truman

NOTA: 7 / Renato Furtado

Todo e qualquer filme, curta, média ou longa-metragem, possui a sina, o dever, a tarefa, o prazer, a aptidão, o objetivo e a fantasia de representar a realidade; afinal, a realidade (seja a nossa, a de nosso passado, a de nosso futuro, a de Marte ou a de outra dimensão) é a matéria-prima da sétima arte. Caminhos para cumprir essa missão primordial não faltam e cada um deles carrega, dentro de si, suas próprias vantagens, desvantagens, incoerências, contradições, preciosidades e belezas que limitam, inspiram e desafiam cineastas a superarem e aproveitarem cada um destes pontos negativos e positivos.

Seja uma representação alegórica, filosófica, metafísica, satírica ou a mais puramente realista, o certo é que o caminho escolhido deve, quase sempre, ser trilhado do início ao fim. São raras as ocasiões em que um filme trilha mais de uma estrada de representação – e, frequentemente, são estes os grandes e inesquecíveis filmes -, portanto, é preciso seguir em frente. Caso a rota escolhida seja a do realismo, aquela em que um cineasta decide abrir uma janela dentro da sala de cinema para imagens que são as mais próximas possíveis do mundo “real”, não devem existir truques ou ilusões cinematográficas; é preciso buscar a verdade.

Em “Truman”, longa estrelado por Ricardo Darín e Javier Cámara, o diretor Cesc Gay e sua equipe optam pelo árduo e traiçoeiro destino realista. Frequentemente utilizado pelo cinema europeu e pela maioria dos cinemas periféricos (latino-americano, árabe, africano), o realismo necessita de… realismo. Parece óbvio, é óbvio, mas não torna a tarefa mais fácil.

Isso se dá porque a evolução da linguagem cinematográfica criou uma tendência em encurtar cada vez mais os tempos chamados “tempos mortos” – os preferidos dos neorrealistas, não por coincidência -, aqueles famosos instantes onde alguém poderia gritar “nada acontece neste filme, que porcaria!” – ou daí para baixo. No entanto, os tempos mortos são cruciais porque eles aproximam o filme e a narrativa da realidade; na vida, não acontecem perseguições de carros e invasões alienígenas em todos os dias.

Portanto, no realismo, é preciso fazer com que o espectador esqueça ao máximo que está vendo um filme e que acredite que está testemunhando a “janela para a vida”, mencionada anteriormente. Quando mal trilhado, este caminho leva diretamente ao inferno, sem atalhos. Por outro lado, quando bem trilhado, cria obras cinematográficas muito cativantes. Felizmente, este é o caso de “Truman” – pelo menos na maior parte de sua duração.

Aqui, tudo começa bem porque tanto o trabalho de fotografia quanto o trabalho de montagem (principalmente este último) não chamam atenção para si (poucos movimentos e ângulos de câmera bruscos ou “impossíveis”, por exemplo) e apenas carregam a trama da maneira menos intervencionista possível, quase como em um documentário “clássico”. Isso não quer dizer, no entanto, que a fotografia ou a montagem realistas não possam ser belas. Muito pelo contrário, na verdade; o trabalho do gênio da fotografia Roger Deakins (Sicario: Terra de Ninguém, Onde os Fracos Não Tem Vez) e os exercícios de montagem dos filmes dos Irmãos Dardenne são provas disto.

Ainda, todo o design de produção (que inclui a arte, os cenários, figurinos, etc.) acerta ao criar uma atmosfera “verdadeira” nos cenários internos do filme, com detalhes bastante reais aqui e ali e as locações e luzes externas são bem aproveitadas na ambientação narrativa. A trilha sonora também não decepciona, não sendo uma bengala em momento algum, nunca pontuando momentos dramáticos ou impactantes; o silêncio, diferente da maioria dos filmes de hoje em dia, é levado muito a sério em “Truman”, um aspecto fantástico deste longa.

O trabalho de todos os departamentos reflete na direção econômica e objetiva de Cesc Gay, sempre posicionando a câmera e os atores nos locais e instantes certos para não soar intrusivo, desnecessário ou irreal dentro da proposta de seu roteiro. Apesar de todas estas qualidades, contudo, um filme realista tem seu potencial cumprido, na maioria das vezes, pelo trabalho dos atores e tanto Darín, ícone latino-americano, e Cámara são um espetáculo à parte, criando cenas com detalhes, silêncios, piadas internas, sorrisos, olhares e nuances que remetem às lembranças dos dois personagens, velhos amigos que se reencontram uma última vez.

Aliás, esta é a sinopse do filme: os quatro dias de visita de Tomás, personagem de Cámara, a Julián, personagem de Darín, um homem muito doente que tem apenas a companhia de seu fiel cachorro, Truman (daí, o título do filme). Em consequência disso, quando os dois estão em cena, a película vibra e diversas camadas de sub-texto são construídas sem a necessidade de uma linha de diálogo sequer, sem a necessidade de encher a tela e os nossos ouvidos. Cinema que é cinema não fala, mostra; principalmente o cinema realista.

No entanto, nem tudo são flores. A armadilha maior do realismo é, inevitavelmente, o tempo. É preciso ter paciência, é preciso deixar que os personagens respirem e se desenvolvam, sem instalar – de preferência – nenhuma grande situação ou reviravolta (a não ser o incidente ou acidente que dá o pontapé na história e que dispõe os personagens no cenário) na trama para movê-los: no fim das contas, as tramas realistas são, com frequência, estudos de personagens, tipos de narrativas onde os personagens ou protagonistas da trama movem o filme.

É precisamente no ato final em que Cesc Gay cede à tentação de acelerar o desfecho e faz “Truman” derrapar. Apesar de conduzir bem a maioria da duração de sua história, o diretor parece perder a paciência no fim e buscar uma resolução mais simples ou mais rápida, sem passar o necessário tempo de desenvolvimento (não existem pontas soltas, é preciso ressaltar, tudo que acontece no filme faz sentido) que as outras situações do filme passam.

Por causa dos truques cinematográficos – que encurtam o tempo ou tornam ações cotidianas dispensáveis ou tornam ações pouco plausíveis em um realismo incontestável – aos quais o cinema acostumou suas audiências, “Truman” não sofre nenhum golpe fatal, não perde seus méritos. Na verdade, o longa continua sendo realmente bom e emocionante, sem sombra de dúvidas; o único problema é que o desvio do caminho  escolhido o impede de ser um grande filme. Ossos desse ofício de representar o mundo.

 

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