civil

NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Seria possível começar a presente crítica de um milhão de maneiras diferentes. Seria possível começar falando sobre a política, sobre ideologia, sobre controle, sobre vigilância, temas cruciais nos dias de hoje. Em um lado mais subjetivo, seria possível começar falando sobre amizade, sobre lealdade, sobre vingança, sobre tristeza e sobre mágoas, sentimentos e paixões que nos movem, fundamentam nossos atos. Poderíamos começar falando também sobre os efeitos especiais ou algumas sequências de ação realmente memoráveis (especialmente a do aeroporto), ou até mesmo sobre os novos heróis. Mas, o melhor comentário inicial sobre “Capitão América: Guerra Civil” pode ser resumido pelo seguinte: o filme é diversão cinematográfica pura.

Apesar de cada elemento funcionar de uma maneira própria e distinta dos outros, Joe e Anthony Russo, os diretores do filme, parecem ter se especializado em fazer com que o todo seja maior que a soma das partes e o resultado desse esforço é um filme de ação com peso emocional e consciência política cujo roteiro funciona em vários níveis diferentes. Está longe de ser um filme de arte ou um filme que transcende sua vida, dá um novo sentido ao seu dia-a-dia: isso é óbvio, essa não é a proposta. A proposta é fazer um blockbuster de alta qualidade. E foi isso que eles fizeram.

Após os eventos dos últimos filmes dos Vingadores e dos acontecimentos do Universo Marvel no geral, o grupo de heróis é chamado para prestar contas sobre suas operações – principalmente após mais uma dar e errado e custar a vida de civis. Logo, toda a equipe é colocada perante o Secretário de Estado norte-americano (interpretado por William Hurt), que propõe que os Vingadores assinem um tratado que faz com que eles se tornem um braço operacional da ONU, a Organização das Nações Unidas. Uns concordam, outros não: pronto, está configurado o cenário para a guerra civil.

O interessante mesmo é ver como a estrutura do filme serve à participação de todos os personagens, explorando seus melhores e piores ângulos no momento certo. Como já dito no nosso artigo sobre os cinco melhores filmes da Marvel (que você confere aqui), se há algo que os Irmãos Russo sabem fazer é lidar com a megalomania proposta pelo universo. Em tela vemos o Capitão América, o Soldado Invernal, o Falcão, o Homem de Ferro, a Viúva Negra (estes cinco primeiros desempenham papeis mais importantes no contexto desta trama, naturalmente), o Visão, a Feiticeira Escarlate, o Homem-Formiga, o Gavião Arqueiro e também as bem-vindas adições do Pantera Negra e do Homem-Aranha – dois heróis que roubam a cena. Isso tudo para dizer: em nenhum momento parece coisa demais.

É evidente que nas sequências de ação, alguma coisa ou outra possa ser perdida (algo que poderia ter sido consertado com um movimento de câmera mais fluido e mais contínuo, como nas sequências de ação da série Demolidor, da Netflix), mas o esforço de montagem e o roteiro garantem que nenhuma emoção – seja ela criada através de um motivo político, seja ela criada através das relações dos personagens, seus medos, suas agendas, seus interesses e suas subjetividades – seja perdida, intercalando momentos que ganham força narrativa aos poucos para, no fim, nos acertarem com toda a potência guardada. A fluidez dos acontecimentos impressiona: as duas horas e meia de filme passam voando!

Claro que a narrativa é carregada de forma muito interessante pelos atores e os que mais chamam atenção são os que fazem sua estreia no Universo Marvel. Do elenco antigo, não há nenhum grande destaque que se sobressaia sobre os demais porque todos estão bem em um nível parecido – os únicos dois que parecem se erguer um pouco mais são Sebastian Stan, o Soldado Invernal e Paul Rudd, o Homem-Formiga; ambos tem construções e pesos muito diferentes na trama, mas ambos são os jogadores mais valiosos do elenco antigo. Os novatos, por sua vez, são realmente os destaques.

Martin Freeman e Daniel Bruhl são duas caras novas que trazem coisas interessantes e é provável que ainda vejamos – ou saibamos – mais de seus personagens em próximos filmes. Mas, apesar de todos esses pontos altos, Chadwick Boseman e Tom Holland são, de fato, as aparições mais interessantes da trama. Cada a um à sua maneira própria e inseridos na trama com um estilo narrativo que se encaixa às características e necessidades de seus personagens (os momentos de Boseman são claramente mais pesados e dramáticos que os momentos de Holland, normalmente leves, descontraídos e responsáveis por arrancar grandes risadas da audiência).

Mais uma vez, vale ressaltar, o grande trunfo deste filme é a confluência de estilos, jogos narrativos e personagens não é, em momento algum, conduzida de maneira truncada ou confusa. Os Irmãos Russo e sua equipe de cineastas consegue fazer “Guerra Civil” fluir. Acima de tudo e considerando todas as emoções e a política do filme (que melhorou seriamente do segundo filme para cá), o mais importante é o fato de que os diretores conseguiram manter o veículo na direção certa.

No fim das contas, não há nada nenhum elemento ruim no filme – apenas uma coisa ou outra poderia ser melhor, como a trilha sonora e certos movimentos de câmera. Nada disso atrapalha o filme: o longa promete uma ótima noite no cinema, como os filmes antigos prometiam lá na década de 50, e cumpre. E, como os filmes antigos, “Guerra Civil’ é – com o perdão da repetição – pura diversão cinematográfica.

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