zoom

NOTA: 7 / Renato Furtado

O inferno do cinema está cheio de boas intenções, já diria o ditado cinematográfico. E de boas ideias também, evidentemente. Entra ano e sai ano, surgem dezenas de filmes que tentam, experimentam e buscam quebrar limites e desvendar novas formas de contar suas histórias, novas maneiras narrativas. É natural, o cinema é uma mídia de rápido consumo: é preciso manter o interesse o tempo inteiro pois, caso contrário, é provável que os espectadores procurem outras coisas para assistir, em outras freguesias (como as séries de televisão contemporâneas, que tem inovado bastante em questão de linguagem).

Frequentemente, no meio dessa confusão, acaba se perdendo mesmo a arte, a qualidade da obra, o avanço do cinema, em si. Então, conforme os anos se passam, toneladas de filmes vão para os confins da escuridão do cinema. Às vezes porque são ruins por serem simplesmente ruins – mesmo tentando fazer coisas boas -, às vezes porque se afogam na pretensão e às vezes porque algo deu errado, porque faltou um ingrediente essencial à mistura. Felizmente,  isso não acontece com Zoom, filme dirigido pelo brasileiro Pedro Morelli; longa de qualidade, que tem algo a dizer e que experimentou com sucesso.

Para construir a trama deste longa, é preciso observar, prestar atenção, estar atento: toda boa trama, afinal, é um esforço conjunto de construção, que liga a obra ao espectador e vice-versa. Aqui, três histórias diferentes (a de Emma, a de Edward e a de Michelle) se entrelaçam de maneira metalinguística e intrínseca para formar um grande todo. Ou seja, isso quer dizer que a trama A é ligada à trama B que, por sua vez, é ligada à trama C que é ligada à trama A. Confuso? Poderia ser, mas o roteiro de Morelli e de Matt Hansen é inteligente e sabe lidar bem com seus próprios dilemas – através de um senso de humor perspicaz -, nascidos da própria estrutura criada.

Sem entregar muito da história, basta dizer que Zoom é um filme que trata de um filme, de um livro e de uma história em quadrinhos, tudo ao mesmo tempo, interligando os três personagens principais (interpretados por Allison Pill, Gael García Bernal e Mariana Ximenes, que lideram um elenco bem entrosado com competência, humor e objetividade). Portanto, três estéticas diferentes para contar três linhas narrativas diferentes.

Utilizando um estilo diferente para cada “parte” (inclusive a animação, terreno do personagem de Bernal), Morelli desenha uma intrincada estrutura com grande habilidade. Através de diálogos bem escritos e momentos divertidos, Zoom nos puxa para dentro e nos carrega junto conforme as linhas começam a se cruzar e as barreiras começam a cair. Para isso, Morelli contou com três colaborações importantíssimas: a fotografia de Adrian Teijido, o design de produção de Elisa Sauve e a montagem de Lucas Gonzaga.

A diversidade de estilos da fotografia de Teijido e a minúcia do trabalho de Sauve compõem três ambientes extremamente distintos entre si que, ao mesmo tempo, não conseguem deixar de ser parte um do outro. O longa, como um todo, possui uma estética própria, ainda que esta seja formada por três completamente diferentes. Gonzaga, o montador, dá o acabamento final. Em um filme com múltiplas histórias, a montagem é parte essencial, fundamental. Cada sequência precisa ter seu próprio ritmo e precisa durar o tempo correto e Gonzaga, pegando emprestado as melhores partes da estética de Afonso Poyart, de quem é colaborador frequente, mantem tudo sob controle, o suficiente para não nos perdermos na metalinguagem.

A história cuja trama é falar de si mesma, a história dentro da história (dentro da história, no caso) é um recurso que pode ser incrível ou desastroso. Nos últimos anos, diversos cineastas e artistas de outros campos se aventuraram na metalinguagem. No entanto, saber utilizar esta ferramenta depende de diversos fatores. É evidente que ela pode ser utilizada por si mesma, apenas por ser metalinguagem; contudo, cresce o risco de enviar toda a obra diretamente ao inferno artístico. Por isso, é bom que Zoom tenha algo a dizer, é bom que este longa sustente sua metalinguagem de uma maneira que apoia a narrativa – ao invés de ser uma mera bengala para chamar a atenção, um mero dispositivo de pretensão.

Não, este é precisamente um filme que fala sobre os filmes, sobre as histórias, sobre a relação dos indivíduos com as histórias e sobre como as histórias podem nos influenciar a ponto de criarmos outras linhas narrativas para nós mesmos. A indústria da beleza diz que é preciso ser dessa ou daquela maneira, apresenta imagens que devem ser seguidas, copiadas, reproduzidas sem parar, mas falha em dizer o dano que as imagens podem causar, evidentemente. Todos os problemas que os personagens de Zoom enfrentam é por causa de suas imagens – seja pelo modo como se percebem no mundo ou pelo modo como são percebidos no mundo.

O problema da imagem é um problema atual, é um problema que cada vez mais vem complicando a psicologia humana, complicando a interação humana. Imagens são produtos (a cena do product placement, quando um filme ou uma série mostra um plano de um produto só para vendê-lo, é perfeitamente metalinguística e saborosa), o corpo perfeito é um produto e nós mesmos somos produtos, vendidos conforme nossas “relevâncias” em relação ao sistema de imagens (como Michelle e Edward, duas celebridades, uma modelo e um galã/diretor de cinema).

O lema do século é: o “ser” não é tão importante quanto o “parecer ser” e – apesar de possuir alguns problemas aqui ou ali dentro do roteiro, aspectos que poderiam ser melhor desenvolvidos mesmo que estas pontas soltas não prejudiquem muito o resultado final – Zoom é um filme que entende perfeitamente bem esta ideia. Se o longa vai sobreviver ao inferno das imagens no qual vivemos ou não, essa é uma outra história; o que importa aqui, pelo menos, é que Zoom não cairá no inferno do cinema.

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