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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

São várias as ferramentas cinematográficas utilizadas para narrar um filme. Duas delas, especificamente, são bastante empregadas: as elipses e o esquema de três atos. A primeira, a elipse – que além de ser uma técnica de narração, também é um termo matemático, uma funcionalidade geométrica e uma figura de linguagem – é um recurso que permite que os narradores omitam informações ou códigos que possam ser facilmente identificados pelo contexto narrativo por outros elementos prévios. Já o sistema de três atos, estrutura narrativa emprestada do teatro, facilita o desenvolvimento da trama, do ponto de início, passando pelos conflitos e o clímax até atingir o ponto de resolução.

Quando bem aplicadas (e/ou subvertidas, especialmente no caso do esquema de três atos), estas técnicas podem ser o que diferencia um filme ruim de um bom filme e um bom filme de uma obra-prima. A transformação de um osso arremessado ao céu em uma nave espacial em “2001: Uma Odisseia no Espaço” avança a trama em milênios em uma questão de segundos (elipse de beleza ímpar, tanto estética quanto alegórica) e as subversões narrativas pós-modernas dos roteiros de Quentin Tarantino e Christopher Nolan (em “Pulp Fiction” e “Memento”, respectivamente) provam a tese. “Warcraft”, novo filme do ótimo diretor Duncan Jones, não se beneficia nem de um recurso nem de outro.

Em um universo fantástico, orcs e humanos vivem em dois mundos separados. Nenhuma das duas raças tem conhecimento sobre a existência da outra. No entanto, tudo muda quando um maléfico feiticeiro orc decide transportar a Horda (a união guerreira dos orcs) para o mundo dos humanos através de um portal mágico com o objetivo de dizimar os seres humanos e tomar posse do novo mundo. “O primeiro encontro de dois mundos”, anunciado no título do filme, é, portanto, mais do que complexo, certo? Bem, não é exatamente isso que o ritmo de Warcraft nos conta.

“Tocado” em um compasso muito veloz, o longa claramente sofre por estar atrelado a um grande estúdio. A premissa é, com certeza, fantástica: duas raças diferentes acabam presos no meio de uma guerra enorme (onde estão única e exclusivamente pela vontade de seus governantes) e de uma situação que impõe o cruel desenvolvimento de uma xenofobia violenta. Com a qualidade de Duncan Jones no comando da produção (ele é responsável pelo fantástico “Lunar” e pelo bom “Contra o Tempo”), é até fácil imaginar a realização de um potente drama de guerra sobre esta premissa. Contudo, não é possível realizar uma adaptação massiva de um game tão famoso quanto a franquia Warcraft dessa forma; é necessário, precisamente, construir um longa de aventura e fantasia.

O ponto é que a montagem de Warcraft não deixa tempo para que o espectador adentre, de fato, a trama, não dá tempo para os planos, em si, respirarem: todas as cenas, ações e reações parecem ou muito curtas ou muito longas e, consequentemente, o encadeamento de acontecimentos e situações parece não fazer sentido suficiente. No final das contas, o ritmo resultante do longa é o de um caminhão sem freio descendo uma alta ladeira à máxima velocidade. Em outras palavras: falta sentimento e sobra ação. O problema é tão agudo que grande parte das cenas emocionais precisa recorrer ao uso de diálogos para que saibamos o que os personagens estão sentindo – também por culpa de algumas atuações fracas.

Contudo, entretanto e todavia, Warcraft tem mais méritos que equívocos. Apesar de até aqui não soar assim, é a verdade: Warcraft não é um grande filme, mas é um bom entretenimento, é um bom começo para uma franquia (melhor começo que boa parte de alguns primeiros filmes recentes) e, acima de tudo, é um exercício cinematográfico que faz transbordar a paixão que a equipe de cineastas colocou no projeto. O cuidado com toda a produção e a construção do universo são provas diretas desse fato.

Todos os esforços técnicos – desde o departamento de design de produção (que cria belíssimas cidades e culturas através da habilidade de Gavin Bocquet, responsável pelo design de “Stardust”), de figurinos e maquiagem, de fotografia e, evidentemente, de efeitos especiais até o departamento de edição e mixagem de áudio – são verdadeiros feitos da maior qualidade. Todos eles realizam uma grande imersão do espectador em um universo desconhecido – e, por vezes, hostil – com muita competência e formam as bases para que o diretor Duncan Jones (jogador de Warcraft durante a adolescência) possa estruturar sua trama de maneira que as deficiências do roteiro e da montagem não sejam tão evidentes.

Como o ótimo diretor que é, Jones estabelece uma atmosfera que desperta grande interesse, dispensando até mesmo algumas das fracas atuações do elenco. Alguns dos planos aéreos remetem diretamente ao visual dos games e as sequências de batalhas parecem vivas no filme. É preciso destacar também os efeitos visuais dos feitiços e a proeza técnica da captura de movimentos que construiu, com perfeição, a raça dos orcs – ainda, é preciso destacar também as interpretações dos dois atores principais que dão vida aos membros da Horda, Toby Kebbel e Rob Kazinsky (este, jogador top 10 mundial de Warcraft), que compõem seus papeis com bastante realismo e ampla gama de emoções.

Apesar dos pesares e dos problemas, “Warcraft: Primeiro Encontro de Dois Mundos” é um blockbuster que abre o caminho para uma franquia que pode ir muito além da mera diversão – os comentários sobre xenofobia e sobre os verdadeiros custos de uma guerra, que vão muito além dos custos econômicos, podem ser de extrema valia para pensar o nosso mundo atual a partir de um mundo fantástico criado com primazia intelectual e estética – e atingir o patamar de aventura épica previsto na premissa da adaptação.

Evidentemente, há um bom caminho a ser trilhado e se os cineastas prestarem atenção ao que outros filmes épicos fizeram – como a trilogia “Senhor dos Anéis” e o clássico dos clássicos “Lawrence da Arábia”, filmes que possuíam uma estética refinada e apurada aliada a um roteiro afiado, que não mastigava todas as informações e permitia que o espectador sentisse a respiração e o ritmo da trama, utilizando tanto elipses como variações interessantes do esquema de três atos -, é bem possível que a franquia “Warcraft” seja uma franquia a ser lembrada, trazendo tanto dinheiro para o estúdio quanto prestígio para o filme. Nos resta apenas esperar pelo melhor e observar os próximos capítulos.

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