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NOTA: 7 / Renato Furtado

É fato que comparar “Jogo do Dinheiro”, novo filme comandado por Jodie Foster na cadeira de diretora – aliás, em um ótimo desempenho – ao clássico “Rede de Intrigas” de Sidney Lumet – um dos maiores e mais subestimados diretores da história do cinema – é precisamente injusto. Contudo, é difícil não realizar o trabalho comparativo, uma vez que os dois filmes tratam de temas similares com abordagens similares: no caso, a crítica ácida da sociedade de informação e do espetáculo e dos meios de comunicação através de uma trama que coloca o espectador dentro de um programa mais do que sensacionalista.

Aqui, George Clooney é Lee Gates, o apresentador de um programa econômico que utiliza todo o tipo de recursos já clássicos do show business (como assistentes de palco, inserções sonoras e visuais, animais vivos no programa e pegadinhas estúpidas) que acaba sendo tomado como refém durante a transmissão de uma das edições do programa (a última comandada pela produtora Patty Fenn, personagem de Julia Roberts) por um jovem armado (Jack O’Connell) com arma e bomba, que clama ter sido engando por uma das “infalíveis” previsões econômicas do apresentador.

Assim, com o palco armado, Jodie Foster concentra todos os esforços em desvendar a farsa inerente aos programas televisivos. Utilizando montagens rápidas com a frames de variados programas, Foster escancara o sensacionalismo presente na mídia e na televisão (não só dos Estados Unidos, mas de todo o Ocidente) e – como Adam McKay em “A Grande Aposta” – sabe usar momentos de humor genuíno para revelar o que há por trás destes shows – e, de fato, revelar que tudo, independente do que aconteça, seja benéfico ou maléfico, e principalmente se for maléfico, pode se tornar um show para a sociedade do espetáculo.

Para isso, ela conta com uma montagem que mantém a atenção do espectador sem nunca deixar o ritmo de suspense cair. A cada nova cena, a tensão aumenta e o olhar é capturado para nunca mais ser libertado. Além disso, todo o design de produção e a fotografia conseguem realizar uma boa imersão no mundo proposto. No campo das interpretações, o trio de atores principais é ótimo. Enquanto Roberts e O’Connell desempenham muito bem os seus papeis, é definitivamente Clooney, o protagonista da trama, quem rouba a cena. Acostumado aos seus papeis cômicos e satíricos com os Irmãos Coen, Clooney compõe um homem cínico, sarcástico e arrogante disposto a fazer tudo para conquistar sua audiência.

Com tudo isso funcionando, o problema mesmo para Foster e sua equipe é que uma dupla de armadilhas se apresenta no meio do caminho: a tendência a ceder aos clichês hollywoodianos e a escrita manipuladora do roteiro. A grande diferença entre o texto deste filme e o texto de “Rede de Intrigas” é que o roteiro do clássico é simplesmente fantástico, beirando a perfeição. Novamente vale ressaltar que a comparação é injusta, mas fica claro que o roteiro de “Jogo do Dinheiro” poderia utilizar um pouco mais da sagacidade e da característica profética do roteiro de “Rede de Intrigas”.

No entanto, o certo mesmo é que é pouco útil julgar um filme pelo que ele poderia ter sido ao invés de julgá-lo pelo que ele é. O roteiro poderia ser melhor, mas ao mesmo tempo, Foster poderia ter sido menos tendenciosa e manipuladora em sua direção. Em certos momentos, a trilha sonora mais atrapalha do que ambienta o filme, praticamente dizendo o que o espectador deve sentir ao invés de deixar o público construir sua própria reação às imagens apresentadas. Além disso, a jornada redentora do personagem de Clooney é interessante, mas acaba caindo no mesmo problema: a inserção de um clichê hollywoodiano em um filme que possui justamente a proposta de criticar a produção audiovisual de todo um sistema.

“Jogo do Dinheiro” poderia ser um filme melhor – especialmente se os cineastas responsáveis se mantivessem mais no caminho da crítica -, mas ainda assim é muito bom. Ainda que  o terceiro ato seja mais fraco que os dois primeiros, as participações de Caitriona Balfe e Dominic West são valiosas e as críticas feitas por Foster funcionam, atingindo com força, provocando risadas que logo se tornam em expressões de seriedade assim que o espectador percebe os malefícios de todo o sensacionalismo (sempre divertido, à primeira vista). No fim das contas, é um bom entretenimento com algo a dizer, com uma mensagem importante. Não é um clássico, mas é muito melhor que a maioria dos filmes atuais – e isso já é muita coisa.

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