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NOTA: 8 / Renato Furtado

Como toda e qualquer arte, o cinema é um reflexo, um espelho da sociedade. As artesãs e os artesãos que, pacientemente, criam, costuram, amarram, pintam, tecem e filmam suas obras trazem consigo grandes doses do mundo que os cerca – em níveis variados e em instâncias diferentes, evidentemente. Nos últimos anos, um dos temas mais em questão é o feminismo, a luta das mulheres por seus direitos, um movimento que vem ganhando cada vez mais impulso por uma série de fatores inúmeros e distintos. Um deles é, justamente, a maior participação que as mulheres estão conseguindo atingir na indústria cinematográfica.

Como todo grande negócio do mundo capitalista, o cinema é comandado por homens brancos. O que isso, obviamente, acarreta é que as tomadas de decisões que esses executivos tomam partem muito de suas visões de mundo – geralmente, conservadoras e preconceituosas. Então, é fácil concluir que se as mulheres sofrem o que sofrem em seu dia-a-dia, elas também sofrem para conquistarem seus espaços de direito nas grandes indústrias. Por isso, quando surge um filme como “Cinco Graças”, dirigido pela turca Deniz Gamze Ergüven, os motivos de celebração são incontáveis.

O longa não é apenas uma vitória feminina e feminista, mas uma vitória cinematográfica onde cinco irmãs turcas aprendem que, apesar da maneira livre como foram criadas durante suas infâncias e juventudes, o mundo é bem mais complicado do que parece ser e, logo, elas perdem as possibilidades de viverem suas vidas da maneira como viviam e da maneira como queriam viver, sendo obrigadas a se inserir na mentalidade patriarcal e retrógrada de uma sociedade que trata suas mulheres com pouco (ou nenhum) respeito.

Aqui entra o trunfo: apesar das aparências, esse não é um filme-denúncia. De maneira diferente do bom “Cairo 678”, filme egípcio que aborda a violência sofrida pelas mulheres no Egito pré-Primavera Árabe, “Cinco Graças” busca ampliar o debate, sem perder de vista a qualidade narrativa, a leveza e a objetividade em momento algum. Longe de ser um mero tratado político destinado a uma meia-dúzia de pessoas ou de uma película carregada com peso além da conta, “Cinco Graças” espelha justamente suas cinco protagonistas: como elas, o longa é gracioso, belo, exuberante, triste, surpreendente, alegre, enérgico, calmo, vibrante, suave, firme, direto… Os adjetivos continuam; para efeito de síntese: o filme empresta e toma emprestado de suas personagens a complexidade necessária para abordar o que aborda.

Com bastante habilidade, tato e sensibilidade, Ergüven aponta caminhos de maneira sábia e crítica. Aqui, nem todos os homens são os inimigos (ainda que a maioria deles seja realmente fonte de algum tipo de perigo) e algumas das mulheres são coniventes com a situação vivida – por inúmeros motivos sociais, históricos, religiosos, é claro. Ao mesmo tempo, nem todas as situações pelas quais as irmãs passam podem ter “critérios de avaliação” aplicados de maneiras iguais, cada caso se torna um caso distinto, dotado de nuances específicas, abordadas com maestria pela equipe de direção – onde o roteiro prova que as coisas não são tão simples quanto os inflamados defensores de um lado ou outro acreditam ser – como um todo, onde a rigidez e o “engessamento” clássico de filmes que abordam temas sérios perde espaço.

A leveza e a graciosidade do filme nascem muito por conta das cinco atrizes principais, as maravilhosas Günes Sensoy (Lale, uma espécie de “guia” do público), Doga Zeynep Doguslu (Nur), Elit Iscan (Ece), Tugba Sunguroglu (Selma) e Ilayda Akdogan (Sonay) – da mais jovem para a mais velha, no filme. Em uma entrevista, a diretora afirmou que apenas uma delas (Elit Iscan) já havia atuado anteriormente na vida. Essa informação traz ainda mais beleza e espanto porque todas elas são tão boas, mas tão boas que é possível jurar que são atrizes consagradas e experientes disfarçadas de jovens mulheres. Com firmeza, delicadeza, força, amor e coragem, elas interpretam seus papeis, um bem distinto do outro, e provam que são um elenco do mais alto nível – eu diria que este elenco feminino me lembra a qualidade dos elencos femininos de Almodóvar, o que é um grande elogio. A maior dificuldade cabe ao espectador, no fim das contas, e fica o desafio: tente não se apaixonar por essas destemidas pequenas e grandes e jovens e incríveis mulheres.

Retornamos, então, ao início deste texto. Os recentes filmes dirigidos por mulheres – ou fotografados ou escritos ou montados por mulheres – como “Que Horas Ela Volta?”, “Selma”, “Além das Luzes” e este “Cinco Graças”, entre outros, são provas de que, enfim, as mulheres estão chegando com força total em um lugar onde já deveriam estar há muito, muito tempo – e isso vale para todas as áreas da vida. É claro que o caminho é longo, o preconceito é grande e as dificuldades são sólidas, mas ver longas como esses é uma garantia de que o cenário vai mudar, porque já mudou e continuará mudando, já que essas maravilhosas artistas não podem ser paradas. Todo mundo sai ganhando com mais mulheres no cinema – e também em todos os lugares, obviamente: elas, o público e o Cinema.

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Cinco Graças” trata com poesia, crítica e carinho suas personagens e seu tema. A fotografia é boa, a trilha sonora e a montagem idem; para a direção e para as atrizes, ainda não foram inventadas palavras boas o suficientes como elogios à altura. E, ainda que aborde a sociedade turca (o filme concorre como seleção da França porque o dinheiro de produção veio de Paris e não de Istambul), “Cinco Graças” não é uma película turca feminista; é uma película internacionalmente feminista. Suas mensagens e a conquista de espaços e de direitos pelas mulheres devem ser entendidas – e, acima de tudo, propagadas e celebradas – através de uma ótica universal. Este é um exemplo de bom cinema, aquele que transcende idiomas e costumes e nacionalidades. “Cinco Graças” não é apenas um ótimo filme; é uma obra necessária.

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