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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Nesta época em que vivemos, existem dois tópicos muito debatidos, mas de formas completamente distintas. O primeiro é a paranoia, tema cada vez mais em evidência, passando a ser tratado como o que, de fato, é: um distúrbio psicológico – ao invés de um estado de loucura que marginalizava as pessoas que desta doença sofriam. O segundo é mencionado por, supostamente, não existir mais: a ideologia. Tanto um tópico quanto o outro só são debatidos da maneira como o são porque fazem parte da formação da própria sociedade em si.

Mas, se por um lado, os distúrbios psicológicos são cada vez mais estudados – começando a ser desmarginalizados, fazendo com que os indivíduos que sofrem destas doenças sejam tratados com mais zelo, dignidade e humanidade -, por outro lado, esta evolução no pensamento humano em direção a um mundo mais humanizado não é visto no debate sobre a ideologia, um tema cada vez mais varrido para baixo dos tapetes do mundo por causa dos interesses de governantes, empresários e outros detentores de cargos de poder – chegamos a uma época “pós-ideológica”, chegam a dizer, um conceito perigoso, por vários motivos. A confluência desses tópicos – e a forma como são tratados – é a base de “O Dono do Jogo”, novo filme de Edward Zwick.

Contando a história de Bobby Fischer, considerado um dos melhores enxadristas de todos os tempos, a caminho de se tornar o mehor jogador de xadrez do mundo, o roteiro de Steven Knight (que, em certos pontos, gasta muito tempo de tela em personagens próximos a Bobby que são apenas pontas soltas) apresenta um gênio claramente afetado por uma mente problemática e que acaba sendo recrutado para representar os Estados Unidos e a ideologia de seu país em um conflito direto – via campeonato mundial de xadrez – com os russos, durante a Guerra Fria.

Através de um interessante trabalho de fotografia, que retrata a passagem do tempo na vida de Bobby (interpretado por Tobey Maguire) do início dos anos 50 até meados dos anos 70 com uma granulação e uma paleta de cores que emulam a fotografia praticada no cinema da época, e de um esforço de montagem que, aliado a uma engenharia de som de alta qualidade (sempre que Bobby está no meio de um surto, os sons do ambiente ao seu redor são intensificados), é possível acompanhar a trajetória e a deterioração da saúde do personagem em um bom ritmo e em uma estética muito valiosa.

Ainda, o bom trabalho dos atores auxilia no processo narrativo. Em um filme biográfico, é extremamente necessário que os atores que carregam a história sejam bons. O trabalho de Tobey Maguire, portanto, foi desafiador e o ator conseguiu completar a missão com um bom aproveitamento, construindo um personagem com nuances nos momentos certos, apesar de falhar em outros instantes, resultando em uma criação que nem sempre consegue trazer a audiência consigo. Ele vai bem, mas tem problemas. Por isso, o caminho fica aberto para que Michael Stuhlbarg e Peter Sarsgaard (como o advogado e o conselheiro de Bobby, respectivamente) roubem a cena.

Ambos os atores possuem papeis de coadjuvantes, mas se entregam à composição de seus personagens com dedicação, estruturando dois contrapontos para Bobby durante sua jornada. Ainda há a participação de Liev Schreiber como Boris Spassky, o maior jogador russo, desempenhando bem o arquétipo de um homem silencioso, avesso aos holofotes, quieto e determinado – como o personagem que interpretou, com maestria, em Spotlight -, sem perder as sintonias mais finas de um personagem como esse.

O departamento de arte e a trilha sonora também fazem um bom trabalho, ainda que seja apenas suficiente, que se limite apenas ao “necessário” – o design de produção inclusive poderia ter sido melhor trabalhado; em certos casos, a tela parece estar repleta de objetos demais. No entanto, aqui cessam os méritos do filme: o grande problema de “O Dono do Jogo” é que Zwick e Knight não permitem que os valiosos subtextos da trama (o conflito entre a genialidade e um distúrbio psicológico e a questão da ideologia) se tornem mais do que meros subtextos.

O que resulta é que, em certos momentos, o longa mais parece pertencer à categoria dos telefilmes do que ao Cinema. Ao não explorar um vasto material com potencial para elevar a qualidade da narrativa, a equipe de cineastas perde a oportunidade de fazer mais do que uma mera cinebiografia. Sim, como já enumerado acima, é evidente que os méritos derrotam as falhas e eventuais equívocos; porém, no fim das contas, paira a sombra do que o filme poderia ter sido sobre a imagem do que o filme é.

Ao contraria as duas correntes de debate apontadas anteriormente, “O Dono do Jogo” arranha a superfície da paranoia (e dos distúrbios mentais) e da ideologia e perde a chance de aprofundar a discussão nas duas frentes: tanto para oferecer um retrato mais real, pungente e humano das doenças mentais – extremamente necessário para que, de uma vez por todas, as pessoas que destas doenças sofrem possam ser melhor tratadas – quanto para desmistificar a ideia de que vivemos em uma era que deixou as ideologias para trás – uma era supostamente homogênea, globalizada, integrada. Hoje, mais do que nunca, é preciso prestar muita atenção e acompanhar de perto os dois assuntos – por nós mesmos e pelos outros.

 


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