Sem título

Por Caio César

Bastou a lista dos indicados ao Oscar 2016 ser divulgada para que o mais atento pudesse perceber: mais uma vez, não havia um indicado negro sequer entre os melhores atores do ano. Obviamente estamos falando sobre um prêmio que festeja os melhores da indústria cinematográfica, e não sobre um lugar que abre concessões por ”gostar” de alguém ou porque fulano ou siclano são de tal raça. Ao mesmo tempo, é inegável o poder desta verdade para refletir a situação do negro em Hollywood.

Assim como faltam negros na faculdade, nos escritórios, nos postos altos da nossa sociedade, também falta espaço para o negro nos filmes americanos. Representatividade significa tudo. Isso porque, em suma, é como se o modo padrão de um personagem fosse o caucasiano. Os personagens que são interpretados por atores são típicos “personagens negros”. Tomemos por exemplo as ganhadoras do Oscar Hattie Mcdaniel (primeira pessoa negra a ganhar a estatueta, em 1933, por E o Vento Levou); Lupita Nyong’o (vencedora como atriz coadjuvante por 12 anos de Escravidão) e Octavia Spencer (vencedora como atriz coadjuvante por Histórias Cruzadas). Todas elas dividem algo em comum além do careca dourado em casa. Todos os três personagens que interpretam são escravas, donas de casa ou empregadas – nada que cruze a linha de sua cor.

Portanto, ainda que seja em um ano que uma das maiores interpretações de um ator (Idris Elba em Beasts Of no Nation) em filmes tenha sido esnobada pela academia, é importante olhar a questão com um olhar ainda mais amplo. Como colocar a culpa somente nos Oscars , quando toda a indústria está corrompida? Neste momento, chovem mea-culpas, editoriais – embora a perspectiva de uma mudança real escorra pelo ralo sempre aberto do esquecimento.

Uma das vozes mais ativas da causa negra entre os artistas, a atriz Viola Davis, protagonista da aclama série How To Get Away With Murder, em seu discurso de aceitação do prêmio Emmy que recebeu por seu papel na série disse que “a única coisa que separa mulheres brancas de mulheres de cor são as oportunidades” – e não poderia estar mais correta.

Ator indicado ao Oscar em apenas uma oportunidade (tendo perdido inexplicavelmente para Alan Arkin por Pequena Miss Sunshine), Eddie Murphy, já ná década de 80 declarou, em discurso na academia, que os prêmios jamais iriam parar na mão de negros. O que é uma mentira provada já algumas vezes, quando, por exemplo, Halle Berry e Denzel Washington formaram a dupla de atores à ganhar as categorias principais daquele ano. Ambos, negros.

Esse assunto, obviamente, permite variadas discussões e pensamentos. É de suma importância, entretanto, formar nossa posição fugindo da sombra do radicalismo  – ainda que sem perder o foco do grande salto que planejamos dar.

Anúncios