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Papo reto sobre a Sétima Arte

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maio 2016

#DESCUBRA: Rubber, o Pneu Assassino

Renato Furtado

Oito meses depois, ela está de volta! A coluna inspirada no mito Aloisio Chulapa – que sempre trazia pelo menos uma foto do mito fazendo coisas que só este mito do futebol e das redes sociais poderia fazer – retorna de uma vez por todas, agora sempre às terças, trazendo não o lado B nem o lado C do cinema e da televisão, mas sim o lado D… o lado DESCUBRA!

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Não é sempre que você pode dizer “ok, este é um dos filmes mais loucos que eu já vi” ou até mesmo “ok, este é O filme mais bizarro que eu já vi na minha vida”. Se o seu objetivo é alcançar este patamar, você sempre pode procurar no cinema japonês, que com certeza tem os filmes mais loucos e bizarros da história. Mas, como nem sempre dá para assistir um filme japonês, a solução às vezes é recorrer a uma co-produção entre a França e a Angola (como isso foi acontecer?) chamada “Rubber”, no original.

É claro que o Brasil não poderia deixar de colocar um subtítulo – só perdemos para os portugueses na arte de traduzir títulos. Mas, dessa vez, contrariando o senso comum, acertamos em cheio: Rubber aqui é Rubber, o Pneu Assassino. Sim, o subtítulo para um filme que conta a história de um pneu psicótico que ganha vida e explode tudo que vê pela frente com o seu poder da mente não poderia ser outro. Não, não é mentira. Essa é a sinopse real. Esse é sim um filme sobre um pneu assassino. É sério, não tô mentindo, olha aqui. E não para por aí não. Além de ser assassino, ele também se APAIXONA no decorrer da história por uma bela viajante.

Agora vocês devem estar se perguntando: e aí, o filme é bom? É evidente que não, o filme é horrível. Porém, contudo, entretanto, todavia, esse era o objetivo. O diretor francês Quentin Dupieux (que também é o roteirista, o diretor de fotografia e o montador do filme) é conhecido por seus filmes loucos, metalinguísticos, ácidos e bizarros, sempre realizando críticas à sociedade e ao cinema no geral. Aqui, sua crítica é direcionada ao público, sempre desejoso de ver filmes sanguinários e absurdos – e o que não falta em Rubber, o Pneu Assassino não sei se consigo mais escrever esse nome sem rir é sangue e absurdos.

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Nova pergunta: eu deveria ver esse filme? Não. Ninguém deveria ver esse filme porque ele é péssimo. Ou sim. Todos deveriam ver esse filme porque ele é péssimo. É trash e tem algumas boas ideias, além de algumas boas risadas. E é ruim.

Mas isso já dá para perceber no título. O certo é que Rubber, o Pneu Assassino meu deus essa matéria não acaba, chega de escrever esse título é o tipo de filme confuso e que confunde: que ou você vai gostar por ser terrível ou você vai odiar por ser terrível.

De qualquer forma, sobre uma coisa não há discussão: esse é o melhor filme sobre um pneu assassino de todos os tempos. Para o bem ou para o mal.

 

E se vocês aguentaram chegar até o fim do post, o trailer está aqui! Na próxima terça, tem mais do lado D do cinema!

Nas duas últimas colunas falamos sobre a refilmagem colombiana de Breaking Bad e sobre as “origens” do Quarteto Fantástico no cinema aqui e aqui.

 

 

 

 

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Alice Através do Espelho (James Bobin, 2016)

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NOTA: 7,5 / Por Gabriella Telles e Camila Costa (Estudantes de Jornalismo da UFRJ e amigas do site)

Com bons efeitos e uma história divertida, a grande aposta da Disney Alice através do Espelho diverte e emociona nas devidas proporções. O primeiro filme, dirigido por Tim Burton em 2010 recebeu muitas críticas positivas. A história já conhecida por muitos, ganhou muito do toque obscuro de Tim. Para quem é fã do diretor, o live-action da Disney é um prato cheio de loucuras e efeitos especiais, que dão vida aos simbolismo da história. Já quem não gosta muito, ainda vale a pena ver a viagem de Alice, para o submundo.

Coube então a James Bobin a missão de agradar ao público que não ficou satisfeito com a direção de Burton, que continua como produtor na sequência. Alice encontra o espelho mágico em uma festa, após voltar de um longo período em expedição no mar abordo do ‘Maravilha’, e volta para o País das Maravilhas. Lá, ela descobre que o seu amigo Chapeleiro Maluco está correndo risco de vida e precisando de sua ajuda. Alice vai atrás do Tempo, com a missão de tentar mudar o destino do Chapeleiro. Em suas viagens pelo “oceano do tempo”, ela conhece as histórias do passado dos seus amigos, como um grande segredo entre a Rainha Branca e a Rainha De Copas.

O longa metragem passa muitas mensagens ao longo de toda a história. Vale destacar questões como o feminismo implícitas no filme. De cara, Alice passa mais de um ano no mar viajando como capitã, mesmo contra a vontade de sua mãe, em tempos de uma sociedade machista em que mulheres ainda se submetem aos seus maridos. A busca incessante pelo passado do Chapeleiro evidencia também a importância da amizade e da família, reforçando valores importantes para uma história infantil. Com maquiagens impecáveis, somadas à suas atuações, Johnny Depp e Helena Bonham dão um show à parte na pele do Chapeleiro e da Rainha má, mais uma vez. Mas, o destaque vai para o Tempo (Sacha Baron Cohen), que diverte com suas atrapalhadas e humor peculiar.

Mesmo com o começo lento, a história que parece sem sequência e o cenário do País das Maravilhas que padroniza as mesmas cores do primeiro filme, indo um pouco na contramão da criatividade Disney, a história em si compensa um pouco, graças aos momentos de risada, principalmente nas cenas com o Tempo. No fim, não será uma perda de tempo.

Jogo do Dinheiro (Jodie Foster, 2016)

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NOTA: 7 / Renato Furtado

É fato que comparar “Jogo do Dinheiro”, novo filme comandado por Jodie Foster na cadeira de diretora – aliás, em um ótimo desempenho – ao clássico “Rede de Intrigas” de Sidney Lumet – um dos maiores e mais subestimados diretores da história do cinema – é precisamente injusto. Contudo, é difícil não realizar o trabalho comparativo, uma vez que os dois filmes tratam de temas similares com abordagens similares: no caso, a crítica ácida da sociedade de informação e do espetáculo e dos meios de comunicação através de uma trama que coloca o espectador dentro de um programa mais do que sensacionalista.

Aqui, George Clooney é Lee Gates, o apresentador de um programa econômico que utiliza todo o tipo de recursos já clássicos do show business (como assistentes de palco, inserções sonoras e visuais, animais vivos no programa e pegadinhas estúpidas) que acaba sendo tomado como refém durante a transmissão de uma das edições do programa (a última comandada pela produtora Patty Fenn, personagem de Julia Roberts) por um jovem armado (Jack O’Connell) com arma e bomba, que clama ter sido engando por uma das “infalíveis” previsões econômicas do apresentador.

Assim, com o palco armado, Jodie Foster concentra todos os esforços em desvendar a farsa inerente aos programas televisivos. Utilizando montagens rápidas com a frames de variados programas, Foster escancara o sensacionalismo presente na mídia e na televisão (não só dos Estados Unidos, mas de todo o Ocidente) e – como Adam McKay em “A Grande Aposta” – sabe usar momentos de humor genuíno para revelar o que há por trás destes shows – e, de fato, revelar que tudo, independente do que aconteça, seja benéfico ou maléfico, e principalmente se for maléfico, pode se tornar um show para a sociedade do espetáculo.

Para isso, ela conta com uma montagem que mantém a atenção do espectador sem nunca deixar o ritmo de suspense cair. A cada nova cena, a tensão aumenta e o olhar é capturado para nunca mais ser libertado. Além disso, todo o design de produção e a fotografia conseguem realizar uma boa imersão no mundo proposto. No campo das interpretações, o trio de atores principais é ótimo. Enquanto Roberts e O’Connell desempenham muito bem os seus papeis, é definitivamente Clooney, o protagonista da trama, quem rouba a cena. Acostumado aos seus papeis cômicos e satíricos com os Irmãos Coen, Clooney compõe um homem cínico, sarcástico e arrogante disposto a fazer tudo para conquistar sua audiência.

Com tudo isso funcionando, o problema mesmo para Foster e sua equipe é que uma dupla de armadilhas se apresenta no meio do caminho: a tendência a ceder aos clichês hollywoodianos e a escrita manipuladora do roteiro. A grande diferença entre o texto deste filme e o texto de “Rede de Intrigas” é que o roteiro do clássico é simplesmente fantástico, beirando a perfeição. Novamente vale ressaltar que a comparação é injusta, mas fica claro que o roteiro de “Jogo do Dinheiro” poderia utilizar um pouco mais da sagacidade e da característica profética do roteiro de “Rede de Intrigas”.

No entanto, o certo mesmo é que é pouco útil julgar um filme pelo que ele poderia ter sido ao invés de julgá-lo pelo que ele é. O roteiro poderia ser melhor, mas ao mesmo tempo, Foster poderia ter sido menos tendenciosa e manipuladora em sua direção. Em certos momentos, a trilha sonora mais atrapalha do que ambienta o filme, praticamente dizendo o que o espectador deve sentir ao invés de deixar o público construir sua própria reação às imagens apresentadas. Além disso, a jornada redentora do personagem de Clooney é interessante, mas acaba caindo no mesmo problema: a inserção de um clichê hollywoodiano em um filme que possui justamente a proposta de criticar a produção audiovisual de todo um sistema.

“Jogo do Dinheiro” poderia ser um filme melhor – especialmente se os cineastas responsáveis se mantivessem mais no caminho da crítica -, mas ainda assim é muito bom. Ainda que  o terceiro ato seja mais fraco que os dois primeiros, as participações de Caitriona Balfe e Dominic West são valiosas e as críticas feitas por Foster funcionam, atingindo com força, provocando risadas que logo se tornam em expressões de seriedade assim que o espectador percebe os malefícios de todo o sensacionalismo (sempre divertido, à primeira vista). No fim das contas, é um bom entretenimento com algo a dizer, com uma mensagem importante. Não é um clássico, mas é muito melhor que a maioria dos filmes atuais – e isso já é muita coisa.

Vizinhos 2 (Nicholas Stoller, 2016)

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NOTA: 5 / Por Caio César

Pode parecer incrível, mas no invejável currículo do astro da comédia Seth Rogen, esta é apenas sua primeira sequência. Depois do primeiro filme ter feito um certo barulho em 2014 (e até com justiça, já que é eficiente e divertido), Vizinhos 2 é uma continuação que oferece mais do mesmo, embalado por novas aventuras que, se às vezes trazem um respiro e arrancam risadas, em outras cansam por sua estrutura repetitiva e uma linha ética questionável – seguindo a linha da carreira do diretor Nicholas Stoller.

Começando alguns anos depois do final do primeiro longa, o roteiro encontra o casal Mac e Kelly em uma situação muito mais confortável que antes. Pais de uma criança de três anos, eles se cobram pela responsabilidade de oferecer uma educação melhor à criança. Não que eles consigam de maneira muito fácil – já que a criança fica andando com os “brinquedos sexuais” da mãe pela casa. O projeto da família se consuma com a compra de uma nova e equipada casa em outra área. Os compradores do seu antigo lar, entretanto, querem fazer um teste de 30 dias para saber se vale a pena investir na vizinhança. E então, obviamente, as coisas saem do controle quando garotas de uma fraternidade se mudam para a casa ao lado.

Em mais um problema de escalação, Chloe Grace Moretz interpreta a líder do grupo. Chloe, que é uma boa atriz, parece nova demais e frágil demais para interpretar o papel de uma menina mais velha. Falta à ela uma malícia especial e uma densidade para oferecer algo a mais. Seu arco, entretanto, é a surpresa do filme – com uma discussão pertinente sobre s direitos das mulheres nos Estados Unidos, tratado de maneira honesta e com “a língua dos jovens”.

Do outro lado, Rose Byrne está confortável como a matriarca da família – ao passo que Seth Rogen continua interpretando o mesmo bananão que faz em todos as comédias que produz, maconheiro, irresponsável e extremamente amável. Auxiliado por um bom time de coadjuvantes, que preenchem todos os clichês de personalidade que PRECISAM estar presentes neste tipo de filme, as melhores cenas são as que colocam em contraste a juventude e a maturidade dos dois grupos.

Mas quem rouba a cena (até de propósito) é o ator Zac Efron, completamente confortável no papel que o compete: o de imaturo, que se deu mal na vida e que assiste passivamente à todos ao seu redor acharem um lugar de onde pertencem e ele parado no tempo. Desesperado pra chamar atenção e ser útil, ele utiliza o carisma e o corpo para mostrar à que veio. Suas cenas são sempre carregadas de naturalidade e Efron mostra que pode ser um pouquinho melhor que a média quando não se leva a sério.

Embora melhore um pouquinho no segundo ato e, ainda que seja tecnicamente bem realizado, Vizinhos 2 nunca parece original ou divertido o suficiente para ser considerado um êxito. Principalmente no final, onde o roteiro carrega em uma doçura que parece não pertencer ao mesmo filme que acabamos de assistir. Para alguns, o longa pode funcionar como uma despretensiosa comédia de broderagem americana que está ali para divertir e só. Para outros, nem isso.

X-MEN: APOCALYPSE (Bryan Singer, 2016)

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NOTA: 8,5 / Por Nathalia Barbosa

Bombas, explosões, carros voando, poeira e mais poeira… Isso descreveria perfeitamente X-Men Apocalipse se não fosse a presença marcante de elementos históricos no roteiro idealizado por Simon Kinberg. Continuando a confusa luta dos mutantes para conviverem juntos aos humanos, exposta em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido por meio de um divisor de águas, Apocalipse aprofunda a questão iniciada no Tratado de Paris após a guerra do Vietnã, em 1973.

X-Men: Apocalipse é uma densa batalha dos mutantes, mas que tenta ser discreta, assim como o contexto no qual vivem – a Guerra Fria. Com o clichê de um caos emergindo no Oriente e os heróis do Ocidente “altruisticamente” preocupados em salvarem o mundo, Apocalipse – um deus que desperta no Egito para purificar a humanidade e fazer os mutantes dominarem o mundo com o máximo de suas forças – invade o Cérebro do Professor Xavier, impulsionando o espírito de combate e superação dos alunos da Escola de Superdotados e, ainda, colocando a considerada heroína Mística como inspiração e incentivo da missão que irá elevar o caráter guerreiro dos diferentes oprimidos para evitar o fim do mundo.

O máster do longa é brincar com a história político-ideológica tão marcante da época. De forma criativa, Kinberg, com um bom jogo, coloca os personagens como fundamentais atores daquele período conturbado. Sacadas com a coca-cola, piadas com Star Wars, referências a Michael Jackson e problemáticas envolvendo o nazismo, a URSS e os EUA em ascensão são profundamente marcantes ao longo do filme. Porém, é por meio de Mercúrio, interpretador por Evan Peters, que o tom engraçado da Marvel aparece.

Com Peter ainda vivendo no porão de sua mãe coberto por pôsteres do Pink Floyd e Rush, Bryan Singer volta a explorar os poderes de Mercúrio com sequências em slow motion em contraponto à sua velocidade, criando as cenas mais bizarras e excêntricas possíveis. Quando Mercúrio aparece na cena para consertar a situação ou dar mais uma de suas sacadas sutis, mas nada discretas, o riso por parte do público é praticamente óbvio. Tendo uma relação enigmática e nada simples com Magneto, fica a dúvida de como irão explorá-lo nos próximos filmes.

Um questionamento forte do sistema, principalmente em um período de crescimento do capitalismo, assume importância equiparada ao desejo dos mutantes viverem em sintonia com o resto do mundo. O elogio final fica por conta de John Ottman que, ao fazer uma trilha sonora marcante – não tão criativa, mas que consegue envolver o espectador junto com ora cenas de ação, ora cenas desaceleradas com música clássica –, ressalta ainda mais o caráter de X-Men: Apocalipse em ser divertido e, ao mesmo tempo, agradável a quem exige um pouco mais para fugir das mesmices do gênero. Obviamente, o longa não foge de tais, mas consegue ir um pouco além das piadas típicas da Marvel ao priorizar uma relação aprofundada de seus personagens com os marcos históricos, recriando cada um deles cena por cena.

Memórias Secretas (Atom Egoyan, 2016)

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NOTA: 5,5 / Renato Furtado

Segundo Quentin Tarantino, sua motivação cinematográfica favorita é a vingança exatamente pelo de que a vingança, em si, é algo cinematográfico. Mais do que qualquer outro sentimento ou desejo, a vontade de retribuição – normalmente atingida por meio da violência – é gráfica, é palpável e possui um grande potencial para ser explorada em todos os tipos de gêneros fílmicos e de todas as formas possíveis. No entanto, pode-se dizer, nesse caso, que quando um trabalho é fácil de ser feito, torna-se mais difícil ainda fazê-lo bem feito: é nessa armadilha que cai o cineasta Atom Egoyan com seu novo filme “Memórias Secretas”.

Zev (interpretado por Christopher Plummer) é um velho homem que sofre de demência, um judeu que sobreviveu aos campos de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial e que agora passa os seus últimos dias de vida em uma casa de repouso ao lado de sua esposa e de Max (Martin Landau), um amigo seu. Quando sua mulher falece, Zev é instigado por Max a cumprir a promessa que fez anos antes: caçar o nazista que matou as famílias dos dois. Ou seja, pura e simplesmente, uma trama de vingança.

Fica evidente, conforme a história se desenvolve, que há algo por trás e além da mera trama de vingança e o primeiro terço do filme funciona bem, criando uma atmosfera que atrai o olhar do espectador, se desenrolando em um bom ritmo. Até a primeira reviravolta (até mesmo as reviravoltas caem de nível durante o filme, se tornando pontos de virada vazios, escritos apenas para surpreender ao invés de servir a um propósito narrativo mais sólido). Aí, as coisas passam a desandar. Se por um lado a história fica mais interessante e misteriosa, por outro parece que Egoyan simplesmente desiste de dirigir seu filme e o resultado é que nos momentos em que o roteiro começa a falhar, o filme sai dos trilhos de vez.

A vingança pede um clima, motivações fortes e personagens bem desenvolvidos e o que Egoyan oferece é um melodrama que parece querer ser mais do que um melodrama mas que não consegue escapar, verdadeiramente, de sua própria natureza. O que talvez seja, na verdade, apenas uma característica da escrita do filme, que nos faz acreditar por alguns instantes que veremos uma obra de mínima qualidade – ou pelo menos, um bom entretenimento.

Contando com uma direção de arte que preenche todo e qualquer quadro com mais do que deveria, uma fotografia pouco inspirada e uma montagem razoável, a direção pode ser classificada precisamente como preguiçosa: parece o trabalho de um amador ou de um estreante – o problema é que o diretor tem muitos anos de carreira e inclusive possui uma Palma de Ouro no seu currículo e uma ou duas indicações ao Oscar. O peso da falta de comando narrativo recai, então, sobre os atores, que não decepcionam.

Apesar do material confuso (e, no fim das contas, pobre) que recebem e do pouco tempo em tela,  Martin Landau e Dean Norris (o fantástico Hank da série Breaking Bad) funcionam como ótimos coadjuvantes para um Christopher Plummer, como sempre, muito bem. É difícil lembrar de uma má atuação de Plummer e aqui ele é o responsável por manter toda a atmosfera. Com grande tempo de tela, é possível ver todas as contradições, dúvidas e incertezas que Plummer constrói, nos olhos de Zev: mais uma vez, é uma composição interessante e pertinente de um gigante do cinema.

Fica a sensação, no fim das contas, de que a equipe de cineastas parece ter sentido uma extrema urgência de contradizer o aspecto cinematográfico da vingança, construindo uma película que poderia ser muito bem um telefilme (ou até mesmo uma novela, dado o desinteresse da direção) caso Plummer não estivesse no papel principal. Este é o típico caso de um filme em que um elemento é melhor que todo o conjunto: para nossa sorte, este elemento é um ator genial, fato que torna toda a experiência de assistir “Memórias Secretas” um pouco menos trepidante e confusa.

 

Mulheres no Poder (Gustavo Acioli, 2016)

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NOTA: 8 / Nathalia Barbosa

A abertura de Mulheres no poder, revezando cortes entre cenas a respeito de pautas feministas polêmicas e os créditos, apresenta o resumo do filme por meio do design do título: de uma forma, digamos, meio clichê, “Mulheres” aparece em verde e amarelo e a cor rosa, representando a feminilidade, colore “no poder”.

O roteiro mostra uma situação inusitada no contexto atual do Brasil: mulheres dominando a política, principalmente o Senado. É nesta esfera do Poder Legislativo que há a personagem principal. Maria Pilar, interpretada por Dira Paes, é uma senadora altamente astuciosa e seguidora do velho “jeitinho brasileiro”. Por meio de uma atuação jocosa, que incomoda extremamente por enfatizar os estereótipos atribuídos às mulheres, como se todas fossem assim, vemos alguém que, apesar de fútil, pode ser a pessoa mais inteligente no campo da corrupção, mostrando que esta é praticada por todo tipo de pessoa.

O foco do filme é realmente a complexidade da narrativa que representa perfeitamente como a política brasileira não é um jogo para amadores. Com muitas piadas que nos fazem rir para não chorarmos, Pilar tenta ganhar uma concessão na execução do projeto “Brasil brasileira”, disputando com a ministra Ivone (Stella Miranda), tendo duas incógnitas por trás do esquema.  Em meio a isso, a fotografia, que não apresenta nenhuma inovação, torna-se quase dispensável.

Os homens não chegam a compor um terço do elenco, abrindo espaço para o deboche de, até mesmo, questões como o femismo. A única figura masculina que chama atenção no longa é o motorista de Pilar, George (João Velho). O clássico “pau-mandado”, tanto da política como da relação de interesses disfarçada de amorosa, é a peça-chave para trazer à tona a típica visão de Nietzsche sobre as mulheres: seres espertos, cheios de esperteza e agilidade para tornar qualquer situação favorável aos próprios interesses, incluindo a manipulação dos homens por meio da sedução.

Apesar de sentir certo incômodo com atuações extremamente forçadas em personagens altamente caricatos, há espaço para perceber uma “boa” intenção do diretor e roteirista Gustavo Acioli ao criticar, de forma altamente ácida e trash, as manobras políticas e, ainda, jornalísticas de um país que apresenta a falta de ética das pessoas que compõem o governo como única coisa não surpreendente. De resto, é uma incessante reviravolta que acaba sempre no favorecimento daqueles que ocupam altos cargos enquanto os de baixos postos, conhecidos como “laranjas”, ocupam o valor negativo dos noticiários. Em meio ao caos político realmente instaurado no Brasil, o filme é fundamental nesta situação, confundindo o espectador a respeito do que é piada e o que é sério e demonstrando, ao extremo, como é difícil distinguir ficção de realidade.

 

Na guerra das bilheterias, Capitão América já é vencedor

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Por Caio César

Para aqueles que não acompanham os números das bilheterias do mercado do cinema, alguns índices podem assustar. Leve por consideração que um filme como Batman Vs Superman, que arrecadou 864 milhões de dólares ao redor do mundo, foi considerado como uma decepção financeira pelos executivos da Warner. Ainda assim, os analistas aguardam com grande antecipação a estreia de Capitão América – Guerra Civil, terceira parte da saga do heroi – e uma especie de Vingadores 2.5 – já que reúne grande parte do elenco do Universo Cinematográfico da Marvel.

Em uma ação já comum à filmes da Marvel (o motivo não é revelado, mas tende à ter relação com o calendário de feriados nacionais dos EUA), o filme está sendo lançado em solo americano com uma semana de atraso aos grandes mercados internacionais, incluindo Brasil.  Em terras verde e amarelas, o filme simplesmente alcançou o título de maior abertura da história, com 2,726 milhões de espectadores (R$44 milhões de renda).

A expectativa é que neste fim de semana, o filme se torne a quarta produção a arrecadar mais de 200 milhões de dólares neste período nos Estados Unidos. O boca a boca está absurdamente positivo e o clima quente na maior parte do país também deve ajudar.

Para saber mais sobre bilheterias, notícias e repercussões de Guerra Civil, continue acessando o Cinema2Manos. 

Nise: O Coração da Loucura (Roberto Berliner, 2016)


NOTA: 8 / Renato Furtado

Desde que cineastas como Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, o cinema mundial não foi mais o mesmo. Célebres diretores como Martin Scorsese e Jean-Luc Godard não só reconhecem a importância do Cinema Novo brasileiro como também receberam influência do cinema brasileiro em seus trabalhos. Acima de tudo, no entanto, foi o próprio cinema brasileiro que foi transformado.

Distante das produções comerciais, a filmografia nacional pode ser definida, no geral, através de uma estética realista e crua, herança direta do Cinema Novo (e indireta do Neorrealismo italiano). É exatamente assim, sem muitas luzes ou efeitos e com um olhar puro e sensível para os detalhes, que o diretor Roberto Berliner cria “Nise: O Coração da Loucura”.

A psiquiatra Nise da Silveira retorna ao Brasil após alguns anos estudando fora e reassume seu posto no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. O cenário que ela encontra é terrível: à época, os tratamentos psiquiátricos eram, basicamente, experimentos cruéis. Revoltada, Nise decide humanizar o tratamento – e acaba fazendo uma revolução.

Em linhas gerais, a trama segue este período da vida de Nise, mas o roteiro é inteligente o suficiente para não fazer uma mera cinebiografia no esquema padrão do nasceu-viveu-morreu; pelo contrário, Nise é mais um elemento centralizador do que a protagonista da história, funcionando como o fio condutor de uma narrativa que gira em torno dela, mas que fala sobre mais coisas do que apenas a história de um indivíduo.

O caminho aberto pela escrita permite que Berliner tome liberdades necessárias para focalizar o que é importante: o coração da loucura. Com um estilo que beira o documental, se valendo de planos longos, fotografia natural, câmera na mão, direção de arte primorosa, fluida e detalhada e uma aparente não-intervenção, o cineasta se torna capaz de praticar o mesmo exercício que a Nise da vida real praticou: a observação paciente.

Este é um cinema poético, de espera, que evidencia o gosto pelos tempos mortos, aqueles instantes em que nada parece acontecer, mas que na verdade conduzem a beleza real do campo do inconsciente diretamente para o reino do visível: nestes planos longos e sensíveis, “Nise” triunfa e emociona.

As performances construídas pelo elenco, no geral, transmitem belezas e delicadezas de maneira minuciosa. Ainda que alguns atores sejam demasiado teatrais, o cast liderado pela boa atuação de Glória Pires no papel principal é ótimo. Os destaques ficam com os clientes, interpretados sem exagero, mas com afeto e com coragem por um belíssimo time de atores, onde o jogador mais valioso da companhia é Fabrício Boliveira.

De fato, o único defeito de “Nise” pode ser, no fim das contas, a renúncia, em certos pontos, à estética proposta pelos cineastas. Em certas cenas, Berliner deixa de tirar proveito do seu olhar minucioso e acaba caindo na armadilha de utilizar de subterfúgios para atingir as emoções – como o uso desnecessário da trilha sonora e a atenção desviada para subtramas pouco exploradas que mais se assemelham a pontas soltas – quando tudo o que precisava fazer era apenas “ligar a câmera e esperar a mágica surgir”.

Em seu silencio, sua arte, sua paciência, sua sensibilidade e em seu grande coração, “Nise” é um deleite para os olhos. É forte, contundente, real, complexo, poético e incrível como sua protagonista e o próprio coração da loucura.

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