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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Em todo filme que lida com uma mistura de gêneros como o seu próprio gênero, há sempre uma boa chance de jogar todo o esforço de produção do longa pelo ralo. Felizmente, isso não acontece com Mundo Cão, novo filme de Marcos Jorge – o mesmo que dirigiu o interessante Estômago, de 2007. No entanto e por outro lado, Mundo Cão não deixa de sofrer com esse câmbio de gêneros e tonalidades durante sua narrativa e, no fim das contas, o resultado é uma trama que podia ser pior e que podia ser melhor.

A trama é simples: Santana (Babu Santana), um funcionário do centro de zoonoses, que à época, por volta de 2007, ainda sacrificava cães perdidos e não reclamados por seus donos após três dias no canil. Em certa ocasião, Santana participa do sacrifício de um grande e raivoso cachorro, tão perigoso quanto seu dono, Paulinho (Lázaro Ramos), que aparece logo após o animal ser morto e promete infernizar a vida de Santana como forma de vingança.

A premissa é boa, a trama possui reviravoltas e a escolha pela troca de gêneros é ousada, porém totalmente compatível ao que o filme propõe debater, apresentar, narrar e apontar. Contudo, como já mencionado anteriormente, a passagem do suspense para a comédia para o drama e de volta para o suspense não garante ao espectador uma viagem das mais tranquilas. De fato, parece mais que o público embarca em um carro que viaja por uma estrada com longos trechos de bom asfalto e com alguns trechos importantes tomados por obstáculos, fazendo trepidar o veículo.

Os problemas podem, certamente, serem dispensados, uma vez que o filme tem bons momentos e conta com boas interpretações tanto de Babu Santana e, principalmente, de Adriana Esteves. O ator que interpreta o filho de Babu e a performance de Lázaro Ramos, que parecia estar em outro filme, são as únicas que incomodam. De resto, o elenco de apoio é sólido e, como de costume, traz boas performances por parte de Milhem Cortaz e Paulinho Serra, cada um em seus campos de atuação e ambos subutilizados, infelizmente.

Enfim, o fato é que, problemas e méritos à parte, Mundo Cão é o tipo de filme que o cinema brasileiro precisa. Distante dos produtos industriais e insípidos da Globo Filmes e afins e mais acessível do que os filmes de arte brasileiros, Mundo Cão ocupa uma faixa muito pouco utilizada no nosso cinema: médio. Médio como um ponte entre o “alto” cinema e o “baixo” cinema, entre o cinema de arte e o cinema de massa. O cinema médio que retrata um Brasil médio, um povo médio e trata de temas médios, que por um lado ou outro, toca ao povo brasileiro em geral.

Quanto mais filmes forem realizados tanto através desta forma de produção quanto através dessa mentalidade, mais longas de qualidade surgirão e, já que são acessíveis e levam uma parcela de público diferente que os filmes da Globo Filmes não conseguem alcançar, mais pessoas irão ao cinema: a matemática é simples. Portanto, por mais que Mundo Cão tenha suas deficiências e falhas (como a trilha sonora, que é insistente e didática), parece ser um bom exemplo de um caminho a ser seguido, se unindo a outros filmes de gênero como Operações Especiais, lançado no ano passado. Além de tudo, Mundo Cão é um filme que fica acima da média e funciona como entretenimento de fim de semana: nesse caso, é isso que importa, no fim das contas.

 

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