assassin

NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Existem certos caminhos no cinema que não podem ser trilhados ao mesmo tempo. É óbvio que isso não é uma regra, não existem regras no cinema, e alguns filmes podem ter tido sucesso em narrar uma história linear ao mesmo tempo em que o objetivo principal era alcançar o experimentalismo. No entanto, a confluência do filme experimental (normalmente associado ao filme não-narrativo) com o filme narrativo é algo, de fato, complexo de atingir. É nesta armadilha que cai o veterano cineasta taiwanês Hou Hsiao-Hsien com seu novo filme, “A Assassina”.

Uma assassina, uma das melhores de toda a China, é enviada para eliminar o seu primo, por quem esteve/está apaixonada. A ideia é simples, direta e objetiva, mas ao lançar mão de um complexo jogo político de bastidores da China dos séculos 7 e 8 e sua tendência ao experimentalismo, o cineasta complica sua história e força os espectadores para fora da trama. O diretor cria belas imagens, mas sua trama é confusa pelo simples motivo de que o taiwanês está mais interessado na experimentação do que na narrativa.

Claramente isto não é um problema: quando Hsien atua no topo de seu potencial de experimentação imagética, o filme é incrível. Não à toa, sua primorosa direção lhe rendeu o prêmio de melhor diretor no Festival de Cannes. Em “A Assassina”, Hsien conjura imagens, planos e enquadramentos dos quais tira o máximo de emoção possível através de lentos movimentos de câmera e de uma direção de arte mais do que fabulosa, construindo um jogo de justaposição que lembra bastante a estética de montagem de Akira Kurosawa, cortando não para priorizar a continuidade (como na montagem tradicional americana), mas para priorizar as emoções trazidas pelo movimento ou a falta dele – evidenciado pelo leve balançar de cortinas, pelo bruxulear das chamas e por uma constante névoa que permeia toda a narrativa.

É evidente  que há muita beleza em “A Assassina” (aliás, sem sombra de dúvidas este é um dos filmes mais belos dos últimos tempos, cada frame parece um quadro dada à preciosa composição imagética), mas esta beleza é invocada, justaposta e estruturada de forma confusa e para finalidades misteriosas. Aqui, fica expressa a problemática: um filme narrativo (ainda mais em um thriller político e especialmente em um thriller sobre a política chinesa de mais de quinze séculos atrás), na maioria das vezes, pede uma montagem que privilegie a continuidade e Hsien não pertence a esta escola. O cineasta não se interessa pela linearidade – precisamente, o grande trunfo da estética do taiwanês é a experimentação, os longos planos, a beleza imagética, a poesia do silêncio, dos tempos mortos – e, portanto, acaba colocando sua trama em uma encruzilhada.

No fim das contas, a montagem e as inspirações não servem nem à experimentação e nem à narrativa. O cineasta entrega, então, um filme difícil não por ser pouco palatável, mas por ser mal resolvido; porque cumpre uma oferta para uma demanda inexistente do longa, por deixar sem resposta a demanda real. A sensação final é que Hsien teria uma obra melhor em mãos se tivesse decidido seguir apenas um dos dois caminhos. Seu esforço é louvável, admirável; contudo, “A Assassina” sofre por causa de suas múltiplas tendências e aspirações e não consegue se tornar, de maneira plena, a grande obra que anuncia ser.

 

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