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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Em seu livro “44 Cartas para o Mundo Líquido-Moderno”, o sociólogo Zygmunt Baumann, ao falar sobre a incerteza, grande praga de nossa sociedade contemporânea, impulsionada pelos discursos midiáticos da chamada guerra ao terror – recurso de propaganda que induz a população a sentir medo do desconhecido e, em decorrência disso, se proteger o máximo possível -, conta o caso de uma britânica cujo portão do prédio entrou em pane durante 24 horas. Nesse período, a entrada principal para o seu condomínio ficou totalmente aberta, sem poder ser fechada.

A mulher entrou em pânico. Não dormiu, não comeu, não fez nada, apenas sentiu medo, medo do desconhecido, medo de um ataque terrorista, medo de ladrões e assassinos, medo de qualquer coisa que pudesse vir a acontecer naquelas 24 horas, um medo baseado na incerteza vendida pelos discursos da mídia e do governo. Na manhã seguinte, técnicos chegaram ao local e consertaram o portão, que foi imediatamente fechado, restaurando o equilíbrio. Nada aconteceu durante a noite, como na maioria das outras noites em que nada acontecia. No entanto, o medo gerou tal situação que a mulher se sentiu exposta a um perigo que parecia ser imediato. Tal sentimento é o elemento propulsor da trama de “Rua Cloverfield, 10”, longa produzido por JJ Abrams.

Em tempos de terrorismo, ameaças químicas e nucleares e toda a sorte de eventos perigosos, um bunker construído debaixo da terra acaba sendo o lugar onde Michelle (Mary Elizabeth Winstead) acorda após uma batida de carro. Ela não tem a menor ideia do que está se passando e logo o dono do local, Howard (John Goodman), chega, afirmando que havia salvado a vida da moça e que ela não pode sair do abrigo. Para completar a situação, mais um habitante: Emmett (John Gallagher Jr.). Em uma atmosfera de mistério, tensão e pura claustrofobia (três indivíduos suspeitos em um local apertado debaixo da terra), está posto o cenário do longa.

Os adjetivos utilizados para descrever a ambientação do filme são essenciais para situar a sensação transmitida por “Rua Cloverfield, 10”: ao passo em que as paredes parecem começar a se fechar sobre os personagens – e sobre o próprio público -, menos mistérios são solucionados e a incerteza só aumenta: não é possível afirmar nada sobre nenhum dos três. Unhas são roídas, o fôlego se perde e não resta nada a não ser prestar atenção conforme essa trama habilmente executada se desenrola com prazer diante dos olhos da audiência. Nem parece ser o trabalho de um diretor estreante em longas.

Precisamente, Dan Trachtenberg – com o auxílio de Stefan Grube na montagem e de Bear McCreary na trilha sonora – demonstra um controle narrativo incomum em primeiros trabalhos; na verdade, seu comando sobre o suspense lembra o encontrado nos filmes mais antigos de mistério, onde cada detalhe tem um desenvolvimento próprio e ritmado, nunca apressado, criando um filme que indica possuir prazer ao revelar seus segredos cena a cena de maneira paciente através de um roteiro também produzido em ótimo compasso, com reviravoltas sólidas, bons diálogos e personagens bem estruturados.

Aos poucos, a psique, o passado e a vida interior de cada personagem ganha vida nas extremamente hábeis construções do trio de atores. John Gallagher Jr. é o que tem menos espaço, serve de coadjuvante à trama, mas tem bons momentos apoiando o brilho de John Goodman e Mary Elizabeth Winstead. O veterano, como já é sabido, é genial. Aqui, ele entrega uma performance que poderia até mesmo entrar na disputa dos prêmios de fim de ano, dada a qualidade das nuances demonstradas entre arroubos de fúria e jogos de tabuleiro. Winstead, por sua vez, não fica atrás. Suas habilidades cênicas são vastas e ela consegue se fundir a cada plano, sendo o centro emocional da trama, transmitindo e criando uma personagem incrível, real e extremamente carismática com facilidade e naturalidade.

Natural também é um adjetivo que pode ser usado para o ótimo design de produção do filme, que situa o filme dentro de uma verdadeira casa construída debaixo da terra, com direito à tapete de boas-vindas na “porta” de entrada, quadros bordados com as palavras “lar, doce lar” e uma infinidade de outros detalhes que conferem um conforto (amplificado pelas cores ora quentes, ora frias da fotografia de Jeff Cutter) surreal, incômodo e claustrofóbico ao cenário (praticamente) único do filme – mais um ponto positivo para o diretor, uma vez que justificar cinematograficamente um roteiro de esquema tão teatral não é tarefa fácil.

No entanto, nem tudo são flores no número 10 da Rua Cloverfield. Precisamente, o grande problema deste filme reside no fato de que é uma sequência (ainda que meramente “espiritual”, como Abrams e Trachtenberg fizeram questão de frisar) de “Cloverfield”. Ou seja, enquanto este filme é um thriller psicológico repleto de mistérios e dúvidas, ele é ótimo; quando se torna a sequência do filme supracitado, a narrativa começa a patinar. Não há um motivo bom o suficiente para justificar a mudança de tonalidade que o filme sofre ao mudar de atmosfera e é visível o esforço que a equipe de cineastas faz para continuar segurando as rédeas do filme.

“Rua Cloverfield, 10” parece ser, justamente, como a anedota narrada por Bauman e descrita anteriormente por aqui. Do início ao fim, há muita tensão, muito suspense, muita incerteza – com a questão do terrorismo e dos efeitos produzidos na população em geral pela guerra ao terror sublinhando toda a história e a narrativa -, muito mistério e, diferentemente do que aconteceu com a mulher da anedota, ótimos e emocionantes momentos. Entretanto, depois que tudo termina, a sensação que fica é que parece ter sido muito barulho (e muita qualidade) para pouca coisa. Só resta mesmo guardar na memória a tensão causada pelo portão quebrado durante uma noite em claro, e não o que aconteceu depois de seu conserto na manhã seguinte.

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