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NOTA: 5,5 / Renato Furtado

Segundo Quentin Tarantino, sua motivação cinematográfica favorita é a vingança exatamente pelo de que a vingança, em si, é algo cinematográfico. Mais do que qualquer outro sentimento ou desejo, a vontade de retribuição – normalmente atingida por meio da violência – é gráfica, é palpável e possui um grande potencial para ser explorada em todos os tipos de gêneros fílmicos e de todas as formas possíveis. No entanto, pode-se dizer, nesse caso, que quando um trabalho é fácil de ser feito, torna-se mais difícil ainda fazê-lo bem feito: é nessa armadilha que cai o cineasta Atom Egoyan com seu novo filme “Memórias Secretas”.

Zev (interpretado por Christopher Plummer) é um velho homem que sofre de demência, um judeu que sobreviveu aos campos de concentração de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial e que agora passa os seus últimos dias de vida em uma casa de repouso ao lado de sua esposa e de Max (Martin Landau), um amigo seu. Quando sua mulher falece, Zev é instigado por Max a cumprir a promessa que fez anos antes: caçar o nazista que matou as famílias dos dois. Ou seja, pura e simplesmente, uma trama de vingança.

Fica evidente, conforme a história se desenvolve, que há algo por trás e além da mera trama de vingança e o primeiro terço do filme funciona bem, criando uma atmosfera que atrai o olhar do espectador, se desenrolando em um bom ritmo. Até a primeira reviravolta (até mesmo as reviravoltas caem de nível durante o filme, se tornando pontos de virada vazios, escritos apenas para surpreender ao invés de servir a um propósito narrativo mais sólido). Aí, as coisas passam a desandar. Se por um lado a história fica mais interessante e misteriosa, por outro parece que Egoyan simplesmente desiste de dirigir seu filme e o resultado é que nos momentos em que o roteiro começa a falhar, o filme sai dos trilhos de vez.

A vingança pede um clima, motivações fortes e personagens bem desenvolvidos e o que Egoyan oferece é um melodrama que parece querer ser mais do que um melodrama mas que não consegue escapar, verdadeiramente, de sua própria natureza. O que talvez seja, na verdade, apenas uma característica da escrita do filme, que nos faz acreditar por alguns instantes que veremos uma obra de mínima qualidade – ou pelo menos, um bom entretenimento.

Contando com uma direção de arte que preenche todo e qualquer quadro com mais do que deveria, uma fotografia pouco inspirada e uma montagem razoável, a direção pode ser classificada precisamente como preguiçosa: parece o trabalho de um amador ou de um estreante – o problema é que o diretor tem muitos anos de carreira e inclusive possui uma Palma de Ouro no seu currículo e uma ou duas indicações ao Oscar. O peso da falta de comando narrativo recai, então, sobre os atores, que não decepcionam.

Apesar do material confuso (e, no fim das contas, pobre) que recebem e do pouco tempo em tela,  Martin Landau e Dean Norris (o fantástico Hank da série Breaking Bad) funcionam como ótimos coadjuvantes para um Christopher Plummer, como sempre, muito bem. É difícil lembrar de uma má atuação de Plummer e aqui ele é o responsável por manter toda a atmosfera. Com grande tempo de tela, é possível ver todas as contradições, dúvidas e incertezas que Plummer constrói, nos olhos de Zev: mais uma vez, é uma composição interessante e pertinente de um gigante do cinema.

Fica a sensação, no fim das contas, de que a equipe de cineastas parece ter sentido uma extrema urgência de contradizer o aspecto cinematográfico da vingança, construindo uma película que poderia ser muito bem um telefilme (ou até mesmo uma novela, dado o desinteresse da direção) caso Plummer não estivesse no papel principal. Este é o típico caso de um filme em que um elemento é melhor que todo o conjunto: para nossa sorte, este elemento é um ator genial, fato que torna toda a experiência de assistir “Memórias Secretas” um pouco menos trepidante e confusa.

 

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