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NOTA: 9,5 / Renato Furtado

Existem certas palavras e expressões em línguas variadas que não possuem tradução direta para o português. No idioma inglês há “overwhelming”, palavra cuja adaptação mais próxima para a nossa língua seria algo como “esmagador” ou “opressivo”. No entanto, “overwhelming” é muito mais do que isso; e, ao mesmo tempo, palavras são difíceis para definir tal conceito. É como a “insustentável leveza do ser” descrita pelo autor tcheco Milan Kundera em sua obra-prima homônima; é algo que oprime, que faz pressão sobre nós, mas sendo sempre algo encantador, belo, singular, sublime.

Esse é um conceito inerente à escrita de alguns dos maiores autores do século vinte, aqueles que criaram suas obras seguindo o realismo mágico ou realismo fantástico. Nomes como Gabriel Garcia Márquez, Júlio Cortázar, Jorge Luis Borges, Mario Vargas Llosa e Julio Ramon Rybeiro participaram, em uma instância ou outra, desse maravilhoso movimento literário. O que todas as suas escritas possuem em comum são dois requisitos quase essenciais para este estilo: a prosa poética e o fluxo de consciência (os longos parágrafos, escritos como um sentimento só, por exemplo). O tripé formado pelo sublime, pela poesia e pelo fluxo de consciência são, também, as bases do cinema do mexicano Alejandro G. Iñarritú, como seu novo filme, O Regresso, bem prova.

A épica história de sobrevivência de Hugh Glass, um faroeste magistral dirigido pelo mexicano, parece, à primeira vista, preenchido pela mais completa brutalidade e crueza. Não é errada essa interpretação; é, apenas, pouco compreensiva em relação à complexidade do filme. Neste novo filme, há espaço para amalgamar quase todos os temas que Iñarritú trabalhou durante sua carreira e um pouco mais. Se o escopo e toda a ideia soar próximo da megalomania, não será uma suposição equivocada, mas também não estará perto o que realmente é O Regresso. Esta é, definitivamente, uma obra de arte.

Assim como outro grande mestre do cinema contemporâneo, o sempre genial Quentin Tarantino, Iñarritú é um mestre da subversão estilística. Aqui, ele toma emprestado o western, o mais americano dos gêneros, e dá nova roupagem à estética. Se nos clássicos filmes da época áurea dos faroestes, os índios eram os inimigos mortais, a ameaça selvagem, em O Regresso, logo percebemos que o diretor escreveu um filme politicamente complexo: em um deserto nevado dividido pelos nativos americanos, pelos ingleses/americanos e pelos franceses, ninguém é bom, ninguém é mau; todos estão apenas ocupados com suas próprias agendas, com seus próprios objetivos.

Por questionar toda uma histórica lógica cinematográfica, este faroeste já mereceria seus elogios. No entanto, como bom criador, o mexicano sabe os limites e quando precisa recorrer aos temas do faroeste, faz sem medo, mas sem deixar de colocar a própria marca e de criar novos caminhos. Aqui estão os temas da vingança, as perseguições a cavalo, a natureza selvagem, os rifles, as armas, o sangue, a brutalidade, uma terra onde a lei é a bala e, obviamente, grandes, imensas (“overwhelming”) e belíssimas paisagens. Na mistura de motivos e sangue, ainda há caminho para a poesia neste longa.

A prosa poética mencionada acima vem, aqui, das lentes do mestre Emmanuel Lubezki. Filmando estritamente em luz natural, o fotógrafo mexicano conjura as mais belas imagens de sua carreira – que já é repleta de belas imagens e planos. Construído em longos e intrincados planos-sequência, O Regresso se beneficia da genialidade e do olhar de Lubezki, que traz consigo tudo o que aprendeu ao filmar com Terrence Malick. Como se já não bastasse a história, nos tiram o fôlego também as árvores, os rios, as nevascas, os animais, as fogueiras (a utilização do fogo lembra bastante Cinzas no Paraíso de Malick) e, principalmente, as pessoas, os rostos e os olhares.

É impressionante como duas obras de arte tão distintas podem ser produzidas em um mesmo espaço de tempo, em um ano, um ano e meio. Os olhares são tão importantes para O Regresso quanto são para Carol; e um filme é a antítese do outro. A diferença é que, neste último, os olhos evocam o amor, o romance, a perda, a angústia, a melancolia, a beleza, a elegância, a serenidade, enquanto em O Regresso, os olhares anunciam guerra, força, poder e são enquadrados como verdadeiras “janelas da alma”, das almas de homens crus, brutos, violentos, impiedosos e que precisam fazer tudo ao alcance para sobreviver na desolação branca da neve.

São os olhos que movem O Regresso. Principalmente os olhos de Tom Hardy e de Leonardo DiCaprio. Acompanhados por um elenco de apoio encabeçado por Domhnall Gleeson e Will Poulter (sim, aquele moleque de Família do Bagulho provou que é um bom ator, de fato), o que Hardy e DiCaprio fazem em O Regresso é notável. Conhecido por ser um grande diretor de atores e por ter trabalhado com alguns dos melhores na ativa, Iñarritú teve pouco trabalho. Indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante – e grande candidato à estatueta -, Hardy resgata um pouco de seu Mad Max e adiciona ao seu John Fitzgerald deste filme a loucura que ele já havia demonstrado no incrível papel-título de Bronson, de Nicolas Winding Refn. Ele é simplesmente genial e é o contraponto perfeito para aquela que é, sem dúvidas, a melhor intepretação da carreira de DiCaprio.

Nos últimos cinco anos, ele interpretou Calvin Candie em Django Livre, Jay Gatsby em O Grande Gatsby e Jordan Belfort em O Lobo de Wall Street, cada um desses papeis distintos um do outro e interpretados com tanta maestria que é difícil precisar qual é o melhor DiCaprio – isso sem levar em consideração seus papeis em O Aviador e Os Infiltrados de Scorsese e tantos outros filmes onde demonstrou toda sua genialidade. Mas, em O Regresso, ele atinge um novo patamar – que o concederá seu tão merecido Oscar. Para um personagem como Hugh Glass, DiCaprio fez a preparação mais difícil de sua carreira e, em uma interpretação com pouquíssimos diálogos, brilha através de cada movimento e não-movimento que faz no filme. A câmera de Lubezki com seus closes extremos e complexos é o veículo perfeito para DiCaprio que respira em nossos rostos com tanta vitalidade que guia uma das narrativas visuais mais deslumbrantes e estonteantes dos últimos anos. Se me faltam palavras para descrever DiCaprio, é porque um texto não comporta toda a magnitude de seu trabalho. Só mesmo um filme.

E que filme, meus amigos e minhas amigas, que filme. Os motivos visuais encantam: prestem atenção no cantil e na imagem desenhada, assim como nas árvores e no famigerado urso. Prestem atenção e, se possível, não pisquem os olhos – prestem atenção também no piscar de olhos. Devorem esse longa e deixem que ele devore as atenções de volta. Iñarritú é brilhante, é um gênio, um verdadeiro maestro e essa é a sua obra-prima, uma peça de música clássica, um filme tão selvagem e poético e real e fantástico e “overwhelming” como só a insustentável leveza da natureza e da vida pode ser.

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