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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Cartas de amor possuem uma linguagem própria, um idioma ao qual é preciso se adequar. A escrita direta dos roteiros, a objetiva do jornalismo, a científica dos artigos e livros teóricos, a analítica da crítica cinematográfica e a muito seca ou muito poética, dependendo do autor, escrita da literatura: nenhum desses exemplos cabe, de fato, em uma carta de amor – talvez só o poema consiga ficar minimamente confortável.

O fato é que os arroubos de emoções e paixões contidos em uma escrita como essa necessitam de certo gosto pelo exagero, pela hipérbole, pelo absurdo, pela repetição, pelo grandioso: afinal de contas, não se pode falar de amor sem correr o risco de enlouquecer por completo. Postas estas condições e características, cabe a imaginação estruturar o que artistas fariam ou poderiam fazer ao trabalhar com essa linguagem. Contudo, se a escolha for pelos Irmãos Coen, o esforço imaginativo pode ser dispensado; basta conferir “Ave, César!” para ver o resultado.

Estrelado por um dos melhores elencos dos últimos tempos, esta é a história de Eddie Mannix (Josh Brolin), uma espécie de produtor de set/produtor executivo/”fixer” (especialista em resolver problemas) que faz de tudo pela Capitol Pictures – ele, por exemplo, lida com contratos, com diretores excêntricos e estrelas temperamentais, alimenta ou despista a imprensa e as revistas de fofocas (aqui representadas por duas gêmeas, Thora e Thessaly Thacker, interpretadas pela magistral Tilda Swinton), protege a boa reputação do estúdio etc.

Certo dia de trabalho apresenta aquele que virá a ser um dos maiores de desafios da carreira de Mannix: encontrar Baird Whitlock (George Clooney, mais engraçado e carismático do que nunca), estrela que desapareceu de repente do set de gravações da maior aposta do estúdio para o ano, o épico “Ave, César!”. Precisamente, fica claro, logo após os “créditos iniciais”, que não é coincidência o fato de que o filme dos Coen e o filme dentro do filme sejam homônimos.

Ao acompanharmos o período de um dia de trabalho na vida de Mannix e nas dependências da Capitol Pictures – em uma estrutura cíclica similar à empregada pelos Irmãos Coen no seu último filme, o fantástico “Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum” -, a metalinguagem em jogo se apresenta de maneira evidente, um recurso que estabelece a estrutura dialética sobre a qual a narrativa do novo filme dos Coen é fundada.

Como define o dicionário, a palavra “dialética” possui diversos significados; no momento, o mais importante é considerar tal conceito como “uma espécie de lógica que tenta interpretar os processos (históricos, sociais, econômicos etc.) a partir da oposição de suas forças (antítese), buscando encontrar uma resolução (síntese)”. No caso de “Ave, César!”, os Irmãos Coen trabalham com dois elementos considerados distintos: o cinema e a realidade.

A montagem sempre certeira de Roderick Jaynes (nada mais do que um pseudônimo utilizado pelos Irmãos Coen quando estes assumem a montagem de seus próprios filmes, algo bastante frequente) realiza o trabalho de alternar entre a realidade e o cinema são através do jogo com a razão de aspecto (em outras palavras, quando o  tamanho da tela muda), definindo a linha que separa o que é real do que é cinema (ou circo ou faz de-conta, como os opositores da sétima arte fazem questão de ressaltar durante a trama). No entanto, os Irmãos Coen sabem bem que a fronteira que separa uma coisa da outra é tênue demais para ser concreta ou plausível; surge, então, a genialidade de “Ave, César!”.

Através do humor característico da dupla (presente em quase todos os filmes da filmografia dos Coen, mas evidenciado em obras como “Arizona, Nunca Mais”, “A Roda da Fortuna”, “O Grande Lebowski” e “Queime Depois de Ler”), criado por um casamento perfeito entre o roteiro e a montagem dos cineastas – daí a importância de que eles realizem estas duas etapas cinematográficas -, que realiza pausas, gags visuais, piadas com homenagens e referências a filmes antigos e a momentos anteriores do próprio filme em questão (callback jokes), os Coen fazem graça e anunciam que cinema e realidade não são primos distantes; são irmãos próximos.

Ao fazer Mannix visitar várias produções da Capitol – um faroeste que envolve o ótimo novato Alden Ehrenreich como um típico caubói, um melodrama dirigido pelo fantástico Ralph Fiennes e dois musicais estrelados por Scarlett Johansson e Channing Tatum, fornecendo inúmeros filmes dentro do filme onde o talento de um dos maiores fotógrafos de todos os tempos pode ser utilizado à máxima potência já que o genial Roger Deakins aproveita as mudanças narrativas para empregar, em cada momento, uma estética fotográfica diferente, indo do film noir que é a história de Mannix ao technicolor dos musicais em um piscar de olhos e sempre conjurando imagens de vasta beleza, apuro técnico, belíssimos enquadramentos que encantam e que prestam homenagens ao Cinema -, os cineastas transportam a audiência para dentro do mundo da realização cinematográfica e descortinam tal processo.

Para que o público receba a “magia do cinema” nas telas em seus fins de semana de diversão, são necessárias inúmeras repetições de cada cena para que cada filme possa ser construído da melhor maneira possível. As repetições (de onde vem boa parte das melhores piadas do filme, sempre no tom humorístico mordaz, inteligente e crítico dos Coen, que sabem como ninguém utilizar paródias e pastiches para realizar um grande filme) apontam algo crucial, no entanto: ainda que exista a ideia de que o cinema possui um charme inesgotável, os bastidores provam que não é bem assim que a banda toca. Além do mais, não é assim que a vida é? Momentos repetitivos que, vez por outra, levam a produtos finais de altíssima qualidade?

Os clichês (dos quais os cineastas se aproveitam bastante para efeitos cômicos) são eficientes porque são verdadeiros, na maior parte do tempo: a arte imita a vida e a vida imita a arte e a jornada de cada um de nós é, nada mais nada menos, do que uma ficção. Contamos histórias para nós mesmos e deixamos que as histórias sejam contadas para nós porque isso faz parte da essência humana: somos, afinal, seres construídos por narrativas. Da religião (que é crucial em “Ave, César!”, tanto para o filme quanto para o épico dentro do filme) aos contos populares, a humanidade é feita de ficção. Não existe, de fato, essa “realidade”.

Sempre utilizando o humor e a metalinguagem como suas ferramentas neste filme, os Coen entregam um filme muito mais solar que suas últimas obras, sem deixar de apontar suas armas para todos. A gravidade de um cientista nuclear às vésperas da Guerra Fria, o “peso” dos cientistas sociais e econômicos, representados por Herbert Marcuse “em pessoa”, as religiões e o próprio fazer cinematográfico: nada escapa, tudo é destrinchado e tem suas contradições internas analisadas pelas lentes mordazes dos Coen, que nos provam que tudo possui sua parcela de ridículo, de ilusão, de absurdo e, também, de verdade e de realidade.

Em “Ave, César!” não falta repetição, exagero (o imenso e azeitado elenco ainda conta com as participações de nomes como Frances McDormand, Jonah Hill, Christopher Lambert e até mesmo Dolph Lundgren, todos em participações sensacionais), absurdos (a sub-trama de “Nas Asas das Águias” que traz um grito de águias à narrativa sempre que é mencionada), hipérboles e grandiosidade (o design de produção e a elegância da trilha de Carter Burwell retratam com fidelidade e maestria o louco mundo da Era de Ouro de Hollywood). Sem sombra de dúvidas, é uma carta de amor.

E, como toda carta de amor, “Ave, César!” possui suas imperfeições (a perda de ritmo no ato final é um pequeno problema do roteiro) e suas loucuras desmedidas. Mas, acima de tudo, “Ave, César!” preenche outro requisito importante da linguagem dessas cartas: a fé. No fim das contas, é preciso acreditar. Acreditar nas ficções, no cinema – que é a vida que, por sua vez, é o cinema, uma coisa dentro da outra assim mesmo. Para os Irmãos Coen, o cinema é uma religião, com todas as vantagens e desvantagens que isso pode acarretar. Resta ao público contemplar todo esse amor ao Cinema.

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