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Papo reto sobre a Sétima Arte

mês

março 2016

Conspiração e Poder (James Vanderbilt, 2016)

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NOTA: 7 / Renato Furtado

Na vasta e rica história do cinema, é possível encontrar todo o tipo de filmes sobre o jornalismo – em todas as suas formas, do investigativo ao puramente televisivo. Existem os clássicos filmes sobre jornalismo, existem os péssimos filmes sobre jornalismo e existem aqueles que conseguem entreter sem deixar de lado a importância da mensagem: Conspiração e Poder, estrelado por Cate Blanchett e Robert Redford, pertence a este último grupo.

Contando a história da reportagem do programa de tv, 60 Minutes, que influenciou a campanha eleitoral de 2004 nos Estados Unidos ao abordar a questão do serviço (ou da falta dele) militar prestado pelo então presidente George W. Bush, o longa coloca o espectador no centro de uma verdadeira briga midiática, abordando o poder de influência que a imprensa possui e as vidas da equipe de reportagem que produziu a fatídica edição do programa – não é coincidência que o jornalismo seja chamado por muitos de Quarto Poder, funcionando como um poder além do legislativo, do judiciário e do executivo (algo extremamente pertinente ao nosso Brasil de hoje, não é mesmo?).

Escrito e dirigido por James Vanderbilt – que assina o roteiro do excelente “Zodíaco” de David Fincher, um filme magistral sobre o jornalismo investigativo -, este longa consegue ficar acima da média durante quase toda a sua duração. De fato, Conspiração e Poder tem apenas dois (porém grandes) problemas: o problema da emoção e o problema da adaptação. O primeiro problema diz respeito às cenas emotivas. Se tomarmos “Todos os Homens do Presidente” como um exemplo deste gênero de filme, é possível ver que, em momento algum, sabemos das vidas pessoais dos dois personagens principais, interpretados de maneira magnífica por Dustin Hoffman e Robert Redford. Em Spotlight, cujo roteiro é um dos grandes trunfos, os piores momentos são quando temos cenas “pessoais”.

O que isso quer dizer? Que um filme de jornalismo investigativo tem maiores chances de ser um bom longa quando se mantem na investigação e não pula para os trilhos das vidas pessoais de seus personagens. Não é que isso seja uma restrição, não existe uma regra ou um comando que impeça que um filme desse tipo mostre as vidas pessoais de seus personagens – até porque, ao fazer cinema, regras são, normalmente, inúteis e burras -, porém, já foi provado em diversas ocasiões e em diversos longas que a história fica melhor quando o jornalismo e a busca pela verdade, por mais relativa que seja, são os principais elementos da trama – e quando a emotividade de pequenos momentos feitos justamente para a audiência chorar são completamente esquecidos, diga-se de passagem.

O que nos traz ao segundo defeito: a adaptação. Por ser uma história real, é natural que ao adaptar a história, o escritor tenda a querer colocar todas as informações que realmente aconteceram dentro da história. No entanto, para abarcar tudo o que aconteceu, é preciso desenvolver com naturalidade o tal pedaço da trama; caso contrário, sobra um fio solto na trama. Assim, retornamos às cenas pessoais: ao assistir o filme, fica evidente que as relações de Mary Mapes (Cate Blanchett) com seu pai e com sua mãe definiram sua vida e a sua carreira, mas dentro do universo do filme, não fazem grande diferença, não adicionam muito. No cinema, tudo que não adiciona, pode acabar (e quase sempre acaba) atrapalhando.

Contudo, porém, entretanto, todavia, o filme acerta mais do que erra, de fato – excluindo a subutilização da fenomenal Elisabeth Moss, é claro. Conspiração e Poder não é um filmaço e, na verdade, é bastante convencional, tradicional, um típico drama hollywoodiano recheado de grandes estrelas, boas interpretações, uma história real e um resultado final coeso. No entanto, como a história do cinema nos prova incessantemente, ter todos esses elementos na mão não é garantia alguma – muito pelo contrário – de produzir um bom filme ou um filme acima da média. Portanto, James Vanderbilt prova ter um bom controle da sua narrativa, o suficiente para entreter sua audiência.

Além do mais, ajuda e muito o fato de que temos Blanchett e Redford. O segundo, veterano, é um ator até mesmo subestimado. Apesar de ter alcançado bastante sucesso durante a carreira, principalmente no início, não é costume ouvir o seu nome ao lado dos grandes de sua geração. Ele pode não ser genial sempre como Hoffman, Pacino e DeNiro eram naquelas décadas, mas entregava trabalhos de altíssimo nível e de tamanha solidez tanto quanto seu frequente colaborador, Paul Newman. Aqui, não é diferente. Ele nos faz crer em seu personagem, nos faz crer no bom jornalismo e na ética da profissão. Ele nos faz crer que é o melhor âncora de jornalismo televisivo possível. Possui carisma, inteligência, verdade e coragem. Grande atuação.

Mas, é claro, que a cereja do bolo é Blanchett. Tecer elogios a esta atriz à esta altura do campeonato é uma tarefa difícil. Não porque seriam poucos, mas exatamente porque são inúmeros. Além do mais: o que ainda não foi falado sobre os gigantescos e fantásticos talentos da atriz? Como um crítico lá de fora bem notou, é difícil lembrar a última vez em que Blanchett entregou uma performance abaixo da grandiosidade. Ela acerta o tempo inteiro e aqui neste filme não é só o centro da trama, como também é o pilar que sustenta o filme quando ele ameça ruir.

Com algumas mensagens importantes sobre o jornalismo atual, principalmente sobre o sensacionalismo voraz próprio dos abutres que se apropriaram da mídia e sobre a importância do bom jornalismo como uma ferramenta para uma boa e democrática sociedade, Conspiração e Poder patina às vezes, quase escorrega, mas fica em pé, no fim das contas. No geral, é um bom filme e um bom entretenimento.

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#VISÃO2MANOS: Batman v Superman: A Origem da Justiça (Zack Snyder, 2016)

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MÉDIA: 7 – Leia abaixo as críticas de Caio César e Renato Furtado.

#falaCaio

NOTA: 7,5

Quem acompanha este singelo site sabe que eu e meu mano Renato somos tipo Emoção e Razão. É assim que a gente se comporta. Ele é sempre mais centrado, culto, escreve sobre os filmes cabeça; e eu sou o emotivo, que adora os blockbusters, que gosta de umas coisas duvidosas. Pois bem, estes dois perfis travaram uma verdadeira guerra nos últimos meses. Isso porque eu achava, com todas as forças do meu coração, que este filme seria “O” filme. E eu juro que já estava preparando minha musiquinha da vitória e o meu “te avisei” pra quando saíssemos da sessão deste “Batman Vs Superman”. Surpresa: eu quebrei a cara. Na verdade nós quebramos. O filme não é o novo Poderoso Chefão MAS, também não esse desastre anunciado que muitos esperavam.

Para falar sobre este primeiro intento da DC de expandir seu universo e, assim, emular o sucesso absurdo da sua co-irmã e maior rival Marvel, é extremamente necessário pontuar a lambança que foi a estratégia de marketing deste filme. Isto, aliado ao roteiro alucinado do longa, simplesmente matam quaisquer momentos de emoção dos expectadores. Alguns vão vibrar (como na sessão em que eu estava) com a chegada da Mulher Maravilha, ou com as MUITO bem orquestradas cenas de luta dos dois über herois mas, em suma, vai ser só isso. O segundo trailer lançado pela Warner é, de fato, uma das piores peças de marketing de todos os tempos, que serviu para desviar toda a atenção do suposto plot principal do filme. A cagada parece ainda maior quando se percebe que, cronologicamente, os trailers apresentam pedaços de todos os atos – deixando muito poucas novidades para os fãs.

Entretanto, é impossível dizer que se trata de um filme ruim. É apenas uma obra perfeitamente estruturada, com um orçamento absurdo, com nomes de primeira linha, mas sem coração. O filme peca em evocar no expectador qualquer tipo de sentimento. Até porque, inacreditavelmente, parece faltar tempo para tratar dramaticamente melhor dos personagens – embora o filme rode durante mais de duas horas e meia. O roteiro, com alguns poucos, mas importante, furos, demora a engrenar e não permite que entendamos, de fato, o que move o conflito entre os herois.

Porém, é admirável que, mesmo depois de uma das trilogias mais poderosas do cinema moderno, o visionário diretor Zack Snyder consiga estabelecer, em pouco tempo, o tom e o personagem do novo Batman. Ele é ajudado por uma interpretação sóbria, segura e EXTREMAMENTE BOMBADA de Ben Affleck (que com certeza fez um plano black da smart fit e não faltou nenhum dia), que parece ter nascido para interpretar o papel. O mesmo eu consigo falar de Henry Cavill, que embora seja um ator limitado e sem muito carisma, consegue fazer mais do que o roteiro (que sabota um personagem que já é chatinho de natureza) lhe oferece. Alguém de quem eu gosto no filme: Jesse Eisenberg, ainda que metade do mundo dos críticos esteja odiando sua interpretação. Eu normalmente não gosto do Jesse, nem de sua dicção MAS, seu Lex Luthor é um misto de loucura, ambição e poder que valem a pena. E, é claro, a cereja do bolo: a estonteante Gal Gadot, que rouba cada cena em que sua Mulher Maravilha está. E uma menção honrosa à presença sempre marcante da trilha épica do deus das soundtracks Hans Zimmer, desta vez colaborando com Junxie Xl, de Mad Max. Dois temas, especialmente, são memoráveis: o de Lex Luthor e o da Mulher Maravilha.

Pior do que o sentimento de frustração típico é aquele em que sentimos que algo poderia ter sido muito melhor do que foi. Com um terceiro ato quase que perfeito, Batman Vs Superman dá algumas esperanças para o futuro da DC nos cinemas. Entretanto, ele está sendo tocado pelo mesmo Zack Snyder, que não parece ouvir as críticas à falta de emoção e paixão em seus filmes e segue priorizando à imagem em detrimento à mensagem. É um pontapé digno, mas a correria em estabelecer logo um universo que a Marvel, por exemplo, demorou anos (e vários filmes) para estabelecer, pode ser um pouco arriscado demais.  Mas, nós estaremos lá!

#falaRenato

NOTA: 6,5

Vamos direto ao que interessa: Zack Snyder é um Michael Bay melhorado. Nada mais do que isso. Aliás, para ser um legítimo filme de Bay, só faltaram mesmo as mulheres seminuas em Batman v Superman porque o resto tem tudo: barulho, explosões, batida de carros, cidades sendo destruídas, muitos efeitos especiais, muita ação, explosões e BARULHO. Isso é ruim? Não, não necessariamente. Só é ruim quando toda esta parte visual, todo este entretenimento e explosões não conseguem coexistir com um roteiro minimamente decente.

O grande problema de BvS é justamente esse: a falta de um roteiro melhor. A trama é interessante, a premissa é até legal (afinal, todo mundo quer ver o Batman enfiando a porrada no Super-homem), mas a canastrice é de doer o coração. Muito cartunesco (em um sentido pejorativo), muito caricatural e muito complicado em seus diálogos e em suas situações que se resolvem de maneira muita simples. Isso sem falar nas pontas soltas, nas subtramas pouco desenvolvidas e nos ótimos temas (como a comparação da figura do Super-homem com entidades divinas proféticas e messiânicas) que são apenas pincelados, quando deveriam formar o esqueleto do filme.

O filme também sai no prejuízo com Henry Cavill, Amy Adams, Laurence Fishburne e, acima de tudo, Jesse Eisenberg. Os três são atores importantes no filme, evidentemente, e os três são fracos. No caso de Adams, a culpa é da personagem, visto que ela é uma grande atriz. Quanto ao primeiro e ao último, a questão é de problemas de interpretação mesmo. Cavill é um canastrão clássico e talvez funcione apenas em filmes onde faça personagens assumidamente canastrões (como em O Agente da U.N.C.L.E.). Por não ser um dos atores mais talentosos do mundo, dá para entender os problemas. O pior fica por último, no entanto.

Jesse Eisenberg só tem dois tipos de papeis: quando ele faz ele mesmo bem e quando faz mal. Ele não tem variação além dessas duas e o máximo que faz é melhorar um pouco ou piorar muito. Aqui, Eisenberg é totalmente equivocado durante noventa por cento do filme. Ele é irritante, não tem carisma e a cada vez em que aparece só resta torcer para que ele saia de cena o mais rápido possível. Para compensar a performance tenebrosa de Eisenberg, fica a surpresa de que Affleck não compromete o filme, apesar da falta de talento como ator (por favor Affleck, se mantenha apenas como diretor, você é realmente bom nisso). No fim das contas, a melhor do elenco é realmente Gal Gadot, que surpreende, constrói uma boa personagem e se eleva facilmente em meio à catástrofe de interpretações. Será bom vê-la em mais projetos e mais vezes como Mulher Maravilha.

O que funciona mesmo no filme (apesar de todo o barulho da trilha sonora que não sabe ficar quieta nem por um segundo sequer, me fazendo lembrar das palavras do sábio Walter Murch ao exaltar o som e a importância do silêncio no Cinema) são as cenas de ação. Snyder tem um grande controle estético e visual da obra, isso é inegável e, portanto, as cenas de ação e as cenas épicas são interessantes e algumas são genuinamente boas – o filme justifica o 3D e o IMAX e, se possível, recomenda-se ser visto na maior tela possível. A estrutura do combate é bem bacana e a parte final do filme quase nos faz esquecer do roteiro nível 007 Spectre do restante da duração.

Sem mais delongas, é isso aí mesmo, BvS é um filme mediano – supera O Homem de Aço, mas isso não é tão difícil – que demonstra que a DC ainda tem que encontrar o caminho certo. Para BvS, 30 minutos a menos seriam bons, ter uma trama menos carregada, sombria e dramática sem espaço algum para alívio também seria uma boa ideia – as piadinhas da Marvel funcionam tão bem porque equilibram a balança do filme – e, acima de tudo, ter um diretor com um maior controle da narrativa além de ter controle apenas visual. A escola de Michael Bay, no entanto, vai bem. A DC, nem tanto.

 

 

 

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Zootopia: Essa Cidade é o Bicho (Byron Howard & Rich Moore, 2016)

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NOTA: 8 / Renato Furtado

Desde que foi fundada, mais precisamente em 1923 pelo saudoso Valdisnei, a Disney, maior empresa do mundo do entretenimento nos tempos atuais, segue um mesmo tipo de script, por assim dizer. Em quase todos os seus filmes, está lá, marcada com tanta distinção que é impossível não perceber a existência da receita de ouro da companhia. Seus longas seguem o mesmo padrão: a estruturação do roteiro segue a linha doutrinada por Syd Field (que criou sua teoria muito por causa dos filmes da Disney) contando com uma introdução + evento que muda a trama + desenvolvimento + outro evento que muda a trama + clímax/conclusão – receita seguida por grande parte dos filmes hollywoodianos, aliás.

Além disso, todas as tramas da Disney seguem, também, a mesma ideia: comédia + ação + aventura + mensagem moral que nos deixa pensando sobre a vida ou algo do gênero. É sempre assim. Lá vem a pergunta: uma vez que a empresa usa sempre a mesma fórmula a mais de 90 anos, como manter a qualidade? Excetuando um filme ou outro, o que a Disney faz é pegar seus elementos, aprimorar algumas particularidades, criar personagens interessantes e estabelecer uma mensagem forte e importante. E é justamente isto que acontece com Zootopia: Essa Cidade é o Bicho, sucesso instantâneo da companhia.

A trama segue as aventuras e desventuras de Judy Hopp (Ginnifer Goodwin em inglês e Mônica Iozzi em português), uma coelha que sonha em se tornar a primeira coelha policial da história de Zootopia, a cidade onde todos os bichos, predadores e presas, vivem em harmonia uns com os outros. Quando ela consegue ir para a cidade grande, no entanto, as coisas provam ser mais difíceis do que ela esperava. Já vimos histórias parecidas com essas, já vimos personagens parecidos com esses e, ainda assim, Zootopia é incrível.

Por vários motivos: 1) a ação do filme é ótima e toda a animação, a direção e a estruturação das cenas garante que esta seja uma viagem muito divertida e agitada seguindo os pulos e perseguições e jogadas visuais envolvendo Judy e a raposa Nick Wilde (Jason Bateman em inglês e Rodrigo Lombardi em português); 2) a aventura do filme proporcionada pela história de detetives que é o esqueleto da trama faz o longa parecer um verdadeiro trem, se movendo velozmente e sem dar sinais de poder ser parado; 3) o timing cômico da montagem é impecável e as tiradas do roteiro são geniais, fazendo trocadilhos e referências a tudo, dos hábitos humanos transferidos para os animais (a cena da preguiça é hilária) e até as pequenas paródias que o filme realiza (incluindo O Poderoso Chefão e Breaking Bad). Mas, acima de tudo, o maior trunfo do filme vem justamente da ideia que há por trás.

Zootopia é uma animação, mas segue mais a linha de Divertida Mente do que as outras animações, em geral. Em outras palavras, Zootopia pode ser apreciado pelas crianças (o visual e a técnica empregados no filme contribuem para isso, tornando Zootopia em um longa muito bem fotografado, estruturado, colorido e bonito), mas será mais bem compreendido e “degustado” pelos adultos por causa da profundidade escondida em certos instantes da película – e de certas piadas que abordam a vida na cidade e no trânsito, por exemplo. Aqui, a mensagem é a de aprender a conviver com as difereças e o de aceitar a diversidade que há no mundo.

No mundo dos animais, a diversidade é representada pela dicotomia entre predadores e presas – eixo sobre o qual o roteiro gira o tempo inteiro. Existem os que caçam e existem aqueles que são caçados, mas a evolução garantiu que os dois grupos pudessem encontrar uma sintonia sem caçar ou serem caçados. Não é preciso sequer dizer como isso se encaixa no nosso mundo: basta considerar toda a conexão entre maiorias e minorias. A este fato, some o atual momento em que vivemos, e você, caro espectador ou espectadora, pode entender muito bem o tamanho, impacto e o poder que um filme cuja mensagem é aceitar a diversidade pode trazer. É impossível ver o filme e não transferir as relações entre os bichos para o contexto humano: a mensagem é forte o bastante para nos fazer pensar.

E nada melhor do que sair do cinema pensando sobre algo ao mesmo tempo em que um filme tornou uma noite mais divertida. Essa é a fórmula da Disney, essa é a grandeza de Zootopia. Filme essencial para os nossos tempos, que parece cada vez mais recheado de intolerâncias, estupidez e burrice propagada por um sem número de acéfalos que toma as redes sociais e invade meios de expressão para complicar um mundo – segundo seus objetivos mesquinhos e cruéis de manutenção de dominação das maiorias – que pode ser explicado de maneira simples por uma animação: um mundo onde todos são e devem ser iguais, onde todos possuem direitos iguais e podem e devem sonhar sonhos dos tamanhos que quiserem sonhar.

Sonhar. Zootopia é, também, sobre sonhos. É preciso seguir os sonhos e continuar tentando, levantar, não desistir e persistir. Lá em 1923, o saudoso Valdisnei tinha um sonho: construiu um império – que, em 2016, lança um longa que pode ter aberto a discussão para o Oscar 2017, uma vez que Zootopia já é forte candidato a uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. A equipe do Cinema2Manos tem um sonho (teoricamente) mais simples: ver o mundo humano atingir a utopia da harmonia atingida por esse mundo animal. E ainda dizem que somos mais evoluídos.

Mundo Cão (Marcos Jorge, 2016)

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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Em todo filme que lida com uma mistura de gêneros como o seu próprio gênero, há sempre uma boa chance de jogar todo o esforço de produção do longa pelo ralo. Felizmente, isso não acontece com Mundo Cão, novo filme de Marcos Jorge – o mesmo que dirigiu o interessante Estômago, de 2007. No entanto e por outro lado, Mundo Cão não deixa de sofrer com esse câmbio de gêneros e tonalidades durante sua narrativa e, no fim das contas, o resultado é uma trama que podia ser pior e que podia ser melhor.

A trama é simples: Santana (Babu Santana), um funcionário do centro de zoonoses, que à época, por volta de 2007, ainda sacrificava cães perdidos e não reclamados por seus donos após três dias no canil. Em certa ocasião, Santana participa do sacrifício de um grande e raivoso cachorro, tão perigoso quanto seu dono, Paulinho (Lázaro Ramos), que aparece logo após o animal ser morto e promete infernizar a vida de Santana como forma de vingança.

A premissa é boa, a trama possui reviravoltas e a escolha pela troca de gêneros é ousada, porém totalmente compatível ao que o filme propõe debater, apresentar, narrar e apontar. Contudo, como já mencionado anteriormente, a passagem do suspense para a comédia para o drama e de volta para o suspense não garante ao espectador uma viagem das mais tranquilas. De fato, parece mais que o público embarca em um carro que viaja por uma estrada com longos trechos de bom asfalto e com alguns trechos importantes tomados por obstáculos, fazendo trepidar o veículo.

Os problemas podem, certamente, serem dispensados, uma vez que o filme tem bons momentos e conta com boas interpretações tanto de Babu Santana e, principalmente, de Adriana Esteves. O ator que interpreta o filho de Babu e a performance de Lázaro Ramos, que parecia estar em outro filme, são as únicas que incomodam. De resto, o elenco de apoio é sólido e, como de costume, traz boas performances por parte de Milhem Cortaz e Paulinho Serra, cada um em seus campos de atuação e ambos subutilizados, infelizmente.

Enfim, o fato é que, problemas e méritos à parte, Mundo Cão é o tipo de filme que o cinema brasileiro precisa. Distante dos produtos industriais e insípidos da Globo Filmes e afins e mais acessível do que os filmes de arte brasileiros, Mundo Cão ocupa uma faixa muito pouco utilizada no nosso cinema: médio. Médio como um ponte entre o “alto” cinema e o “baixo” cinema, entre o cinema de arte e o cinema de massa. O cinema médio que retrata um Brasil médio, um povo médio e trata de temas médios, que por um lado ou outro, toca ao povo brasileiro em geral.

Quanto mais filmes forem realizados tanto através desta forma de produção quanto através dessa mentalidade, mais longas de qualidade surgirão e, já que são acessíveis e levam uma parcela de público diferente que os filmes da Globo Filmes não conseguem alcançar, mais pessoas irão ao cinema: a matemática é simples. Portanto, por mais que Mundo Cão tenha suas deficiências e falhas (como a trilha sonora, que é insistente e didática), parece ser um bom exemplo de um caminho a ser seguido, se unindo a outros filmes de gênero como Operações Especiais, lançado no ano passado. Além de tudo, Mundo Cão é um filme que fica acima da média e funciona como entretenimento de fim de semana: nesse caso, é isso que importa, no fim das contas.

 

A Série Divergente: Convergente (Robert Schwentke, 2016)

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NOTA: 6 / Esperanza Mariano

Dirigido por Robert Schwentke, responsável também por Insurgente, o terceiro filme da franquia, “A Série Divergente: Convergente” possivelmente ocupará o último lugar no coração dos fãs que acompanharam a adaptação da série de livros de Veronica Roth para o cinema. A combinação de tudo – direção, trilha sonora, edição e atuação – simplesmente não funciona. Apesar de o roteiro clássico entregar um filme com começo, meio e fim (quando o filme acaba quase não dá para lembrar que ainda tem a desnecessária parte 2), Convergente se torna decepcionante em tantos aspectos que é difícil ser salvo.

No terceiro filme da franquia, Tris (Shailene Woodley) precisa lidar com as consequências de ter destruído (ou quase) o sistema de classes que reinava em Chicago e também exposto a existência de um mundo fora do muro em que viviam. A protagonista não demora em decidir fugir da cidade para descobrir quem são as pessoas que os deixaram aprisionados por todos esses anos, em uma fé quase cega de que eles podem restaurar a paz da sociedade em que ela vive e acabar de vez com a divisão de seu povo. A partir daí, o filme beira o cansaço ao se tornar previsível e um pouco entediante.

A relação entre os personagens também não agrada. Tris e Quatro (Theo James) estão entediantes juntos e não conseguem repetir a química do primeiro filme. Shailene, inclusive, entrega uma atuação fraca e quase preguiçosa, sem demonstrar emoção alguma. Theo James consegue se salvar nas cenas de ação em que está sozinho, mas nada de incrível nisso. Os coadjuvantes Ansel Elgort, como Caleb Prior, e Miles Teller, como o caricato Peter, tem alguns bons momentos também, sendo responsáveis pelas cenas mais cômicas do filme. Já os veteranos Naomi Watts e Jeff Daniels entregam atuações competentes, mas que não surpreendem por falta de espaço. O excesso de efeitos especiais também não funciona. No geral, parece mal feito e forçado.

“A Série Divergente: Convergente” é um filme que deixa a desejar em quase todos os seus aspectos. Falta capricho, falta drama, falta espaço para boas atuações e um roteiro menos didático e previsível.  Agora só nos resta esperar para que o último longa da franquia seja um pouco mais surpreendente e bem feito.

 

Marvel arma artilharia pesada para o ano do “Despertar da Força” da DC

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Caio César

Pergunte para qualquer jovem de 20 anos qual o filme de super-herois mais importante da história do cinema e ele, provavelmente, dirá algum título da Marvel Studios. E com razão. Nenhuma produtora foi tão relevante na última década do que a empresa que é liderada por Kevin Feige, sob a batuta de Bob Iger, CEO da Disney, que recentemente adquiriu, por alguns bilhões de dólares, o controle da empresa. Entretanto, basta voltar um pouco no tempo para perceber que o pioneirismo das adaptações de quadrinhos para o cinema fica com a DC.

supermanreeves_1Neste quesito, é inegável a importância do clássico Superman -O Filme, dirigido por Richard Donner e estrelado pelo ícone Christopher Reeves. O longa ganhou o Oscar de Melhores Efeitos Especiais, em 1978, e é, sem dúvida, o primeiro blockbuster de super-herois no cinema.

batman_2Alguns anos depois, os herois haviam caído mais uma vez no ostracismo e não faziam sucesso nas telonas. É quando, em 1989, o visionário diretor Tim Burton decide deixar de lado o tom pastelão de cômico das adaptações anteriores do Homem-Morcego na televisão e leva para o cinema o filme Batman, estrelado por Michael Keaton, e, até hoje, com o dólar ajustado para a inflação, um dos maiores sucessos da história do cinema.

Parecia ser o nascimento de um filão rentável e bem sucedido artisticamente. MAS, umas decisões equivocadas aqui, uns Joels Schumachers ali, e os filmes de Super-Herois caíram mais uma vez no esquecimento. As sequências de Superman enterraram o personagem. As de Batman, enterraram a franquia e alguns dos responsáveis por cometer aquelas desgraças. Demorou, mas a virada do século trouxe um respiro: e dois nomes tem total responsabilidade pelo renascimento dos filmes de herois: o principal, Bryan Singer, aquele que faz bons filmes dos X-men; e Sam Raimi, aquele apaixonado por Homem-Aranha, que fez o primeiro filme, fez do segundo uma obra prima e, bom, cometeu o terceiro.

Com uma pegada mais realista e séria, o primeiro X-men foi um sucesso de crítica e público. Abriu o caminho para as apostas em filmes que poderiam ser extremamente divertidos, mas, ainda sim, passando uma mensagem séria e com algum conteúdo. Sua sequência, ainda mais celebrada, permanece até hoje como um dos melhores filmes que já foram feitos sobre herois. Denso e extremamente bem realizado, é a celebração de uma engrenagem muito bem orquestrada pela Fox e as brilhantes escalações do elenco, como o do novato Hugh Jackman. Não é difícil enxergar o diálogo estrutural entre a franquia X-men e a primeira franquia Homem-Aranha. Um primeiro filme bom e muito bem recebido. Um segundo filme aclamado e sensivelmente melhor que o antecessor. A mancha fica por conta dos terceiros filmes: no caso do X-Men, um bom filme, mas prejudicado pelo excesso de plots e pela perda de seu diretor (que foi para o lado “negro” da DC, filmar o sofrível Superman – O Retorno). Já para o aracnídeo, um desastre total. Um personagem descaracterizado, prejudicado pela atuação horrenda de Tobey Maguire e o excesso de vilões. Era o fim de uma era.

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A partir daí, eu tenho certeza que você conhece muito bem a história. Com o lançamento, em 2008, do bom, mas não ótimo (aliás, jamais entendi o hype excessivo em torno) Homem de Ferro, de Jon Favreau, a Marvel Studios pavimentou o caminho para a criação de um conglomerado absurdamente poderoso que incluía a ideia da formação de um universo compartilhado por todos os super-herois da casa – ou, pleo menos, aqueles que a empresa detinha o direito.

Antes disso, porém, em 2005, Batman Begins havia estreado pela DC. Dirigido por Chris (pros íntimos, né) Nolan, o filme foi uma unanimidade entre a crítica, mas não teve tanto sucesso nos cinemas. A Warner apostou na equipe e com Batman – O Cavaleiro das Trevas, o ápice das produções de super-herois. Talvez o melhor filme de super-herois de todos os tempos, foi alvo de grande campanha para que recebesse uma indicação ao Oscar melhor filme. Mesmo sem muitos atores negros, a indicação não veio. Mas o longa ditou um estilo de adaptação para os filmes da DC – sempre algo mais sóbrio e sombrio que os filmes colorido s e engraçadinhos da Marvel.

A Marvel viveu um período maravilhoso, com sucessos estrondosos, ainda que, de novo, EU não ache tanta graça assim nas sequências de Homem de Ferro, no bobo primeiro Thor, nos mal dirigidos Vingadores. Capitão América 2 – Soldado Invernal – ISSO SIM É FILME! Guardiões da Galáxia – divertidíssimo! Mas, sabe quem não gosta de nenhum deles? O povo da DC, rs. Que via de longe vários sucessos, enquanto eles produziam Lanterna Verde (!!!!!!!! gente que filme horroso !!!!!!) e choravam a falta de capacidade de criação de um universo compartilhado, ainda que todo fã se sentisse mais capaz de fazer isso melhor que aqueles produtores.

Coube ao incompreendido Zack Snyder, pupilo da Warner desde os tempos de 300, e à equipe de produção de O Cavaleiro das Trevas serem os responsáveis pela estruturação do DC Cinematic Universe. E depois do razoável Homem de Aço, 2016 chega cercado por expectativas. É o primeiro ano em que os lançamentos dos dois estúdios chegam brigando cabeça a cabeça para saber quem vai se sair melhor. No fim deste mês, um dos lançamentos mais aguardados do ano para aqueles que acham que vai dar bom (como eu!!!) e para aqueles que acham que vai dar muito ruim (como o mano Renato e o resto do mundo #haters): BATMAN VS SUPERMAN – A ORIGEM DA JUSTIÇA. Mês que vem, GUERRA CIVIL quebra tudo, também vai colocar seus super-herois em ritmo de briguinha de escola. Bryan Singer explora, pela Fox, a cada vez mais confusa e complexa linha temporal dos filmes dos X-men (só eu me senti trouxa após Dias de Um Futuro Esquecido? e eu odeio ser trouxa. odeio pagar de novo pra assistir o que eu já vi ou me fazerem de idiota. odeio andrew garfield e marc webb), com X-MEN: APOCALYPSE. Mas vocês também querem filmes de introdução? Pra DC tem o provavelmente sensacional ESQUADRÃO SUICIDA e, do lado chato, quer dizer, na Marvel, tem DOUTOR ESTRANHO.

O ano reserva altas emoções e embates! Fique ligado no Cinema2Manos para conferir nossas análises e tudo que a gente pensa sobre cinema – sem mimimi!

E QUE VENHA BATMAN VS SUPERMAN TE AMO ZACK SNYDER!

 

 

A BRUXA (ROGER EGGERS, 2016)

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NOTA: 6,5 Esperanza Mariano

Vencedor do prêmio de direção no Festival de Sundance do ano passado, “A Bruxa” é um dos filmes de terror mais comentados das últimas semanas. Acho que há algum tempo não via um filme com jogadas de marketing tão pesadas quando esse. É crítica em tudo quando é lugar, trailer patrocinado em todas as plataformas online, matérias em todos os sites… Quando isso acontece, temos dois possíveis resultados: ou você vai assistir ao filme e ele vai superar as suas expectativas e te surpreender de uma maneira positiva, ou ele vai ser aquela decepção, que te faz deixar o cinema com um pouquinho de raiva da equipe de marketing responsável por todo o hype. Infelizmente “A Bruxa” não foi uma surpresa agradável para mim, acredito que não pelo o filme em si, mas por aquilo que estão vendendo.

Dirigido por Roger Eggers, “A Bruxa” conta a história de uma família da Nova Inglaterra, nos Estados Unindos, em meados do século XVII. Só com essas informações, você já deve imaginar que um dos pontos fortes do filme são suas referências históricas, que de fato merecem destaque. Após serem banidos da plantação onde viviam o casal William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) e seus 4 filhos se mudam para o interior, se estabelecendo às margens de uma floresta bem suspeita. O drama começa quando a filha mais velha, Thomasin (Anya Taylor-Joy) está brincando com o irmão mais novo, um pequeno bebê, e ele misteriosamente desaparece. A partir desse momento, acontecimentos macabros e perturbadores começam a acontecer em torno da família. Mas que fique claro, o filme é um terror histórico, inspirado em lendas antigas que causa muito mais curiosidade do que o medo propriamente dito. Seu desenvolvimento é lento e arrastado, deixando para os minutos finais as melhores cenas.

É preciso dar os créditos à ótima fotografia do filme. A falta de cor e escuridão, combinados com o cenário cru da floresta e a claustrofóbica cabana onde a família vive, era aquilo que o filme precisava para causar o mínimo de suspense no espectador. O figurino também merece menção, os detalhes são abundantes e fazem toda a diferença na experiência histórica da obra – e esse sim é seu ponto forte. Anya Taylor-Joy também pede destaque: a atriz está ótima no papel e carrega o filme em diversos momentos, além de saber aproveitar o desenvolvimento da personagem.

Em geral, “A Bruxa” é um filme interessante. Contudo, um bom filme drama histórico e não de terror, por isso pode decepcionar aqueles que estiverem buscando sustos, mortes e banhos de sangue a cada minuto. Na verdade, não espere nenhum susto de pular da cadeira. As cenas são mais perturbadoras e macabras do que qualquer outra coisa.

 

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