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NOTA: 5,5 / Renato Furtado

Existe uma técnica cinematográfica em relação à edição chamada de hip-hop montage ou simplesmente fast cutting. Esta ferramenta consiste em montar diversos planos curtos em alta velocidade, gerando fins narrativos diversos. Uma das primeiras utilizações pode ser conferida na clássica cena do chuveiro em Psicose, onde Hitchcock monta a cena guiando nosso olhar da faca para Marion para a faca e etc. O fast cutting foi aprimorado para o hip-hop montage por diretores contemporâneos como Darren Aronofksy (em Réquiem Para um Sonho) e Edgar Wright (na famosa trilogia do Cornetto), dois cineastas extremamente distintos entre si e que utilizaram esta estética para moldar suas linguagens. Mais um representante desta peculiar, versátil e ótima ferramenta é o brasileiro Afonso Poyart.

Após estrear nos cinemas com Dois Coelhos (que dependia bastante da edição e dos cortes rápidos), Poyart aceitou o convite para dirigir um thriller policial chamado Presságios de Um Crime, estrelado por Anthony Hopkins e Colin Farrell. A trama segue o personagem de Hopkins, um médium que trabalha com o FBI para encontrar um misterioso serial killer, um assassino perigoso que apenas o vidente pode encontrar através de seus presságios e seus poderes mágicos – ele pode, por exemplo, descobrir a história de pessoas e objetos através do toque. A ideia é boa e parece ser o veículo perfeito para imprimir o estilo insano e veloz de Poyart, certo? Certo. É o que acontece? Não mesmo.

O grande problema de Presságios de Um Crime é o fato de que o filme é muito inferior ao que poderia/deveria ser e isso é culpa de quase todos os envolvidos na produção. Enquanto a premissa promete boas coisas, nem direção, nem roteiro, nem os atores e nem a montagem conseguem corresponder às expectativas e promessas. É verdade que o filme não é péssimo nem tenebroso, tem alguns bons momentos de suspense e ação e a primeira sequência rápida de cenas é ótima para situar o espectador na trama. É um filme para ser visto sem grandes pretensões, no fim das contas.

Como mencionado anteriormente, poderia ter sido melhor. A primeira falha fica à cargo dos roteiristas mesmo: a história, que começa bem, degringola e se torna uma colcha de retalhos de ideias que pareciam boas mas que os escritores, por algum motivo, resolveram picotar até ficarem tão ínfimas quanto ideias ruins. Em seguida, temos o problema com Poyart. É sempre bom ver um brasileiro trabalhando no cinema internacional, mas o fato é que nem sempre dá certo, é preciso admitir isso em algumas ocasiões.

O diretor é melhor em cenas de ação e em cenas fantásticas do que nas cenas de suspense e, em um filme pertencente ao último gênero, ele encontra problemas, evidentemente. Repetindo à exaustão alguns motivos visuais, zooms extremos completamente desprovidos de propósito e algumas técnicas de edição, acabamos cansados na terceira montagem de flashes, desejando simplesmente que o filme volte a ser um suspense ao invés de ser um semi-terror sobrenatural de ação. Mas, todos estes erros são perdoáveis e tudo faz sentido no final. O calcanhar de aquiles do brasileiro é mesmo o seu trabalho com atores.

Dos quatro intérpretes principais, o único que salva é Jeffrey Dean Morgan – e salva por muito pouco. De resto, é terrível. Abbie Cornish é uma boa atriz, mas acaba em um papel e em um direcionamento que são meros estereótipos – o roteiro parece ter consciência disso, já que o personagem de Hopkins expõe todos estes pormenores em dado momento; no entanto, a personagem se mantem em seu caminho, ao invés de se modificar de maneira mais plausível durante a trama. Por falar no mestre, é triste ver Hopkins neste filme. Parece ter caído na mesma armadilha em que DeNiro se encontra no momento, lutando para retornar a algum papel decente.

Aqui, Hopkins não passa de um esboço ruim e malfeito de seu antológico Hannibal Lecter de “O Silêncio dos Inocentes”. Completamente no piloto automático, o ator entrega uma performance que beira a incompetência burocrática. No entanto, ninguém é páreo para Colin Farrell. Alguém precisa se mobilizar e realizar um grande apelo para que o irlandês retorne às comédias como Na Mira do Chefe e Sete Psicopatas – alguns de seus melhores trabalhos – ou que tente novamente os caminhos da televisão – apesar do fracasso de True Detective, Farrell construiu um bom personagem. Como bem disse um crítico do jornal inglês The Guardian, Farrell poderia ser um serial killer que mata as pessoas através de tédio e vergonha alheia.

Em um filme de falhas, erros e excessos, pouca coisa pode ser perdoada. Aliás, o perdão só é merecido porque havia potencial em algum lugar do filme – havia um filme em algum lugar desta história. É uma pena que Poyart e Hopkins e Farrell não tenham conseguido encontrar o caminho certo. Quem sabe da próxima vez.

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