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Cinema2Manos

Papo reto sobre a Sétima Arte

mês

abril 2016

Capitão América: Guerra Civil (Joe & Anthony Russo, 2016)

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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Seria possível começar a presente crítica de um milhão de maneiras diferentes. Seria possível começar falando sobre a política, sobre ideologia, sobre controle, sobre vigilância, temas cruciais nos dias de hoje. Em um lado mais subjetivo, seria possível começar falando sobre amizade, sobre lealdade, sobre vingança, sobre tristeza e sobre mágoas, sentimentos e paixões que nos movem, fundamentam nossos atos. Poderíamos começar falando também sobre os efeitos especiais ou algumas sequências de ação realmente memoráveis (especialmente a do aeroporto), ou até mesmo sobre os novos heróis. Mas, o melhor comentário inicial sobre “Capitão América: Guerra Civil” pode ser resumido pelo seguinte: o filme é diversão cinematográfica pura.

Apesar de cada elemento funcionar de uma maneira própria e distinta dos outros, Joe e Anthony Russo, os diretores do filme, parecem ter se especializado em fazer com que o todo seja maior que a soma das partes e o resultado desse esforço é um filme de ação com peso emocional e consciência política cujo roteiro funciona em vários níveis diferentes. Está longe de ser um filme de arte ou um filme que transcende sua vida, dá um novo sentido ao seu dia-a-dia: isso é óbvio, essa não é a proposta. A proposta é fazer um blockbuster de alta qualidade. E foi isso que eles fizeram.

Após os eventos dos últimos filmes dos Vingadores e dos acontecimentos do Universo Marvel no geral, o grupo de heróis é chamado para prestar contas sobre suas operações – principalmente após mais uma dar e errado e custar a vida de civis. Logo, toda a equipe é colocada perante o Secretário de Estado norte-americano (interpretado por William Hurt), que propõe que os Vingadores assinem um tratado que faz com que eles se tornem um braço operacional da ONU, a Organização das Nações Unidas. Uns concordam, outros não: pronto, está configurado o cenário para a guerra civil.

O interessante mesmo é ver como a estrutura do filme serve à participação de todos os personagens, explorando seus melhores e piores ângulos no momento certo. Como já dito no nosso artigo sobre os cinco melhores filmes da Marvel (que você confere aqui), se há algo que os Irmãos Russo sabem fazer é lidar com a megalomania proposta pelo universo. Em tela vemos o Capitão América, o Soldado Invernal, o Falcão, o Homem de Ferro, a Viúva Negra (estes cinco primeiros desempenham papeis mais importantes no contexto desta trama, naturalmente), o Visão, a Feiticeira Escarlate, o Homem-Formiga, o Gavião Arqueiro e também as bem-vindas adições do Pantera Negra e do Homem-Aranha – dois heróis que roubam a cena. Isso tudo para dizer: em nenhum momento parece coisa demais.

É evidente que nas sequências de ação, alguma coisa ou outra possa ser perdida (algo que poderia ter sido consertado com um movimento de câmera mais fluido e mais contínuo, como nas sequências de ação da série Demolidor, da Netflix), mas o esforço de montagem e o roteiro garantem que nenhuma emoção – seja ela criada através de um motivo político, seja ela criada através das relações dos personagens, seus medos, suas agendas, seus interesses e suas subjetividades – seja perdida, intercalando momentos que ganham força narrativa aos poucos para, no fim, nos acertarem com toda a potência guardada. A fluidez dos acontecimentos impressiona: as duas horas e meia de filme passam voando!

Claro que a narrativa é carregada de forma muito interessante pelos atores e os que mais chamam atenção são os que fazem sua estreia no Universo Marvel. Do elenco antigo, não há nenhum grande destaque que se sobressaia sobre os demais porque todos estão bem em um nível parecido – os únicos dois que parecem se erguer um pouco mais são Sebastian Stan, o Soldado Invernal e Paul Rudd, o Homem-Formiga; ambos tem construções e pesos muito diferentes na trama, mas ambos são os jogadores mais valiosos do elenco antigo. Os novatos, por sua vez, são realmente os destaques.

Martin Freeman e Daniel Bruhl são duas caras novas que trazem coisas interessantes e é provável que ainda vejamos – ou saibamos – mais de seus personagens em próximos filmes. Mas, apesar de todos esses pontos altos, Chadwick Boseman e Tom Holland são, de fato, as aparições mais interessantes da trama. Cada a um à sua maneira própria e inseridos na trama com um estilo narrativo que se encaixa às características e necessidades de seus personagens (os momentos de Boseman são claramente mais pesados e dramáticos que os momentos de Holland, normalmente leves, descontraídos e responsáveis por arrancar grandes risadas da audiência).

Mais uma vez, vale ressaltar, o grande trunfo deste filme é a confluência de estilos, jogos narrativos e personagens não é, em momento algum, conduzida de maneira truncada ou confusa. Os Irmãos Russo e sua equipe de cineastas consegue fazer “Guerra Civil” fluir. Acima de tudo e considerando todas as emoções e a política do filme (que melhorou seriamente do segundo filme para cá), o mais importante é o fato de que os diretores conseguiram manter o veículo na direção certa.

No fim das contas, não há nada nenhum elemento ruim no filme – apenas uma coisa ou outra poderia ser melhor, como a trilha sonora e certos movimentos de câmera. Nada disso atrapalha o filme: o longa promete uma ótima noite no cinema, como os filmes antigos prometiam lá na década de 50, e cumpre. E, como os filmes antigos, “Guerra Civil’ é – com o perdão da repetição – pura diversão cinematográfica.

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O Dono do Jogo (Edward Zwick, 2016)

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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Nesta época em que vivemos, existem dois tópicos muito debatidos, mas de formas completamente distintas. O primeiro é a paranoia, tema cada vez mais em evidência, passando a ser tratado como o que, de fato, é: um distúrbio psicológico – ao invés de um estado de loucura que marginalizava as pessoas que desta doença sofriam. O segundo é mencionado por, supostamente, não existir mais: a ideologia. Tanto um tópico quanto o outro só são debatidos da maneira como o são porque fazem parte da formação da própria sociedade em si.

Mas, se por um lado, os distúrbios psicológicos são cada vez mais estudados – começando a ser desmarginalizados, fazendo com que os indivíduos que sofrem destas doenças sejam tratados com mais zelo, dignidade e humanidade -, por outro lado, esta evolução no pensamento humano em direção a um mundo mais humanizado não é visto no debate sobre a ideologia, um tema cada vez mais varrido para baixo dos tapetes do mundo por causa dos interesses de governantes, empresários e outros detentores de cargos de poder – chegamos a uma época “pós-ideológica”, chegam a dizer, um conceito perigoso, por vários motivos. A confluência desses tópicos – e a forma como são tratados – é a base de “O Dono do Jogo”, novo filme de Edward Zwick.

Contando a história de Bobby Fischer, considerado um dos melhores enxadristas de todos os tempos, a caminho de se tornar o mehor jogador de xadrez do mundo, o roteiro de Steven Knight (que, em certos pontos, gasta muito tempo de tela em personagens próximos a Bobby que são apenas pontas soltas) apresenta um gênio claramente afetado por uma mente problemática e que acaba sendo recrutado para representar os Estados Unidos e a ideologia de seu país em um conflito direto – via campeonato mundial de xadrez – com os russos, durante a Guerra Fria.

Através de um interessante trabalho de fotografia, que retrata a passagem do tempo na vida de Bobby (interpretado por Tobey Maguire) do início dos anos 50 até meados dos anos 70 com uma granulação e uma paleta de cores que emulam a fotografia praticada no cinema da época, e de um esforço de montagem que, aliado a uma engenharia de som de alta qualidade (sempre que Bobby está no meio de um surto, os sons do ambiente ao seu redor são intensificados), é possível acompanhar a trajetória e a deterioração da saúde do personagem em um bom ritmo e em uma estética muito valiosa.

Ainda, o bom trabalho dos atores auxilia no processo narrativo. Em um filme biográfico, é extremamente necessário que os atores que carregam a história sejam bons. O trabalho de Tobey Maguire, portanto, foi desafiador e o ator conseguiu completar a missão com um bom aproveitamento, construindo um personagem com nuances nos momentos certos, apesar de falhar em outros instantes, resultando em uma criação que nem sempre consegue trazer a audiência consigo. Ele vai bem, mas tem problemas. Por isso, o caminho fica aberto para que Michael Stuhlbarg e Peter Sarsgaard (como o advogado e o conselheiro de Bobby, respectivamente) roubem a cena.

Ambos os atores possuem papeis de coadjuvantes, mas se entregam à composição de seus personagens com dedicação, estruturando dois contrapontos para Bobby durante sua jornada. Ainda há a participação de Liev Schreiber como Boris Spassky, o maior jogador russo, desempenhando bem o arquétipo de um homem silencioso, avesso aos holofotes, quieto e determinado – como o personagem que interpretou, com maestria, em Spotlight -, sem perder as sintonias mais finas de um personagem como esse.

O departamento de arte e a trilha sonora também fazem um bom trabalho, ainda que seja apenas suficiente, que se limite apenas ao “necessário” – o design de produção inclusive poderia ter sido melhor trabalhado; em certos casos, a tela parece estar repleta de objetos demais. No entanto, aqui cessam os méritos do filme: o grande problema de “O Dono do Jogo” é que Zwick e Knight não permitem que os valiosos subtextos da trama (o conflito entre a genialidade e um distúrbio psicológico e a questão da ideologia) se tornem mais do que meros subtextos.

O que resulta é que, em certos momentos, o longa mais parece pertencer à categoria dos telefilmes do que ao Cinema. Ao não explorar um vasto material com potencial para elevar a qualidade da narrativa, a equipe de cineastas perde a oportunidade de fazer mais do que uma mera cinebiografia. Sim, como já enumerado acima, é evidente que os méritos derrotam as falhas e eventuais equívocos; porém, no fim das contas, paira a sombra do que o filme poderia ter sido sobre a imagem do que o filme é.

Ao contraria as duas correntes de debate apontadas anteriormente, “O Dono do Jogo” arranha a superfície da paranoia (e dos distúrbios mentais) e da ideologia e perde a chance de aprofundar a discussão nas duas frentes: tanto para oferecer um retrato mais real, pungente e humano das doenças mentais – extremamente necessário para que, de uma vez por todas, as pessoas que destas doenças sofrem possam ser melhor tratadas – quanto para desmistificar a ideia de que vivemos em uma era que deixou as ideologias para trás – uma era supostamente homogênea, globalizada, integrada. Hoje, mais do que nunca, é preciso prestar muita atenção e acompanhar de perto os dois assuntos – por nós mesmos e pelos outros.

 


Os 5 melhores filmes da Marvel/Disney!

Renato Furtado

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Quando a Disney comprou a Marvel, em 2009, o mundo do entretenimento ficou em choque. Ninguém sabia o que esperar dessa nova aquisição da empresa do Tio Valdisnei e muitas dúvidas pairavam no ar à época. Hoje em dia, quase sete anos depois – e após a Disney ter adquirido também os direitos sobre a saga Star Wars -, é seguro dizer que foi uma jogada de mestre.

Mas o que realmente ficou na minha mente sobre a parceria Marvel e Disney foi a reação de um antigo colega de classe meu que ficou furioso, para dizer o mínimo, com a notícia e acabou arremessando uma cadeira na parede como forma de extravasar o ódio. Ainda bem que as coisas deram certo, porque imaginem o estrago que ele faria se as coisas dessem errado. Esse post é dedicado a esse colega.

5) Homem de Ferro

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Pra começar bem, nada como voltar às origens. Sim, é tempo de retornar ao filme que começou tudo isso, que deu o peteleco inicial nos dominós e mais qualquer coisa que vocês queiram dizer sobre isso. O ponto é: o primeiro Homem de Ferro já se tornou, à essa altura do campeonato, um clássico dos filmes de super-heróis. Ao olhar para o longa hoje em dia, é possível perceber como as ambições da Marvel aumentaram e como os filmes tiveram um crescimento visível de qualidade, mas, ainda assim, Homem de Ferro 1 é um filme genuinamente bom e divertido, entretenimento de alto nível. Além do mais, esse é o longa que trouxe, oficialmente, a carreira de Robert Downey Jr. de volta do mundo dos mortos. Depois de Homem de Ferro, Downey se tornou uma das maiores estrelas do cinema mundial.

Resultado: diversão pura, ação e atuações para guardar na memória.

4) Vingadores: Era de Ultron

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Depois do primeiro filme dos Vingadores, o maior desafio era realizar um filme que ficasse, no mínimo, próximo de seu predecessor – e dada a grande qualidade do primeiro filme, esta era uma tarefa bastante complicada. Recentemente, Joss Whedon chegou a declarar que gostaria de ter feito um filme melhor e a relação do cineasta com o estúdio ficou abalada por conta de diferenças criativas. Contudo, deixando os problemas de lado, Era de Ultron é um sucessor de alta qualidade para os Vingadores, ainda que não se aproxime da qualidade do original. Ao apresentar novos heróis, explorar lados pouco conhecidos de alguns dos heróis já conhecidos e trazer um dos melhores vilões do universo no personagem de Ultron, dublado por James Spader, Era de Ultron é um dos melhores filmes da Marvel. Além disso, a sequência inicial é, definitivamente, para se guardar na memória.

Resultado: pura diversão cinematográfica.

3) Capitão América: O Soldado Invernal

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Se alguém duvidar o que um bom diretor pode fazer no lugar de um diretor ruim, basta ver os dois primeiros filmes do Capitão América em sequência. Onde havia apenas confusão e problemas, no segundo longa, estes espaços foram preenchidos por uma consciência de altíssimo nível em criar e estruturar ótimas cenas de ação. Cortesia das mentes dos Irmãos Russo, que fizeram tanto sucesso ao aliar a estética de thriller político e de espionagem do universo do Capitão América (ainda que a política de O Soldado Invernal seja às vezes rasa e às vezes confusa) a algumas das melhores sequências de ação de um filme de super-heróis, que acabaram se tornando os responsáveis por serem os diretores principais do Universo Cinematográfico da Marvel. A megalomania da Marvel/Disney combina perfeitamente com o estilo explosivo dos Irmãos Russo.

Resultado: ótimo filme de ação e ótimo filme de super-herói.

2) Guardiões da Galáxia

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Ninguém poderia dizer que um dos melhores, mais queridos, mais divertidos, inesperados, inusitados e deliciosamente caóticos da Marvel/Disney seria um longa sobre um grupo de criminosos intergalácticos que envolve um homem que se autointitula Starlord, uma assassina verde, um brutamontes que não entende ironias, um guaxinim psicótico e uma ÁRVORE. Mas, deu no que deu: Guardiões da Galáxia, dirigido por James Gunn, é um dos melhores filmes da Marvel sem a menor sombra de dúvidas. É obvio que o filme tem falhas, mas a diversão geral é tão grande que é impossível sair de uma exibição desse longa sem ter se divertido muito. Os Vingadores podem ser mais populares, mas os Guardiões são mais queridos.

Resultado: no geral, é um dos filmes mais divertidos dos últimos tempos; pessoalmente, é o meu filme favorito da Marvel.

1) Os Vingadores

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Apesar de já ter cinco filmes, a Marvel/Disney só se tornou o que é hoje depois que Joss Whedon soube combinar as fórmulas de cada um dos heróis do universo, a megalomania do projeto e toda as qualidades dos quadrinhos em um só filme, um longa com potencial para se tornar um clássico do cinema blockbuster por tudo que é e por tudo que representa. Talvez vocês já tenham ouvido falar dele: se chama Os Vingadores. A imagem acima fala mais do que quaisquer mil palavras que eu possa tecer sobre o filme, mas vale dizer: a cena da batalha de Nova Iorque e o momento em que os seis aparecem juntos lutando pela primeira vez é pura magia cinematográfica.

Resultado: potencial clássico do cinema blockbuster.

 

É isso, gente! Amanhã tem a crítica de GUERRA CIVIL aqui no Cinema2Manos! Fiquem ligados!

Os 5 filmes mais fracos da Marvel/Disney

Renato Furtado

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Pensei muito tempo em qual título utilizar para essa matéria e fiquei entre dúvida entre o que ganhou e o outro título, que era “OS CINCO PIORES FILMES DA MARVEL”. Mas, como a gente não é caça-clique (mentira, a gente é sim), resolvi deixar do jeito que está e falar dos 5 filmes mais fracos (ou considerados mais fracos) da Marvel/Disney – isso quer dizer que você não verá nenhum mutante, Cabeça de Teia ou um certo motoqueiro-que-pega-fogo-e-que-veio-do-inferno na lista abaixo. Vamos lá!*

*Os filmes não estão em ordem de classificação, é apenas uma lista – MAS O PRIMEIRO LUGAR VAI TE DEIXAR SURPRESO (mas juramos não ser um site caça-cliques (mentira, juramos nada))

5) O Incrível Hulk (aquele filme com o Edward Norton)

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Edward Norton não fazia a menor ideia do que estava fazendo com a sua vida, essa é a mais pura verdade

 

 

Como já foi explicado acima, alguns filmes não aparecerão nessa lista – esse é o caso do primeiro filme estrelando o nosso herói verde e gigantesco favorito, aquela atrocidade dirigida pelo Ang Lee. No entanto, como a Marvel/Disney não conseguiu acertar o personagem de Bruce Banner até a escalação de Mark Ruffalo no papel, entra aqui o filme que não é nem como Eric Bana nem com Ruffalo: estamos falando do Hulk do Edward Norton, um filme que só é ligado ao MCU (Universo Cinematográfico da Marvel, em tradução livre) por causa de uma aparição relâmpago do Robert Downey Jr. (e também pela participação de William Hurt no elenco, ator que reprisa seu papel em Capitão América: Guerra Civil). No mais, a produção viu Norton – um grande ator, mas não o ator certo para interpretar um personagem como Bruce Banner – brigar com o diretor Louis Leterrier e as coisas desandaram um pouco, é verdade.

Resultado: médio, podia ser pior, podia ser bem melhor.

4) Homem de Ferro 2

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Manual de Cinema, regra número 134: Todo bom filme que se preze deve ter o Mickey Rourke e uma cacatua (não somos especialistas em aves) como os vilões principais.

 

É possível que eu seja a única pessoa a gostar desse filme no mundo todo? Sim, é possível. Mais: é possível que eu seja a única pessoa a gostar mais do segundo Homem de Ferro do que do primeiro? Sem a menor sombra de dúvidas, com certeza sim. O fato é: depois do sucesso inesperado do Homem de Ferro (que é realmente um bom longa), a Marvel/Disney ainda estava aprendendo a dar os seus passos em direção à megalomania que eles eventualmente abraçaram alguns anos depois. Logo, alguma coisa no meio do caminho poderia ter dado errado. E deu. Homem de Ferro 2 foi um sucesso, mas a introdução de novos personagens (como a Viúva Negra de Scarlett Johansson) e a transição de um filme solo para um filme que integra um universo complicaram, visivelmente, a qualidade da produção, no geral.

Resultado: também médio, podia ter sido pior, podia ter sido bem melhor. Eu continuo gostando bastante mesmo sabendo que estou errado. É a vida.

3) Thor: O Mundo Sombrio

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Thor 2 é o equivalente de uma sala de cinema com pilastras na frente das poltronas e reboco caindo do teto (essa é uma história verídica)

 

Cada franquia do universo Marvel possui sua estética própria. Os filmes do Homem de Ferro misturam ação, tecnologia e ficção científica; os filmes do Capitão América andam mais na direção de suspenses políticos; e os filmes do Thor são uma espécie de teatro shakespeariano de uma outra dimensão. O primeiro Thor é interessante – muito por conta do comando de Kenneth Branagh, um ator conhecido por seus filmes teatrais. Mas o segundo… Sinceramente, o que é isso? Ao tentar lembrar do filme, me impressionei como eu não lembro coisa alguma sobre esse filme. A sorte do estúdio é que eles já estavam bem estabelecidos no momento do lançamento desse longa. Ainda, o papel de Natalie Portman, uma grande atriz, cai para uma posição de coadjuvante de um filme para o outro. Subutilizar a Natalie Portman deveria ser crime para falar a verdade.

Resultado: não fede nem cheira, mas fede mais do que cheira.

2) Capitão América: O Primeiro Vingador

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Milhões de dólares para fazer ESSE filme?

 

Quando Capitão América: O Soldado Invernal foi lançado, fui ao cinema com receios e dúvidas – ainda bem que acabei me surpreendendo, visto que o segundo Capitão América é um dos melhores filmes da parceria Marvel/Disney. O motivo das minhas preocupações? O primeiro filme do herói. São tantos erros e tantas falhas que fica difícil perdoar alguma coisa. Mas vale enumerar algumas delas: a direção fraquíssima de Joe Johnston (saudades Jumanji), o roteiro mirabolante, a subutilização de Hugo Weaving, a atuação mais do que problemática de Chris Evans (o ator, que demorou a encontrar o caminho para se estabelecer como líder dos Vingadores, estava ainda com o espírito de Quarteto Fantástico – e isso não é um elogio) e o fato de que Hayley Atwell, intérprete da Agente Carter, deixou saudade em nossos corações cinematográficos (apesar da série Agent Carter existir e ser veiculada em algum lugar, sabe-se lá onde).

Resultado: podiam ter se esforçado mais.

1) Hulk

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Isso sim que é Hulk de verdade! (o site se recusa a utilizar a imagem do filme do Ang Lee, por isso a homenagem ao mito Lou Ferrigno, flw)

 

Lembram quando eu falei que ia mencionar apenas os filmes relacionados ao Universo Marvel dos dias de hoje? É, eu menti. Desculpa, não foi possível resistir à tentação de espalhar algumas palavras sobre Hulk, um dos filmes mais criminosos e hediondos da história dos super-heróis no cinema (a sorte desse filme é que existe X-Men Origens Wolverine e Homem-Aranha 3). Podia ter dado tudo certo? Claro, o diretor era Ang Lee, um dos mais talentosos e capazes cineastas vivos – ele é o responsável por “O Tigre e o Dragão”, “O Segredo de Brokeback Mountain” e “As Aventuras de Pi”, entre outros bons filmes. Além do mais, ele trouxe uma estética interessante, brincando com a linguagem dos quadrinhos na tela de cinema. No entanto e no fim das contas, deu tudo errado, foi tudo para o espaço e a Marvel só teve coragem de mexer em algum filme de super-heróis por sua conta e risco quatro ou cinco anos depois com Homem de Ferro.

Resultado: uma produção cujo roteiro inclui um Hulk de cinco metros de altura brigando com um poodle gigantesco, cujo protagonista é o tenebroso Eric Bana e lidando com os clichês do gênero antes mesmo de eles existirem, de fato. Duas horas e dezoito de agonia e sofrimento para o espectador.

 

Amanhã, aqui no Cinema2Manos, continuaremos nossa cobertura da semana de estreia de Capitão América: Guerra Civil com mais uma lista para saciar os desejos de polêmica que todo bom internauta (que palavra mais anos 2000) tem dentro de seu coração. A seguir: os 5 MELHORES filmes da Marvel/Disney!

O Tesouro (Corneliu Porumboiu, 2016)

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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Tão antigo quanto as narrativas humanas, é o gênero da comédia. Dos primórdios do teatro grego aos dias de hoje, a comédia como gênero narrativo sempre esteve presente como ferramenta e recurso para os contadores de história – evidentemente assumindo um conceito e uma forma próprios e distintos entre si a cada época, da Grécia aos memes.

Constantemente associada ao riso fácil e frequentemente considerada como uma forma de expressão menos séria, contundente ou importante que o dramas – esse descaso pode ser facilmente evidenciado na temporada de premiações cinematográficas -, a comédia é muito mais do que o senso comum acredita. É sabendo desse aspecto do gênero – e através do desejo de explorar suas possibilidades – que o romeno Corneliu Porumboiu criou “O Tesouro”, um filme que demonstra a consciência do bom diretor: não existem caminhos fáceis; apenas caminhos necessários.

Narrando a história de Costi, um homem comum da Bucareste, capital da Romênia, dos dias de hoje, que é convencido por um vizinho a investir algumas economias para alugar um detector de metal com o objetivo de localizar um suposto tesouro enterrado, “O Tesouro” conquista por ser um filme simples, leve e por conter, dentro de sua estrutura eficiente, vários subtextos e comentários políticos, sociais e econômicos.

Adrian, o vizinho, é o responsável por apresentar a situação é a missão: ele precisa coletar o tesouro de sua família porque está desempregado, à beira da falência e com uma enorme quantidade de dívidas com o banco, que ameaça tomar sua casa. Precisamente, essa crise não afeta apenas a Romênia; atualmente, a instabilidade que atinge o projeto de uma Europa unida é marcado pela ascensão de diversos tipos de fascismos, nacionalismos e xenofobias que geram um cenário claustrofóbico e pesado.

Diante de tal contexto, a saída mais fácil e clara a ser tomada é representar tal situação pela ótica de um drama carregado e paciente (o realismo dos Irmãos Dardenne) ou de uma fábula violentamente precisa (como o húngaro “White God”). Aqui, o romeno escolhe o realismo (evidenciado na condução dos atores, na fotografia, na escolha dos cenários, na iluminação, no som, na não utilização de faixas musicais ou de composições originais), mas trilha a rota do humor.

De forma inteligente e bem desenhada, “O Tesouro” é uma comédia de raro tato e consciência política. Garantindo que tanto a direção de arte quanto a direção de fotografia (o comportamento da câmera é fixo, não realiza movimentos bruscos, cria tonalidades e luzes naturalistas e se limita a funcionar como o olhar do público para aquele mundo com o mínimo de interferências) sejam suficientes – ou seja, operam sem chamar atenção para si, sustentando o realismo -, o humor flui com liberdade pelos dois canais protagonistas da criação deste filme: o roteiro e a montagem.

Ao invés de perseguir risadas com gags, piadas visuais ou comédia física, Porumboiu busca o riso inerente à vida, o humor que se manifesta no cotidiano, na simplicidade das situações reais, aquelas em que o riso é produzido pela repetição das ações, sem apelar para nenhum tipo de atalho utilizado pelas comédias mais populares/tradicionais. Ao aliar essa qualidade aos comentários políticos – o verdadeiro ouro enterrado -, o diretor estrutura uma obra de leveza, construída na montagem, justapondo planos que se repetem para atingir um efeito cômico – e também para evidenciar uma certa imobilidade.

“O Tesouro” é um filme de poucos planos e de planos longos, onde os intérpretes de Cristo, Adrian e Cornel (o especialista em detecção de metais que ajuda os vizinhos) tem espaço e tempo suficientes para desenvolver a trama. Muitos desses planos, estáticos e “comuns” do jeito que são, são “repetidos”. O ponto é que esse processo não é uma mera reutilização: é uma recriação, uma inserção dos “mesmos” planos em novos contextos; é assim que a comédia realista, direta e objetiva do filme é atingida – e é assim que ela nos atinge.

Além disso, as grandes elipses da montagem potencializam ainda mais essas repetições porque direcionam o foco aos momentos importantes e aos momentos importantes apenas. Isso acontece porque os saltos no tempo dispensam planos de reação, contraplanos pouco úteis ou outros tipos de planos utilizados à exaustão em geral no cinema, mantendo apenas o que é necessário e pertinente à narrativa – fazendo, por exemplo, com que o simples barulho do detector de metais seja ressignificado para deixar de ser apenas um complemento sonoro e se torne motivo de boas risadas.

Precisamente, a estrutura narrativa e fílmica aqui empregada se prova ser de grande qualidade, eficiência e valia porque o diretor acerta as tonalidades certas. Seu trabalho com os atores, suas escolhas estéticas e seu controle sobre o ritmo do longa nos convencem de que, no fim das contas, as sutilezas escondidas e o realismo proposto em “O Tesouro” dificilmente seriam atingidos pelas mãos pesadas características dos dramas.

Como o tesouro (praticamente um protagonista) do filme, há muito a ser descoberto no subterrâneo desta obra, verdadeiros subtextos que se adicionam às camadas primárias, que subvertem a leveza e o humor e que constroem, no fim, a verdadeira crítica ao cotidiano e ao estado das coisas, da Europa e no mundo ocidental. Às vezes, mesmo que as coisas estejam claras, é preciso escavar e buscar debaixo da terra para descobrir que, de fato, não há nada de novo debaixo do sol que se levanta dia após dia.

MOGLI – O MENINO LOBO (Jon Fraveau, 2016)

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NOTA: 8 / Caio César

Existe uma dificuldade óbvia na revisitação de grandes clássicos em novas produções. Ela fica ainda mais latente quando o clássico em questão será apresentado em uma nova plataforma. Ela consiste na solução da seguinte problemática: reverenciar o produto original; e oferecer algo novo para as novas gerações (e àqueles que pararam no tempo e ainda piram com seus clássicos de juventude). É o que acontece com o novo Mogli – O Menino Lobo, adaptação da Disney para o memorável desenho infantil dos anos 60.

Transpôr um desenho animado para as telas acrescenta mais um problema: como recriar a selva? onde filmar? Para todas estas questões, o diretor Jon Fraveau tem a resposta. Filmado digitalmente em um estúdio de Los Angeles, Mogli tem um conceito visual ousado e ultrarealista. O que causa, é verdade, certo estranhamento quando os animais abrem a boca e começam a falar. Isso logo é contornado com as explicações de Bagheera, personagem de Ben Kingsley. Entretanto, ainda estranho reparar que alguns animais não desenvolveram um “linguagem” enquanto outros, do mesmo habitat, são tratados diferentemente.

E por falar em Kingsley, todo o elenco de vozes merece parabéns pelo trabalho excepcional – com destaque para o vilão de Idris Elba.  Scarlett Johansson parece ter tido algumas cenas suas cortadas (talvez até por causa de sua delicada situação de gravidez). Honra também ao mérito do ator mirim Neel Sethi, que segura todo o filme nas costas – e cujo carisma e inocência do personagem são trabalhados de maneira perfeita com a naturalidade do personagem. A história, contudo, mantém-se a mesma. Mogli é um menino que, logo cedo, é levado para morar com lobos, em uma alcateia – depois que seu pai faleceu nas mão do tigre Shere-Khan. Ele, com o tempo, desenvolve características de humanos, levando ele a questionar se sua presença na aldeia dos lobos é correta – já que o temido tigre anunciou o início da caça ao garoto, devido ao que aconteceu no passado.

O tema sombrio permite que Jon Favreau aplique, no filme, uma quantidade maior de sobriedade e de realismo fantástico, conferindo certa crueza em algumas cenas que devem deixar os filhos um pouco desconfortáveis. O roteiro do remake, escrito porJustin Marks e Rudyard Kipling (que também escreveu o longa animado original) encontra certa dificuldade temática para encaixar alguns dos maiores clássicos do longa. Se a música de Baloo (Somente o Necessário) entra perfeitamente na lógica daquele mundo, o mesmo não se pode dizer do número musical estrelado por King Louie, personagem de Christopher Walken, que soa artificial, falso e que nos tira completamente da imagem pré construída pelo longa sobre o poder, a imponência e a sobriedade do grande gorila.

Com um 3D de tirar o fôlego, muito bem construído conceitualmente, Mogli – O menino Lobo é mais um tiro certeiro da empresa do Mickey Mouse. Lindo, encantador e muito bem realizado, o filme é o segundo acerto do ano da empresa, que já nos presenteou com o maravilhoso Zootopia. Terminando com pontas soltas para uma nova aventura, após uma pulsante e muito bem filmada cena final de ação, o longa não dá sinais de cansaço e deverá retornar em breve com mais uma história do universo agora comandado por Favreau.

Ave, César! (Joel & Ethan Coen, 2016)

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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Cartas de amor possuem uma linguagem própria, um idioma ao qual é preciso se adequar. A escrita direta dos roteiros, a objetiva do jornalismo, a científica dos artigos e livros teóricos, a analítica da crítica cinematográfica e a muito seca ou muito poética, dependendo do autor, escrita da literatura: nenhum desses exemplos cabe, de fato, em uma carta de amor – talvez só o poema consiga ficar minimamente confortável.

O fato é que os arroubos de emoções e paixões contidos em uma escrita como essa necessitam de certo gosto pelo exagero, pela hipérbole, pelo absurdo, pela repetição, pelo grandioso: afinal de contas, não se pode falar de amor sem correr o risco de enlouquecer por completo. Postas estas condições e características, cabe a imaginação estruturar o que artistas fariam ou poderiam fazer ao trabalhar com essa linguagem. Contudo, se a escolha for pelos Irmãos Coen, o esforço imaginativo pode ser dispensado; basta conferir “Ave, César!” para ver o resultado.

Estrelado por um dos melhores elencos dos últimos tempos, esta é a história de Eddie Mannix (Josh Brolin), uma espécie de produtor de set/produtor executivo/”fixer” (especialista em resolver problemas) que faz de tudo pela Capitol Pictures – ele, por exemplo, lida com contratos, com diretores excêntricos e estrelas temperamentais, alimenta ou despista a imprensa e as revistas de fofocas (aqui representadas por duas gêmeas, Thora e Thessaly Thacker, interpretadas pela magistral Tilda Swinton), protege a boa reputação do estúdio etc.

Certo dia de trabalho apresenta aquele que virá a ser um dos maiores de desafios da carreira de Mannix: encontrar Baird Whitlock (George Clooney, mais engraçado e carismático do que nunca), estrela que desapareceu de repente do set de gravações da maior aposta do estúdio para o ano, o épico “Ave, César!”. Precisamente, fica claro, logo após os “créditos iniciais”, que não é coincidência o fato de que o filme dos Coen e o filme dentro do filme sejam homônimos.

Ao acompanharmos o período de um dia de trabalho na vida de Mannix e nas dependências da Capitol Pictures – em uma estrutura cíclica similar à empregada pelos Irmãos Coen no seu último filme, o fantástico “Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum” -, a metalinguagem em jogo se apresenta de maneira evidente, um recurso que estabelece a estrutura dialética sobre a qual a narrativa do novo filme dos Coen é fundada.

Como define o dicionário, a palavra “dialética” possui diversos significados; no momento, o mais importante é considerar tal conceito como “uma espécie de lógica que tenta interpretar os processos (históricos, sociais, econômicos etc.) a partir da oposição de suas forças (antítese), buscando encontrar uma resolução (síntese)”. No caso de “Ave, César!”, os Irmãos Coen trabalham com dois elementos considerados distintos: o cinema e a realidade.

A montagem sempre certeira de Roderick Jaynes (nada mais do que um pseudônimo utilizado pelos Irmãos Coen quando estes assumem a montagem de seus próprios filmes, algo bastante frequente) realiza o trabalho de alternar entre a realidade e o cinema são através do jogo com a razão de aspecto (em outras palavras, quando o  tamanho da tela muda), definindo a linha que separa o que é real do que é cinema (ou circo ou faz de-conta, como os opositores da sétima arte fazem questão de ressaltar durante a trama). No entanto, os Irmãos Coen sabem bem que a fronteira que separa uma coisa da outra é tênue demais para ser concreta ou plausível; surge, então, a genialidade de “Ave, César!”.

Através do humor característico da dupla (presente em quase todos os filmes da filmografia dos Coen, mas evidenciado em obras como “Arizona, Nunca Mais”, “A Roda da Fortuna”, “O Grande Lebowski” e “Queime Depois de Ler”), criado por um casamento perfeito entre o roteiro e a montagem dos cineastas – daí a importância de que eles realizem estas duas etapas cinematográficas -, que realiza pausas, gags visuais, piadas com homenagens e referências a filmes antigos e a momentos anteriores do próprio filme em questão (callback jokes), os Coen fazem graça e anunciam que cinema e realidade não são primos distantes; são irmãos próximos.

Ao fazer Mannix visitar várias produções da Capitol – um faroeste que envolve o ótimo novato Alden Ehrenreich como um típico caubói, um melodrama dirigido pelo fantástico Ralph Fiennes e dois musicais estrelados por Scarlett Johansson e Channing Tatum, fornecendo inúmeros filmes dentro do filme onde o talento de um dos maiores fotógrafos de todos os tempos pode ser utilizado à máxima potência já que o genial Roger Deakins aproveita as mudanças narrativas para empregar, em cada momento, uma estética fotográfica diferente, indo do film noir que é a história de Mannix ao technicolor dos musicais em um piscar de olhos e sempre conjurando imagens de vasta beleza, apuro técnico, belíssimos enquadramentos que encantam e que prestam homenagens ao Cinema -, os cineastas transportam a audiência para dentro do mundo da realização cinematográfica e descortinam tal processo.

Para que o público receba a “magia do cinema” nas telas em seus fins de semana de diversão, são necessárias inúmeras repetições de cada cena para que cada filme possa ser construído da melhor maneira possível. As repetições (de onde vem boa parte das melhores piadas do filme, sempre no tom humorístico mordaz, inteligente e crítico dos Coen, que sabem como ninguém utilizar paródias e pastiches para realizar um grande filme) apontam algo crucial, no entanto: ainda que exista a ideia de que o cinema possui um charme inesgotável, os bastidores provam que não é bem assim que a banda toca. Além do mais, não é assim que a vida é? Momentos repetitivos que, vez por outra, levam a produtos finais de altíssima qualidade?

Os clichês (dos quais os cineastas se aproveitam bastante para efeitos cômicos) são eficientes porque são verdadeiros, na maior parte do tempo: a arte imita a vida e a vida imita a arte e a jornada de cada um de nós é, nada mais nada menos, do que uma ficção. Contamos histórias para nós mesmos e deixamos que as histórias sejam contadas para nós porque isso faz parte da essência humana: somos, afinal, seres construídos por narrativas. Da religião (que é crucial em “Ave, César!”, tanto para o filme quanto para o épico dentro do filme) aos contos populares, a humanidade é feita de ficção. Não existe, de fato, essa “realidade”.

Sempre utilizando o humor e a metalinguagem como suas ferramentas neste filme, os Coen entregam um filme muito mais solar que suas últimas obras, sem deixar de apontar suas armas para todos. A gravidade de um cientista nuclear às vésperas da Guerra Fria, o “peso” dos cientistas sociais e econômicos, representados por Herbert Marcuse “em pessoa”, as religiões e o próprio fazer cinematográfico: nada escapa, tudo é destrinchado e tem suas contradições internas analisadas pelas lentes mordazes dos Coen, que nos provam que tudo possui sua parcela de ridículo, de ilusão, de absurdo e, também, de verdade e de realidade.

Em “Ave, César!” não falta repetição, exagero (o imenso e azeitado elenco ainda conta com as participações de nomes como Frances McDormand, Jonah Hill, Christopher Lambert e até mesmo Dolph Lundgren, todos em participações sensacionais), absurdos (a sub-trama de “Nas Asas das Águias” que traz um grito de águias à narrativa sempre que é mencionada), hipérboles e grandiosidade (o design de produção e a elegância da trilha de Carter Burwell retratam com fidelidade e maestria o louco mundo da Era de Ouro de Hollywood). Sem sombra de dúvidas, é uma carta de amor.

E, como toda carta de amor, “Ave, César!” possui suas imperfeições (a perda de ritmo no ato final é um pequeno problema do roteiro) e suas loucuras desmedidas. Mas, acima de tudo, “Ave, César!” preenche outro requisito importante da linguagem dessas cartas: a fé. No fim das contas, é preciso acreditar. Acreditar nas ficções, no cinema – que é a vida que, por sua vez, é o cinema, uma coisa dentro da outra assim mesmo. Para os Irmãos Coen, o cinema é uma religião, com todas as vantagens e desvantagens que isso pode acarretar. Resta ao público contemplar todo esse amor ao Cinema.

Truman (Cesc Gay, 2016)

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NOTA: 7 / Renato Furtado

Todo e qualquer filme, curta, média ou longa-metragem, possui a sina, o dever, a tarefa, o prazer, a aptidão, o objetivo e a fantasia de representar a realidade; afinal, a realidade (seja a nossa, a de nosso passado, a de nosso futuro, a de Marte ou a de outra dimensão) é a matéria-prima da sétima arte. Caminhos para cumprir essa missão primordial não faltam e cada um deles carrega, dentro de si, suas próprias vantagens, desvantagens, incoerências, contradições, preciosidades e belezas que limitam, inspiram e desafiam cineastas a superarem e aproveitarem cada um destes pontos negativos e positivos.

Seja uma representação alegórica, filosófica, metafísica, satírica ou a mais puramente realista, o certo é que o caminho escolhido deve, quase sempre, ser trilhado do início ao fim. São raras as ocasiões em que um filme trilha mais de uma estrada de representação – e, frequentemente, são estes os grandes e inesquecíveis filmes -, portanto, é preciso seguir em frente. Caso a rota escolhida seja a do realismo, aquela em que um cineasta decide abrir uma janela dentro da sala de cinema para imagens que são as mais próximas possíveis do mundo “real”, não devem existir truques ou ilusões cinematográficas; é preciso buscar a verdade.

Em “Truman”, longa estrelado por Ricardo Darín e Javier Cámara, o diretor Cesc Gay e sua equipe optam pelo árduo e traiçoeiro destino realista. Frequentemente utilizado pelo cinema europeu e pela maioria dos cinemas periféricos (latino-americano, árabe, africano), o realismo necessita de… realismo. Parece óbvio, é óbvio, mas não torna a tarefa mais fácil.

Isso se dá porque a evolução da linguagem cinematográfica criou uma tendência em encurtar cada vez mais os tempos chamados “tempos mortos” – os preferidos dos neorrealistas, não por coincidência -, aqueles famosos instantes onde alguém poderia gritar “nada acontece neste filme, que porcaria!” – ou daí para baixo. No entanto, os tempos mortos são cruciais porque eles aproximam o filme e a narrativa da realidade; na vida, não acontecem perseguições de carros e invasões alienígenas em todos os dias.

Portanto, no realismo, é preciso fazer com que o espectador esqueça ao máximo que está vendo um filme e que acredite que está testemunhando a “janela para a vida”, mencionada anteriormente. Quando mal trilhado, este caminho leva diretamente ao inferno, sem atalhos. Por outro lado, quando bem trilhado, cria obras cinematográficas muito cativantes. Felizmente, este é o caso de “Truman” – pelo menos na maior parte de sua duração.

Aqui, tudo começa bem porque tanto o trabalho de fotografia quanto o trabalho de montagem (principalmente este último) não chamam atenção para si (poucos movimentos e ângulos de câmera bruscos ou “impossíveis”, por exemplo) e apenas carregam a trama da maneira menos intervencionista possível, quase como em um documentário “clássico”. Isso não quer dizer, no entanto, que a fotografia ou a montagem realistas não possam ser belas. Muito pelo contrário, na verdade; o trabalho do gênio da fotografia Roger Deakins (Sicario: Terra de Ninguém, Onde os Fracos Não Tem Vez) e os exercícios de montagem dos filmes dos Irmãos Dardenne são provas disto.

Ainda, todo o design de produção (que inclui a arte, os cenários, figurinos, etc.) acerta ao criar uma atmosfera “verdadeira” nos cenários internos do filme, com detalhes bastante reais aqui e ali e as locações e luzes externas são bem aproveitadas na ambientação narrativa. A trilha sonora também não decepciona, não sendo uma bengala em momento algum, nunca pontuando momentos dramáticos ou impactantes; o silêncio, diferente da maioria dos filmes de hoje em dia, é levado muito a sério em “Truman”, um aspecto fantástico deste longa.

O trabalho de todos os departamentos reflete na direção econômica e objetiva de Cesc Gay, sempre posicionando a câmera e os atores nos locais e instantes certos para não soar intrusivo, desnecessário ou irreal dentro da proposta de seu roteiro. Apesar de todas estas qualidades, contudo, um filme realista tem seu potencial cumprido, na maioria das vezes, pelo trabalho dos atores e tanto Darín, ícone latino-americano, e Cámara são um espetáculo à parte, criando cenas com detalhes, silêncios, piadas internas, sorrisos, olhares e nuances que remetem às lembranças dos dois personagens, velhos amigos que se reencontram uma última vez.

Aliás, esta é a sinopse do filme: os quatro dias de visita de Tomás, personagem de Cámara, a Julián, personagem de Darín, um homem muito doente que tem apenas a companhia de seu fiel cachorro, Truman (daí, o título do filme). Em consequência disso, quando os dois estão em cena, a película vibra e diversas camadas de sub-texto são construídas sem a necessidade de uma linha de diálogo sequer, sem a necessidade de encher a tela e os nossos ouvidos. Cinema que é cinema não fala, mostra; principalmente o cinema realista.

No entanto, nem tudo são flores. A armadilha maior do realismo é, inevitavelmente, o tempo. É preciso ter paciência, é preciso deixar que os personagens respirem e se desenvolvam, sem instalar – de preferência – nenhuma grande situação ou reviravolta (a não ser o incidente ou acidente que dá o pontapé na história e que dispõe os personagens no cenário) na trama para movê-los: no fim das contas, as tramas realistas são, com frequência, estudos de personagens, tipos de narrativas onde os personagens ou protagonistas da trama movem o filme.

É precisamente no ato final em que Cesc Gay cede à tentação de acelerar o desfecho e faz “Truman” derrapar. Apesar de conduzir bem a maioria da duração de sua história, o diretor parece perder a paciência no fim e buscar uma resolução mais simples ou mais rápida, sem passar o necessário tempo de desenvolvimento (não existem pontas soltas, é preciso ressaltar, tudo que acontece no filme faz sentido) que as outras situações do filme passam.

Por causa dos truques cinematográficos – que encurtam o tempo ou tornam ações cotidianas dispensáveis ou tornam ações pouco plausíveis em um realismo incontestável – aos quais o cinema acostumou suas audiências, “Truman” não sofre nenhum golpe fatal, não perde seus méritos. Na verdade, o longa continua sendo realmente bom e emocionante, sem sombra de dúvidas; o único problema é que o desvio do caminho  escolhido o impede de ser um grande filme. Ossos desse ofício de representar o mundo.

 

INVASÃO A LONDRES (BABAK NAJAFI, 2016)

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NOTA: 3 / Caio César

Algumas vezes, no cinema, o uso exacerbado de estratégias ultrapassadas pode ser considerado como uma espécie de homenagem ao cinemão que um dia existiu – desde o conceito de one man army (o popular exército de um homem só, como visto em Rambo), até construções narrativas que não surpreendem nem uma criança, tamanha a previsibilidade do que está na tela. Não é o caso deste Invasão a Londres, sequência de Invasão a Casa Branca, que há dois anos atrás surpreendeu ao se tornar um sucesso de público.

Movendo o cenário para a Europa, o filme é esperto em sua premissa, cujo ponto de partida é a morte de um líder de estado e a eventual reunião de governantes de várias democracias para o seu funeral. Devido ao risco de ataques terroristas, um forte esquema de segurança é montado – e o agente especial interpretado por Gerard Butler é convocado pelo presidente Aaron Eckhart para cuidar da segurança pessoal do líder americano. É na execução do plano maligno que tudo começa a degringolar.

A proporção dos ataques terroristas à Londres é no mínimo descabida. É praticamente uma piada acreditar que toda a operação da cidade seria sitiada em tão pouco tempo – e sem qualquer tipo de monitoramento das autoridades competentes. O público sabe que as coisas não são fáceis assim, que há redes de monitoramento em todos os lugares e que, dificilmente, ações em grupo não seriam interceptadas. Ainda assim, o que poderia ser um grande espetáculo visual é sabotado por efeitos especiais medíocres que empalidecem ainda mais quando visto em telas de alta qualidade como a da exibição para jornalistas. A fumaça das explosões, em determinada cena, só aparece após um certo tempo da explosão: esse é o nível!

A partir daí, o que se vê é um bom elenco em atuações irregulares tentando fazer o que podem com um fiapo de roteiro tão risível quanto as caras e bocas de Gerard Butler, que parece ter encontrado apenas um papel para interpretar e se repete à cada novo filme. Nem Morgan Freeman e sua presença sempre elegante salvam a desgraça. O destaque vai para Aaron Eckhart, cujo personagem é bem trabalhado em suas nuances e é capaz de, legitimamente, emocionar pelo desespero e  crescimento pessoal durante o desenrolar da narrativa.

O diretor iraniano Babak Najafi até tenta oferecer ao público um espetáculo divertido, mas falha consideravelmente. Quando investe em um plano sequência, durante uma invasão a um prédio sitiado, se perde na construção de cena, jamais evocando tensão alguma na plateia que acaba por ficar confusa com os elementos da cena.

Nada, porém, se compara ao terço final da projeção. Com todos os clichês possíveis, diálogos dignos de pena e resoluções patéticas para os conflitos, o filme ultrapassa todas as fronteiras da mediocridade. A cereja do bolo é o discurso ultra-nacionalista, xenofóbico e, de fato, incitador de ira, com frases de repúdio às nações do oriente médio ditas em frente à pomposas bandeiras dos Estados Unidos. No mínimo deselegante e um desserviço da arte neste momento conturbado que envolve refugiados daquelas regiões.

Esquecível e retrógrado, Invasão a Londres, surpreende por sua boa premissa e equivocada execução. Basta esperar agora o Invasão ao Rio. Imaginaram? Por favor, me desculpem.

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