saul

NOTA: 8 / Renato Furtado

Se há um tema que já foi explorado à exaustão no cinema, este é o da Segunda Guerra Mundial. Não poderia ser diferente, é claro – afinal, este conflito armado é um dos mais importantes da história e foi um dos fatores que definiu nossa sociedade atual, principalmente por causa do desenrolar da guerra, que acabou gerando a Guerra Fria e o clássico confronto entre o capitalismo e o socialismo. Daquela época para cá, é possível traçar inúmeros pontos de interesse dentro da curva histórica – fato que atraiu o olhar de muitos diretores e roteiristas, é claro.

Em decorrência disso, acabou ocorrendo uma certa saturação em cima do tema – os clássicos filmes italianos e americanos sobre o período inspiraram o Bastardos Inglórios de Quentin Tarantino e até mesmo um inoportuno subgênero fílmico B foi criado: o Nazisploitation, filmes apelativos que uniam a violência e sexo explícito. Portanto, para fazer um longa de qualidade, é preciso inovar, pensar fora da caixa e visitar lugares que outros cineastas não colocaram (ou não tiveram a coragem de colocar) os pés. Esta “receita” foi exatamente a que László Nemes seguiu para seu filme de estreia, “O Filho de Saul”.

A narrativa é simples: Saul é um Sonderkommando, ou seja, um judeu que não é levado às câmaras de gás imediatamente e serve como escravo do regime nazista até que seus serviços tornem-se desnecessários – o que geralmente, segundo as cartelas iniciais do filme nos informam, acontecia três meses depois do início do “trabalho”. Em certa ocasião, após mais uma ativação de uma das câmaras de gás, Saul reconhece o corpo de um jovem rapaz e traça para si uma nova e impossível missão: conferir um enterro digno ao menino, longe das cruéis e brutais fornalhas nazistas.

O desafio de Nemes, um diretor estreante em longas – vale indicar novamente, dada a tremenda qualidade de seu primeiro filme -, era justamente criar uma linguagem nova que suportasse todos os horrores de um campo de concentração para trazer um olhar fresco sobre o tema. Sua escolha não poderia ser mais acertada: o húngaro fez de “O Filho de Saul” um filme tanto estético quanto narrativo através de uma direção de fotografia brilhante que confeccionou um idioma próprio para esta película, completando todo o potencial da trama.

Colando a câmera à nuca ou à face de seu protagonista, Nemes nos coloca no centro da ação, utilizando planos muito fechados e muito extremos, onde, frequentemente, nossa única referência é o rosto ou a nuca de Saul. Tais planos, quase sempre planos-sequência, a iluminação realista e o belíssimo enquadramento em retrato, tipo 3×4, são construídos de uma maneira em que o foco da câmera se mantem sempre no que está em primeiro plano – em raras ocasiões é diferente. Esta decisão, especificamente, traz algumas vantagens.

Primeiramente, quase nunca vemos o horror dos campos de concentração. Como os fundos dos planos estão quase sempre desfocados, as únicas coisas que podemos fazer é ouvir e tentar perceber e formar, em meio às disformes imagens, algum sentido do que está acontecendo. Nemes, portanto, renuncia ao sensacionalismo e a apelar em seu filme e, de forma muito mais sutil, nos provoca e nos incomoda o tempo inteiro de forma mais contundente. É como na clássica sequência de Psicose: nunca vemos a faca acertar, de fato, Marian, mas isto não é necessário, basta sentirmos, basta ouvirmos, basta sabermos e o fato de o filme obrigar o espectador a preencher suas lacunas torna a experiência muito mais forte e sensorial.

Ainda, o inteligente enquadramento do fotógrafo Mátyás Erdély carrega consigo alguns elementos importantes inerentes à narrativa. Esta é uma história claustrofóbica, agoniante, confusa, terrível, horrenda, incansável e implacável em seu objetivo direto, seco, rasteiro e eficiente de sequestrar nossos olhares, nos pegar pelos ombros e nos sacudir violentamente. Como transmitir isso de forma melhor do que através das próprias imagens? O 3×4 traz todos esses elementos – exatamente por ser tão fechado, como se os cantos da tela estivessem pressionando os personagens – e também realiza um verdadeiro retrato de como era a (sobre) vida das pessoas que foram submetidas àquelas condições aterrorizantes.

Por último, mas não menos importante, a câmera é um dos principais trunfos de Nemes porque Geza Rohrig é uma força cinematográfica, um tornado húngaro, impossível de ser contido. O intérprete de Saul é o nosso guia (involuntário) e, junto a ele, somos sacudidos, balançados, atacados, tripudiados e precisamos, exatamente como Saul, ter a coragem e a determinação necessárias para completar nossa jornada – chegar até o final do filme. Rohrig, também estreante em longas, constrói diversas e trabalhadas nuances em uma silenciosa, magnética e perfurante performance que lembra bastante, em dados momentos, a de Leonardo DiCaprio em “O Regresso”. Sem sombra de dúvidas, uma das melhores atuações de 2016.

Por outro lado, é claro que a linguagem também traz suas armadilhas. Com um bom roteiro, mas com certas falhas, a confusão causada pela linguagem e pelos acontecimentos pode confundir um pouco, conforme Nemes nos coloca para, praticamente, perseguir Saul pelos quatro cantos de um grande campo de concentrações. Entretanto, isso não diminui a força do filme e nem mesmo seus méritos – sobre o roteiro, vale ressaltar que a simplicidade da força motriz da narrativa é uma maravilha em si só, estruturalmente sem complicações, mas com grande poder e, acima de tudo, grande humanidade.

Grande favorito ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano – e com razão -, O Filho de Saul (que também deveria ter vencido a Palma de Ouro no lugar do confuso “Dheepan”) é um longa importante porque revigora um gênero crucial para nossa sociedade, um gênero de filmes que precisa se manter para sempre porque é mais um lembrete das crueldades que o ser humano é capaz de cometer – e, nos tempos em que vivemos, é bem importante lembrar de um passado que não desejamos que se repita. Além disso, o longa torna-se um dos grandes filmes do ano e faz com que os próximos trabalhos tanto de seu diretor quanto de seu protagonista entrem na lista de espera dos cinéfilos mundo afora.

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