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Renato Furtado

Na grande temporada de premiações, resta apenas uma cerimônia. O Globo de Ouro (cada vez mais irrevelante) e os Prêmios do Sindicato dos Atores (SAG) já foram e agora só falta mesmo o Oscar, no dia 28 de fevereiro. Ontem, dia 30 de janeiro, quando a cerimônia do SAG foi encerrada, ficou evidente que o assunto que toma o meio cinematográfico no momento ficou ainda mais quente e ainda mais urgente.

Contudo, antes de mais nada, vamos falar um pouco sobre alguns dos ganhadores – dessa vez, focaremos mais no cinema. Das quatro categorias de atuação cinematográficas – melhor ator, melhor atriz, melhor ator coadjuvante e melhor atriz coadjuvante -, tivemos apenas uma vitória realmente surpreendente e que embolou ainda mais o jogo. Alicia Vikander venceu a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante por seu trabalho em A Garota Dinamarquesa e complicou a situação: anteriormente, Rooney Mara e Kate Winslet eram, praticamente, as únicas favoritas ao prêmio; agora, adicione o enorme talento de Vikander e está criada uma situação quase impossível de ser prevista. Na opinião do C2M, o Oscar ainda fica com Mara, mas é certo que sua vitória ficou muito mais difícil agora.

Para as categorias de melhor ator e melhor atriz tudo correu como o esperado. Brie Larson venceu por seu papel em O Quarto de Jack e Leonardo DiCaprio venceu por seu papel em O Regresso, ambos merecidamente. Conforme os dois vão dominando todas as premiações pelas quais passam, o Oscar fica mais próximo e cada vez mais difícil de não ser entregue a eles. Larson é simplesmente brilhante e está destinada a ser uma das maiores atrizes do mundo em poucos anos; quanto a DiCaprio, apresentações e elogios são quase dispensáveis, uma vez que sua maestria e genialidade são de conhecimento público.

Na categoria de melhor elenco em filme (a de série de comédia ficou com Orange is The New Black e a de drama com o cast de Downton Abbey), Spotlight venceu com sobras. O filme continua certamente como um forte candidato ao Oscar de Melhor Filme, ainda que não seja o melhor filme de ano. Uma vitória de A Grande Aposta na noite passada teria embolado mais o páreo – especialmente porque A Grande Aposta é um filme bastante superior a Spotlight, longa cuja estrutura um tanto quanto capenga, funciona apenas por causa de seu maravilhoso elenco. Prêmio merecido.

Falta falar de uma categoria cinematográfica, uma que não surpreendeu – pelo menos, não surpreendeu nossa equipe. Dentre os filmes e pessoas não indicados ao Oscar, a falta mais gritante é, sem sombra de dúvidas, a de Idris Elba na categoria de Melhor Ator Coadjuvante. Ainda que Mark Rylance, Mark Ruffalo, Sylvester Stallone, Christian Bale e Tom Hardy – principalmente estes dois últimos – estejam perfeitos em seus filmes, o fato é que Elba jogou em um nível diferente no ano de 2015, fez cinema de uma maneira que só os gênios podem fazer. E, ainda assim, não foi indicado ao Oscar, esnobado pela Academia, que lhe roubou uma estatueta quase garantida. Sua vitória no SAG (esmagadora ao ser complementada pela seu triunfo na categoria Melhor Ator de Telefilme/Minissérie por Luther, uma das melhores séries dos últimos anos), não é só uma vitória sua; é uma vitória da diversidade e um verdadeiro soco na cara da Academia.

A pancada se tornou ainda mais forte quando Uzo Aduba, Viola Davis e Queen Latifah venceram os prêmios de suas categorias (melhor atriz em série de comédia, melhor atriz em série de drama e melhor atriz em telefilme/minissérie, respectivamente). Ainda que nenhuma delas tenha sido premiada por um desempenho em um filme – a Academia só premia trabalhos cinematográficos, vale lembrar -, o fato é que elas representaram um verdadeiro ponto de virada nas discussões das últimas semanas – para saber mais, leiam o texto do Caio aqui.

Essas vitórias – além do triunfo de “Birth of a Nation” em Sundance, um filme sobre a escravidão e de mais um prêmio para Jeffrey Tambor por seu inspirador papel em Transparent no SAG, categoria de Melhor Ator em Série de Comédia – mostram que a questão da diversidade e da falta de representatividade – ou seja, da falta gritante de atores de gêneros, etnias e orientações sexuais diversas, e diferentes de homens brancos heterossexuais, no cinema e na televisão – nos meios do entretenimento não precisa ser debatida: precisa ser resolvida. Ainda que a conversa precise seguir um longo caminho para derrubar as ideias retrógradas que, infelizmente, comandam o jogo cinematográfico, já passou o tempo do debate; agora é o momento de fazer o que precisa ser feito.

Evidentemente, isso vai muito além de um aparente preconceito da Academia. Não diria que a Academia é especificamente preconceituosa – a presidente é uma mulher negra, vale ressaltar. O buraco é mais embaixo: o jogo é preconceituoso. Mudar as regras da Academia, mudar os membros que votam e convidar pessoas que representem mais e mais gêneros e etnias e orientações sexuais é, certamente, um passo à frente, mas um passo pequeno. Na realidade, o que mudará serão as regras de votação e quem vota, mas a grande questão permanece: votação para premiação nenhuma resolve a falta de papeis e trabalhos para as minorias.

A solução reside em uma mudança radical de mentalidade. Seria impossível, por exemplo, premiar Idris Elba ou Viola Davis alguns anos atrás porque os dois sequer estavam à frente de grandes séries ou grandes filmes. Não se pode votar, nomear, indicar, celebrar ou premiar alguém por algum trabalho que essa pessoa não realizou, um trabalho que essa pessoa não teve a chance, a oportunidade de realizar. É como diria a própria Viola, no seu discurso de aceitação do Emmy pelo seu brilhante papel em How to Get Away With Murder: “Você não pode vencer um Emmy por um papel que simplesmente não existe […] o que separa as mulheres de cor (negras, latinas, asiáticas e por aí vai) do resto é a falta de oportunidades”.

Portanto, os prêmios do SAG de ontem à noite são um verdadeiro colírio para os olhos cansados. Há um longo, longo caminho para ser percorrido, mas as vitórias desses atores e atrizes faz com que o debate se mantenha vivo, que não seja varrido para baixo do tapete e que nos dê alguma esperança de ver resolvida a situação. Um dos atores do brilhante elenco de Straight Outta Compton disse, em entrevista à TNT, que “está otimista” em relação ao debate e toda esta questão. É preciso estar otimista mesmo: o momento é propício e a mudança pode ser atingida.

A lendária Carol Burnett – ao aceitar o prêmio de honra celebrando sua carreira ontem no SAG – disse que uma vez disseram a ela que o mundo do entretenimento era para homens. À época, ela balançou a cabeça, disse um sonoro não, provou a todos que o mundo estava errado e ontem ganhou o prêmio de honra da noite. Há muito a ser feito, mas os passos estão sendo dados graças à coragem de todos os atores e atrizes que representam as minorias. A todos eles, nossos agradecimentos e nossa solidariedade por continuar fazendo do mundo um lugar melhor através do cinema e da televisão. Muito obrigado e vamos em frente.

 

A lista completa dos ganhadores do SAG Awards você confere aqui!

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