mulheres

NOTA: 8 / Nathalia Barbosa

A abertura de Mulheres no poder, revezando cortes entre cenas a respeito de pautas feministas polêmicas e os créditos, apresenta o resumo do filme por meio do design do título: de uma forma, digamos, meio clichê, “Mulheres” aparece em verde e amarelo e a cor rosa, representando a feminilidade, colore “no poder”.

O roteiro mostra uma situação inusitada no contexto atual do Brasil: mulheres dominando a política, principalmente o Senado. É nesta esfera do Poder Legislativo que há a personagem principal. Maria Pilar, interpretada por Dira Paes, é uma senadora altamente astuciosa e seguidora do velho “jeitinho brasileiro”. Por meio de uma atuação jocosa, que incomoda extremamente por enfatizar os estereótipos atribuídos às mulheres, como se todas fossem assim, vemos alguém que, apesar de fútil, pode ser a pessoa mais inteligente no campo da corrupção, mostrando que esta é praticada por todo tipo de pessoa.

O foco do filme é realmente a complexidade da narrativa que representa perfeitamente como a política brasileira não é um jogo para amadores. Com muitas piadas que nos fazem rir para não chorarmos, Pilar tenta ganhar uma concessão na execução do projeto “Brasil brasileira”, disputando com a ministra Ivone (Stella Miranda), tendo duas incógnitas por trás do esquema.  Em meio a isso, a fotografia, que não apresenta nenhuma inovação, torna-se quase dispensável.

Os homens não chegam a compor um terço do elenco, abrindo espaço para o deboche de, até mesmo, questões como o femismo. A única figura masculina que chama atenção no longa é o motorista de Pilar, George (João Velho). O clássico “pau-mandado”, tanto da política como da relação de interesses disfarçada de amorosa, é a peça-chave para trazer à tona a típica visão de Nietzsche sobre as mulheres: seres espertos, cheios de esperteza e agilidade para tornar qualquer situação favorável aos próprios interesses, incluindo a manipulação dos homens por meio da sedução.

Apesar de sentir certo incômodo com atuações extremamente forçadas em personagens altamente caricatos, há espaço para perceber uma “boa” intenção do diretor e roteirista Gustavo Acioli ao criticar, de forma altamente ácida e trash, as manobras políticas e, ainda, jornalísticas de um país que apresenta a falta de ética das pessoas que compõem o governo como única coisa não surpreendente. De resto, é uma incessante reviravolta que acaba sempre no favorecimento daqueles que ocupam altos cargos enquanto os de baixos postos, conhecidos como “laranjas”, ocupam o valor negativo dos noticiários. Em meio ao caos político realmente instaurado no Brasil, o filme é fundamental nesta situação, confundindo o espectador a respeito do que é piada e o que é sério e demonstrando, ao extremo, como é difícil distinguir ficção de realidade.

 

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