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NOTA: 7,5 / Nathalia Barbosa

-> Nathalia é nossa nova colaboradora. Estudante da UFRJ, fã de Michael Jackson e Pink Floyd, filosofia e do trabalho do diretor Wes Anderson. Aliás, temos mais uma amante de animações na equipe. Seja bem vinda! 

Atualmente, é quase impossível alguém não torcer o nariz para os filmes de terror devido aos clichês. Martyrs, dos mesmos produtores de Invocação do Mal – bem recepcionado pela crítica e pelo público – e Annabelle, coloca em dúvida se é realmente um terror tradicional, cheio de aberrações e sustos, ou um suspense direcionado a uma tortura psicológica sutil com ápices de ação.

O longa tem como foco a problemática história de Lucie (Troian Bellisario) – uma menina que fora torturada em um ambiente misterioso. Quando consegue fugir de seu cativeiro, chega a um orfanato religioso onde conhece Anna (Bailey Noble), uma criança gentil, atenciosa e protetora. A partir da amizade que dura por todo o filme, o espectador é convidado a descobrir, passo a passo, qual seria o grande problema de Lucie que a atormenta de forma sobrenatural.

Kevin e Michael Goetz colocaram desde a imagem de crianças inocentes no campo de centeio que estão prestes a cair no abismo até este de fato. O roteiro do filme inova ao utilizar uma questão moral como pano de fundo de uma seita macabra, lembrando a primeira temporada de True Detective, principalmente quando tenta nos colocar no papel de Rustin Cohle (Matthew McConaughey) – um detetive crítico e pessimista a respeito do comportamento humano. Com experimentos realizados por meio de torturas, as vítimas seriam espécies de seres resistentes à morte e ao sofrimento devido a um dom divino, observado por meio de fotografias de seus olhares instantes antes do último suspiro. O grande objetivo é saber como essas pessoas portam tal dom e qual seria a mensagem de Deus para a população na Terra.

Ainda assim, o filme não consegue fugir da velha estrutura cansativa dos filmes de terror feitos para entreter adolescentes no passeio descontraído ao shopping. A câmera, por exemplo, apenas possui simetria e estabilidade perfeitas nos locais religiosos que remetem à paz, ordem e serenidade espiritual na visão cristã, como o orfanato e a igreja. No resto da película, há imagens com cortes abruptos, aparições repentinas, sons estrondosos, falta de trilha sonora marcante e instabilidade do movimento e do foco, realçando cenas de conflito.

Se houvesse uma reflexão mais aprofundada a respeito das motivações que causam o clímax do filme e maior criatividade da fotografia, Martyrs poderia ser um novo clássico do gênero, mas parece que os irmãos Goetz não conseguiram largar a preferência pela mensagem fácil que herdaram da longa carreira como publicitários de grandes marcas, vide McDonald’s e BMW. Nessa lógica, poderíamos definir a obra como o lanche conceitual que tenta ser gourmet, mas não esconde seu caráter de fast food. Em suma, é uma boa alternativa para quem está cansado do exagero de maquiagem de fantasmas que aparecem do nada na tela, apresentando um roteiro um pouco melhor elaborado graças ao talento de Mark L. Smith (O Regresso).

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