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NOTA: 7 / Renato Furtado

Na vasta e rica história do cinema, é possível encontrar todo o tipo de filmes sobre o jornalismo – em todas as suas formas, do investigativo ao puramente televisivo. Existem os clássicos filmes sobre jornalismo, existem os péssimos filmes sobre jornalismo e existem aqueles que conseguem entreter sem deixar de lado a importância da mensagem: Conspiração e Poder, estrelado por Cate Blanchett e Robert Redford, pertence a este último grupo.

Contando a história da reportagem do programa de tv, 60 Minutes, que influenciou a campanha eleitoral de 2004 nos Estados Unidos ao abordar a questão do serviço (ou da falta dele) militar prestado pelo então presidente George W. Bush, o longa coloca o espectador no centro de uma verdadeira briga midiática, abordando o poder de influência que a imprensa possui e as vidas da equipe de reportagem que produziu a fatídica edição do programa – não é coincidência que o jornalismo seja chamado por muitos de Quarto Poder, funcionando como um poder além do legislativo, do judiciário e do executivo (algo extremamente pertinente ao nosso Brasil de hoje, não é mesmo?).

Escrito e dirigido por James Vanderbilt – que assina o roteiro do excelente “Zodíaco” de David Fincher, um filme magistral sobre o jornalismo investigativo -, este longa consegue ficar acima da média durante quase toda a sua duração. De fato, Conspiração e Poder tem apenas dois (porém grandes) problemas: o problema da emoção e o problema da adaptação. O primeiro problema diz respeito às cenas emotivas. Se tomarmos “Todos os Homens do Presidente” como um exemplo deste gênero de filme, é possível ver que, em momento algum, sabemos das vidas pessoais dos dois personagens principais, interpretados de maneira magnífica por Dustin Hoffman e Robert Redford. Em Spotlight, cujo roteiro é um dos grandes trunfos, os piores momentos são quando temos cenas “pessoais”.

O que isso quer dizer? Que um filme de jornalismo investigativo tem maiores chances de ser um bom longa quando se mantem na investigação e não pula para os trilhos das vidas pessoais de seus personagens. Não é que isso seja uma restrição, não existe uma regra ou um comando que impeça que um filme desse tipo mostre as vidas pessoais de seus personagens – até porque, ao fazer cinema, regras são, normalmente, inúteis e burras -, porém, já foi provado em diversas ocasiões e em diversos longas que a história fica melhor quando o jornalismo e a busca pela verdade, por mais relativa que seja, são os principais elementos da trama – e quando a emotividade de pequenos momentos feitos justamente para a audiência chorar são completamente esquecidos, diga-se de passagem.

O que nos traz ao segundo defeito: a adaptação. Por ser uma história real, é natural que ao adaptar a história, o escritor tenda a querer colocar todas as informações que realmente aconteceram dentro da história. No entanto, para abarcar tudo o que aconteceu, é preciso desenvolver com naturalidade o tal pedaço da trama; caso contrário, sobra um fio solto na trama. Assim, retornamos às cenas pessoais: ao assistir o filme, fica evidente que as relações de Mary Mapes (Cate Blanchett) com seu pai e com sua mãe definiram sua vida e a sua carreira, mas dentro do universo do filme, não fazem grande diferença, não adicionam muito. No cinema, tudo que não adiciona, pode acabar (e quase sempre acaba) atrapalhando.

Contudo, porém, entretanto, todavia, o filme acerta mais do que erra, de fato – excluindo a subutilização da fenomenal Elisabeth Moss, é claro. Conspiração e Poder não é um filmaço e, na verdade, é bastante convencional, tradicional, um típico drama hollywoodiano recheado de grandes estrelas, boas interpretações, uma história real e um resultado final coeso. No entanto, como a história do cinema nos prova incessantemente, ter todos esses elementos na mão não é garantia alguma – muito pelo contrário – de produzir um bom filme ou um filme acima da média. Portanto, James Vanderbilt prova ter um bom controle da sua narrativa, o suficiente para entreter sua audiência.

Além do mais, ajuda e muito o fato de que temos Blanchett e Redford. O segundo, veterano, é um ator até mesmo subestimado. Apesar de ter alcançado bastante sucesso durante a carreira, principalmente no início, não é costume ouvir o seu nome ao lado dos grandes de sua geração. Ele pode não ser genial sempre como Hoffman, Pacino e DeNiro eram naquelas décadas, mas entregava trabalhos de altíssimo nível e de tamanha solidez tanto quanto seu frequente colaborador, Paul Newman. Aqui, não é diferente. Ele nos faz crer em seu personagem, nos faz crer no bom jornalismo e na ética da profissão. Ele nos faz crer que é o melhor âncora de jornalismo televisivo possível. Possui carisma, inteligência, verdade e coragem. Grande atuação.

Mas, é claro, que a cereja do bolo é Blanchett. Tecer elogios a esta atriz à esta altura do campeonato é uma tarefa difícil. Não porque seriam poucos, mas exatamente porque são inúmeros. Além do mais: o que ainda não foi falado sobre os gigantescos e fantásticos talentos da atriz? Como um crítico lá de fora bem notou, é difícil lembrar a última vez em que Blanchett entregou uma performance abaixo da grandiosidade. Ela acerta o tempo inteiro e aqui neste filme não é só o centro da trama, como também é o pilar que sustenta o filme quando ele ameça ruir.

Com algumas mensagens importantes sobre o jornalismo atual, principalmente sobre o sensacionalismo voraz próprio dos abutres que se apropriaram da mídia e sobre a importância do bom jornalismo como uma ferramenta para uma boa e democrática sociedade, Conspiração e Poder patina às vezes, quase escorrega, mas fica em pé, no fim das contas. No geral, é um bom filme e um bom entretenimento.

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