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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Tão antigo quanto as narrativas humanas, é o gênero da comédia. Dos primórdios do teatro grego aos dias de hoje, a comédia como gênero narrativo sempre esteve presente como ferramenta e recurso para os contadores de história – evidentemente assumindo um conceito e uma forma próprios e distintos entre si a cada época, da Grécia aos memes.

Constantemente associada ao riso fácil e frequentemente considerada como uma forma de expressão menos séria, contundente ou importante que o dramas – esse descaso pode ser facilmente evidenciado na temporada de premiações cinematográficas -, a comédia é muito mais do que o senso comum acredita. É sabendo desse aspecto do gênero – e através do desejo de explorar suas possibilidades – que o romeno Corneliu Porumboiu criou “O Tesouro”, um filme que demonstra a consciência do bom diretor: não existem caminhos fáceis; apenas caminhos necessários.

Narrando a história de Costi, um homem comum da Bucareste, capital da Romênia, dos dias de hoje, que é convencido por um vizinho a investir algumas economias para alugar um detector de metal com o objetivo de localizar um suposto tesouro enterrado, “O Tesouro” conquista por ser um filme simples, leve e por conter, dentro de sua estrutura eficiente, vários subtextos e comentários políticos, sociais e econômicos.

Adrian, o vizinho, é o responsável por apresentar a situação é a missão: ele precisa coletar o tesouro de sua família porque está desempregado, à beira da falência e com uma enorme quantidade de dívidas com o banco, que ameaça tomar sua casa. Precisamente, essa crise não afeta apenas a Romênia; atualmente, a instabilidade que atinge o projeto de uma Europa unida é marcado pela ascensão de diversos tipos de fascismos, nacionalismos e xenofobias que geram um cenário claustrofóbico e pesado.

Diante de tal contexto, a saída mais fácil e clara a ser tomada é representar tal situação pela ótica de um drama carregado e paciente (o realismo dos Irmãos Dardenne) ou de uma fábula violentamente precisa (como o húngaro “White God”). Aqui, o romeno escolhe o realismo (evidenciado na condução dos atores, na fotografia, na escolha dos cenários, na iluminação, no som, na não utilização de faixas musicais ou de composições originais), mas trilha a rota do humor.

De forma inteligente e bem desenhada, “O Tesouro” é uma comédia de raro tato e consciência política. Garantindo que tanto a direção de arte quanto a direção de fotografia (o comportamento da câmera é fixo, não realiza movimentos bruscos, cria tonalidades e luzes naturalistas e se limita a funcionar como o olhar do público para aquele mundo com o mínimo de interferências) sejam suficientes – ou seja, operam sem chamar atenção para si, sustentando o realismo -, o humor flui com liberdade pelos dois canais protagonistas da criação deste filme: o roteiro e a montagem.

Ao invés de perseguir risadas com gags, piadas visuais ou comédia física, Porumboiu busca o riso inerente à vida, o humor que se manifesta no cotidiano, na simplicidade das situações reais, aquelas em que o riso é produzido pela repetição das ações, sem apelar para nenhum tipo de atalho utilizado pelas comédias mais populares/tradicionais. Ao aliar essa qualidade aos comentários políticos – o verdadeiro ouro enterrado -, o diretor estrutura uma obra de leveza, construída na montagem, justapondo planos que se repetem para atingir um efeito cômico – e também para evidenciar uma certa imobilidade.

“O Tesouro” é um filme de poucos planos e de planos longos, onde os intérpretes de Cristo, Adrian e Cornel (o especialista em detecção de metais que ajuda os vizinhos) tem espaço e tempo suficientes para desenvolver a trama. Muitos desses planos, estáticos e “comuns” do jeito que são, são “repetidos”. O ponto é que esse processo não é uma mera reutilização: é uma recriação, uma inserção dos “mesmos” planos em novos contextos; é assim que a comédia realista, direta e objetiva do filme é atingida – e é assim que ela nos atinge.

Além disso, as grandes elipses da montagem potencializam ainda mais essas repetições porque direcionam o foco aos momentos importantes e aos momentos importantes apenas. Isso acontece porque os saltos no tempo dispensam planos de reação, contraplanos pouco úteis ou outros tipos de planos utilizados à exaustão em geral no cinema, mantendo apenas o que é necessário e pertinente à narrativa – fazendo, por exemplo, com que o simples barulho do detector de metais seja ressignificado para deixar de ser apenas um complemento sonoro e se torne motivo de boas risadas.

Precisamente, a estrutura narrativa e fílmica aqui empregada se prova ser de grande qualidade, eficiência e valia porque o diretor acerta as tonalidades certas. Seu trabalho com os atores, suas escolhas estéticas e seu controle sobre o ritmo do longa nos convencem de que, no fim das contas, as sutilezas escondidas e o realismo proposto em “O Tesouro” dificilmente seriam atingidos pelas mãos pesadas características dos dramas.

Como o tesouro (praticamente um protagonista) do filme, há muito a ser descoberto no subterrâneo desta obra, verdadeiros subtextos que se adicionam às camadas primárias, que subvertem a leveza e o humor e que constroem, no fim, a verdadeira crítica ao cotidiano e ao estado das coisas, da Europa e no mundo ocidental. Às vezes, mesmo que as coisas estejam claras, é preciso escavar e buscar debaixo da terra para descobrir que, de fato, não há nada de novo debaixo do sol que se levanta dia após dia.

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