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NOTA: 7 / Renato Furtado

Microondas, chocolate MM’s, leite condensado, computador, panela de teflon e margarina. Todos esses itens não parecem possuir nada em comum, mas um olhar mais atento – e uma rápida no pesquisa no Google, evidentemente – prova que o elemento comum que une toda essa miscelânea é a guerra. A necessidade é a mãe da invenção, já diria o ditado e se há um período em que surgem múltiplas necessidades, é o período de uma guerra. É óbvio que, após o fim do conflito, o modo de produção capitalista engloba essas invenções, remodela cada uma e vende para o público em geral, que aceita esses novos produtos com gosto – com muito gosto, a julgar pelos produtos acima.

A última novidade das guerras são os drones, aeronaves leves, não-tripuladas, e comandadas à distância, de maneira remota. Longe da guerra, a sociedade já começa a abraçar os drones – no mundo do cinema, existem filmes feitos inteiramente com essas aeronaves e até mesmo festivais exclusivos para esses produtos fílmicos. Contudo, tanto lá no mundo dos conflitos, quanto aqui, no mundo “real”, a questão é essencialmente a mesma: como controlar uma aeronave desse tipo? As ramificações éticas são inúmeras e os perigos causados por um mau uso, incontáveis. Este é o debate levantado por “Decisão de Risco” – pelo menos em relação aos “drones de guerra”.

A coronel Powell (Helen Mirren) é uma oficial encarregada de caçar dois dos terroristas mais procurados na Inglaterra, um casal que lidera diversas ofensivas de atentados suicidas a mando de grupos fundamentalistas islâmicos. Ela lidera uma ação conjunta entre os governos da Inglaterra, do Quênia e dos Estados Unidos, que envolve o seu superior direto, o general Frank Benson (Alan Rickman), o piloto de drones Steve Watts (Aaron Paul) e o agente queniano Jama Farah (Barkhad Abdi), infiltrado nos arredores do bairro onde a organização terrorista realiza uma reunião.

Cortando entre os momentos na sala de comando e no bairro queniano onde os drones americanos lançarão seus mísseis, o diretor Gavin Hood cria um ótimo drama de guerra cheio de suspense, narrando sua história de maneira politicamente consciente como uma verdadeira crítica aos conflitos comandados por pessoas que estão nos bastidores, escolha que acentua a dor de quem está no solo, das pessoas que são atingidas diretamente pelas decisões tomadas pelos engravatados e engravatadas que tomam seus chás de maneira tranquila e monitoram a guerra como se ela fosse apenas mais um dia de trabalho da forma mais asséptica possível.

A eficiência do roteiro de Guy Hibbert reside justamente nesse ponto, na crítica, na denúncia da farsa trágica que é a guerra moderna e remota dos drones – afinal, este filme é um drama, um bom e consciente drama que descortina os bastidores sem nenhum pingo de humor. As escolhas tomadas pela direção respeitam o roteiro e conferem a grave tonalidade inerente à trama narrada, enquanto a montagem de Megan Gill e a fotografia de Haris Zambarloukos nos transportam de lá para cá sem deixar cair o ritmo em momento algum, mesmo quando os diálogos se tornam carregados, refletindo cada cenário de maneira bem definida e fluida.

Mas, ao mesmo tempo em que Hood e sua equipe acertam, eles também cometem um erro grave: filmam e constroem “Decisão de Risco” com mãos muito pesadas, apelando para um melodrama barato nos instantes em que o longa precisaria ser o menos lapidado possível. A potência narrativa perde tanto fôlego quando o melodrama é acionado, que só mesmo as boas e sólidas performances do elenco como um todo para salvar o longa de afundar. Apesar de Helen Mirren ser soberba como sempre e Aaron Paul continuar demonstrando que é um ótimo ator, o jogador mais valioso da companhia é, sem sombra de dúvidas, Alan Rickman que, com mais essa performance, até mesmo digna de prêmios, dado o cuidado da construção, chegando até mesmo à voz do ator, só faz nossa saudade aumentar.

Claramente, foi perdida a oportunidade de fazer um grande filme; por outro lado, ao menos, “Decisão de Risco” é um bom filme que entretém e faz pensar, gerando um grande suspense ao mesmo tempo em que levanta questões muito importantes e fomenta um debate que precisa ser mantido na sociedade dos dias atuais, principalmente em face à virtualidade da vida como um todo, problemática primordial da sociedade ocidental contemporânea. Nesse caso, é possível dizer que os (bons e críticos) filmes de guerra são outras ótimas invenções da guerra. Quem sabe se a produção de mais longas como “Decisão de Risco” não motiva mais invenções e mais tempos de paz, não é mesmo?

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