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NOTA: 7 / Por Nathalia Barbosa

Truque de Mestre: O Segundo Ato segue a linha de conflito de Kingsman, filme recentemente lançado e dirigido por Matthew Vaughn. O longa coloca em questão a segurança de nossos dados em meio ao avanço tecnológico; porém, na forma mais foucaultiana do termo “vigilância”: todos vigiam uns aos outros, mas alguns detêm mais poder por dominarem maior gama de conhecimento, seja no campo científico, considerado como o provedor da verdade, seja no campo da mágica, visto como o antro da ilusão. Logo, em quem devemos confiar?

Os Cavaleiros seguem o objetivo de justiça social: querem fazer com que a sociedade tenha consciência do sistema de vigilância que nos cerca, atentando ao lucro que empresas obtêm por meio da venda de nossas informações. Para isso, revelam desde segredos em lançamentos de novos sistemas de programação até os próprios truques para chocar o público, mostrando um complexo paradoxo ao longo da história.

Nesse contexto, o que atua como agravante das disputas, que buscam o poder por meio do monopólio das informações, é uma rede de vinganças entre Dylan Rhodes, interpretado por Mark Ruffalo, Thaddeus Bradley (Morgan Freeman) – o suposto assassino de seu pai – e o banqueiro frio e ganancioso Arthur Tressler (Michael Caine). Dentro desse enorme jogo de antagonismos, os Cavaleiros terão de lidar com algumas incertezas relacionadas à confiança dentro do grupo, principalmente pelo ego exaltado de Daniel Atlas.
Por meio de sequências e cortes super rápidos e dinâmicos, nossa percepção é o tempo todo deslocada ora pelos truques de mágica, ora pela montagem do próprio filme. As cores fortes das grandes cidades provenientes das luzes que se destacam em ambientes noturnos são combinadas com a trilha sonora agitada presente a todo instante. A única cena que contrasta com o estilo dominante é a de abertura, a qual nos leva ao extremo de todas as interpretações possíveis do ditado “olho por olho” por um discurso sereno e enigmático pronunciado pro Bradley.

Com um roteiro importante para pensarmos o sistema de controle exercido desde a sociedade moderna, os roteiristas Ed Solomon e Peter Chiarelli provaram que é possível expor grandes análises de Foucault a respeito da vigilância, do saber e do discurso, mas de uma forma descontraída e com um toque de dinamismo proporcionado pela direção de Jon M. Chu. Truque de Mestre é um forte candidato para incitar a reflexão, mesmo que o espectador não domine grandes repertórios teóricos, pois todos nós sabemos que, apesar de toda suposta mágica dos avanços tecnológicos, estamos inseridos na ilusão de que expor nossa privacidade é seguro e natural na idade contemporânea.

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