zoo

NOTA: 8 / Renato Furtado

Desde que foi fundada, mais precisamente em 1923 pelo saudoso Valdisnei, a Disney, maior empresa do mundo do entretenimento nos tempos atuais, segue um mesmo tipo de script, por assim dizer. Em quase todos os seus filmes, está lá, marcada com tanta distinção que é impossível não perceber a existência da receita de ouro da companhia. Seus longas seguem o mesmo padrão: a estruturação do roteiro segue a linha doutrinada por Syd Field (que criou sua teoria muito por causa dos filmes da Disney) contando com uma introdução + evento que muda a trama + desenvolvimento + outro evento que muda a trama + clímax/conclusão – receita seguida por grande parte dos filmes hollywoodianos, aliás.

Além disso, todas as tramas da Disney seguem, também, a mesma ideia: comédia + ação + aventura + mensagem moral que nos deixa pensando sobre a vida ou algo do gênero. É sempre assim. Lá vem a pergunta: uma vez que a empresa usa sempre a mesma fórmula a mais de 90 anos, como manter a qualidade? Excetuando um filme ou outro, o que a Disney faz é pegar seus elementos, aprimorar algumas particularidades, criar personagens interessantes e estabelecer uma mensagem forte e importante. E é justamente isto que acontece com Zootopia: Essa Cidade é o Bicho, sucesso instantâneo da companhia.

A trama segue as aventuras e desventuras de Judy Hopp (Ginnifer Goodwin em inglês e Mônica Iozzi em português), uma coelha que sonha em se tornar a primeira coelha policial da história de Zootopia, a cidade onde todos os bichos, predadores e presas, vivem em harmonia uns com os outros. Quando ela consegue ir para a cidade grande, no entanto, as coisas provam ser mais difíceis do que ela esperava. Já vimos histórias parecidas com essas, já vimos personagens parecidos com esses e, ainda assim, Zootopia é incrível.

Por vários motivos: 1) a ação do filme é ótima e toda a animação, a direção e a estruturação das cenas garante que esta seja uma viagem muito divertida e agitada seguindo os pulos e perseguições e jogadas visuais envolvendo Judy e a raposa Nick Wilde (Jason Bateman em inglês e Rodrigo Lombardi em português); 2) a aventura do filme proporcionada pela história de detetives que é o esqueleto da trama faz o longa parecer um verdadeiro trem, se movendo velozmente e sem dar sinais de poder ser parado; 3) o timing cômico da montagem é impecável e as tiradas do roteiro são geniais, fazendo trocadilhos e referências a tudo, dos hábitos humanos transferidos para os animais (a cena da preguiça é hilária) e até as pequenas paródias que o filme realiza (incluindo O Poderoso Chefão e Breaking Bad). Mas, acima de tudo, o maior trunfo do filme vem justamente da ideia que há por trás.

Zootopia é uma animação, mas segue mais a linha de Divertida Mente do que as outras animações, em geral. Em outras palavras, Zootopia pode ser apreciado pelas crianças (o visual e a técnica empregados no filme contribuem para isso, tornando Zootopia em um longa muito bem fotografado, estruturado, colorido e bonito), mas será mais bem compreendido e “degustado” pelos adultos por causa da profundidade escondida em certos instantes da película – e de certas piadas que abordam a vida na cidade e no trânsito, por exemplo. Aqui, a mensagem é a de aprender a conviver com as difereças e o de aceitar a diversidade que há no mundo.

No mundo dos animais, a diversidade é representada pela dicotomia entre predadores e presas – eixo sobre o qual o roteiro gira o tempo inteiro. Existem os que caçam e existem aqueles que são caçados, mas a evolução garantiu que os dois grupos pudessem encontrar uma sintonia sem caçar ou serem caçados. Não é preciso sequer dizer como isso se encaixa no nosso mundo: basta considerar toda a conexão entre maiorias e minorias. A este fato, some o atual momento em que vivemos, e você, caro espectador ou espectadora, pode entender muito bem o tamanho, impacto e o poder que um filme cuja mensagem é aceitar a diversidade pode trazer. É impossível ver o filme e não transferir as relações entre os bichos para o contexto humano: a mensagem é forte o bastante para nos fazer pensar.

E nada melhor do que sair do cinema pensando sobre algo ao mesmo tempo em que um filme tornou uma noite mais divertida. Essa é a fórmula da Disney, essa é a grandeza de Zootopia. Filme essencial para os nossos tempos, que parece cada vez mais recheado de intolerâncias, estupidez e burrice propagada por um sem número de acéfalos que toma as redes sociais e invade meios de expressão para complicar um mundo – segundo seus objetivos mesquinhos e cruéis de manutenção de dominação das maiorias – que pode ser explicado de maneira simples por uma animação: um mundo onde todos são e devem ser iguais, onde todos possuem direitos iguais e podem e devem sonhar sonhos dos tamanhos que quiserem sonhar.

Sonhar. Zootopia é, também, sobre sonhos. É preciso seguir os sonhos e continuar tentando, levantar, não desistir e persistir. Lá em 1923, o saudoso Valdisnei tinha um sonho: construiu um império – que, em 2016, lança um longa que pode ter aberto a discussão para o Oscar 2017, uma vez que Zootopia já é forte candidato a uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. A equipe do Cinema2Manos tem um sonho (teoricamente) mais simples: ver o mundo humano atingir a utopia da harmonia atingida por esse mundo animal. E ainda dizem que somos mais evoluídos.

Anúncios