NOTA: 8 / Renato Furtado

Desde que cineastas como Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, o cinema mundial não foi mais o mesmo. Célebres diretores como Martin Scorsese e Jean-Luc Godard não só reconhecem a importância do Cinema Novo brasileiro como também receberam influência do cinema brasileiro em seus trabalhos. Acima de tudo, no entanto, foi o próprio cinema brasileiro que foi transformado.

Distante das produções comerciais, a filmografia nacional pode ser definida, no geral, através de uma estética realista e crua, herança direta do Cinema Novo (e indireta do Neorrealismo italiano). É exatamente assim, sem muitas luzes ou efeitos e com um olhar puro e sensível para os detalhes, que o diretor Roberto Berliner cria “Nise: O Coração da Loucura”.

A psiquiatra Nise da Silveira retorna ao Brasil após alguns anos estudando fora e reassume seu posto no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. O cenário que ela encontra é terrível: à época, os tratamentos psiquiátricos eram, basicamente, experimentos cruéis. Revoltada, Nise decide humanizar o tratamento – e acaba fazendo uma revolução.

Em linhas gerais, a trama segue este período da vida de Nise, mas o roteiro é inteligente o suficiente para não fazer uma mera cinebiografia no esquema padrão do nasceu-viveu-morreu; pelo contrário, Nise é mais um elemento centralizador do que a protagonista da história, funcionando como o fio condutor de uma narrativa que gira em torno dela, mas que fala sobre mais coisas do que apenas a história de um indivíduo.

O caminho aberto pela escrita permite que Berliner tome liberdades necessárias para focalizar o que é importante: o coração da loucura. Com um estilo que beira o documental, se valendo de planos longos, fotografia natural, câmera na mão, direção de arte primorosa, fluida e detalhada e uma aparente não-intervenção, o cineasta se torna capaz de praticar o mesmo exercício que a Nise da vida real praticou: a observação paciente.

Este é um cinema poético, de espera, que evidencia o gosto pelos tempos mortos, aqueles instantes em que nada parece acontecer, mas que na verdade conduzem a beleza real do campo do inconsciente diretamente para o reino do visível: nestes planos longos e sensíveis, “Nise” triunfa e emociona.

As performances construídas pelo elenco, no geral, transmitem belezas e delicadezas de maneira minuciosa. Ainda que alguns atores sejam demasiado teatrais, o cast liderado pela boa atuação de Glória Pires no papel principal é ótimo. Os destaques ficam com os clientes, interpretados sem exagero, mas com afeto e com coragem por um belíssimo time de atores, onde o jogador mais valioso da companhia é Fabrício Boliveira.

De fato, o único defeito de “Nise” pode ser, no fim das contas, a renúncia, em certos pontos, à estética proposta pelos cineastas. Em certas cenas, Berliner deixa de tirar proveito do seu olhar minucioso e acaba caindo na armadilha de utilizar de subterfúgios para atingir as emoções – como o uso desnecessário da trilha sonora e a atenção desviada para subtramas pouco exploradas que mais se assemelham a pontas soltas – quando tudo o que precisava fazer era apenas “ligar a câmera e esperar a mágica surgir”.

Em seu silencio, sua arte, sua paciência, sua sensibilidade e em seu grande coração, “Nise” é um deleite para os olhos. É forte, contundente, real, complexo, poético e incrível como sua protagonista e o próprio coração da loucura.

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