amam as produções daquele período hollywoodiano (mais precisamente entre meados dos anos 40 e início dos anos 60). “Trumbo – Lista Negra” é, portanto, um bom filme. Todavia, o fato de não arriscar e de se limitar faz com que a história perca força. Vale pela atuação de Cranston e pelo interesse histórico, político e cinematográfico narrado em tela.

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