gods-of-egypt-poster

NOTA: 4 / Renato Furtado

Segundo o dicionário, a palavra “brega” pode ser utilizada de variadas maneiras: 1) como um adjetivo pejorativo que descreve pessoas que não tem gosto, que não tem cortesia, particularidade de algo que é comum ou grosseiro, tosco, rude; 2) uma pessoa ou algo que possui as características mencionadas acima (ex: “ela é brega”; “o quadro de Romero Britto é brega”); 3) em português de Portugal, é o ofício do toureiro durante a tourada.

Fora este último significado, os outros dois pontos já fornecem um panorama suficiente para entender o que “brega” significa. No entanto, contudo, porém e todavia, se alguém ainda continuar em dúvida do que está acontecendo quando alguém usa “brega” em uma frase, não tema, o C2M resolve o seu problema! A equipe gostaria de recomendar e encorajar todos os dicionários a inserirem um anexo ao lado da descrição de brega, contendo apenas a seguinte frase: o filme “Deuses do Egito”, dirigido por Alex Proyas.

Eu poderia encerrar a resenha aqui mesmo, na verdade. Claro que isso seria um erro. Faltaria dizer, por exemplo, que o filme dura duas horas e sete minutos intermináveis; que o roteiro é um grande apanhado de todos os filmes “épicos” de aventura e ação dos últimos anos, incluindo os mesmos personagens, as mesmas lutas, os mesmos voos, os mesmos romances inúteis, as mesmas falhas e, também, os mesmos acertos – antes de prosseguir, vale ressaltar que este é um filme que, no fim das contas, funciona, tem um início, meio e fim, deixa poucas pontas soltas e até pode entreter.

Se eu parasse por aqui, faltaria também falar mais sobre o resto do filme. Faltaria falar sobre a quase-inexistência de locações reais e o fato de que o filme foi feito todo dentro de um estúdio, algo que não é um problema, exceto quando os efeitos visuais e especiais parecem ter sido feitos pelos mesmos técnicos que trabalharam nos efeitos presentes em Os Dez Mandamentos da Rede Record – a computação gráfica beira a categoria da mediocridade em certos momentos e, em outros, chega quase a ser razoável, pelo menos em comparação com os piores instantes do filme -, ou seja, isso está longe de ser um elogio.

Lembram quando eu disse que seria um erro se eu não terminasse de falar e deixasse que a resenha se explicasse apenas pelos parágrafos inicias sobre o “brega”? Então, a ideia de que seria um equívoco permanece. Se a resenha parasse lá em cima, faltaria dizer o quanto os atores estão ruins neste longa: os melhores dentre os intérpretes beiram o nível do mediano em seus melhores momentos. Brenton Thwaites (Bek), Elodie Young (Hator) e Courtney Lee (Zaya) são os que se salvam, apesar de alguns pesares. Nikolaj Coster-Waldau e Rufus Sewell estão só ruins. Agora, se Chadwick Boseman, Gerard Butler e Geoffrey Rush dependessem de suas atuações em “Deuses do Egito” para continuar atuando, morreriam de fome – principalmente os dois primeiros, que estão pavorosos no filme. É tão ruim e péssimo que não tem como defender nada do que eles fazem.

Claro que também faltaria falar sobre Alex Proyas, um diretor que continua trabalhando, apesar de ser terrível. Em “O Corvo”, o seu filme mais razoável, ele já estava mal. Em um filme ruim, ele é pior ainda. Toda a concepção artística e visual chefiada por ele é um fracasso neste filme e sua direção de atores (ver parágrafo acima) prova que o dinheiro poderia ter sido gasto com outra pessoa. Para dizer o mínimo, seu trabalho é tosco e dourado demais. Proyas trata motivos visuais e personagens estereotipados – completamente sugados de outros filmes – como se tudo isto nunca tivesse sido visto ou feito (um milhão de vezes, sem risco de exagero) antes.

Por fim, restaria abordar o absurdo e extremamente ridículo fato de que o filme usa atores brancos para representar personagens egípcios – mais um golpe do chamado whitewashing, quando personagens de outras etnias são representados por atores caucasianos – e toda a polêmica gerada em torno do filme (o problema da diversidade no cinema em geral continuará sendo assunto no C2M, mas não neste instante). Mas, acredito que no fim das contas, esta resenha é idêntica ao filme:

Faz sentido, tem início, meio e fim, tem uma mensagem na parte final, pode divertir algumas pessoas, ofender outras e deixar terceiras completamente indiferentes, mas é completamente dispensável depois da constatação que esta é mais uma história brega – provavelmente tão brega quanto a resenha em si.

Anúncios