Big-Jato

NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Há um termo no campo da crítica literária que define muito bem o novo filme de Claudio Assis (“Amarelo Manga”, “Febre do Rato”): Bildungsroman. O conceito, de origem alemã, significa “romance de formação” em português. Este tipo de livro, normalmente, acompanha os anos de formação (política, psicológica, física etc.) de um/uma adolescente até atingir certo ponto na vida em que o/a protagonista atinge um nível de maturidade. Assim é “Big Jato”, filme adaptado do livro homônimo de Xico Sá (um dos maiores cronistas brasileiros da atualidade) e que narra a história do jovem Xico (Rafael Nicácio).

Morador de Peixe de Pedra, Xico é um adolescente que, quando não está estudando, ou acompanha o seu pai, Francisco (Matheus Nachtergaele), na boleia do Big Jato, caminhão de limpeza de fossa séptica que traz o sustento de sua família (formada ainda por sua mãe e por seus outros dois irmãos e sua irmã pequena) ou passa seu tempo com seu tio Nelson (também interpretado por Nachtergaele), caminhando pelos arredores da cidade. Entre o trabalho e o tempo livre, Xico vai se formando entre a personalidade dos dois gêmeos, que tentam guiar a vida do rapaz cada um à sua maneira.

Entre o pai e o tio (a instância controladora e a instância dos impulsos, respectivamente, ainda que, no fundo, os dois personagens carreguem certas similaridades, principalmente em relação à poesia, no tato com a vida apesar das vidas distintas que levam), entre a dureza da vida trabalhada e a leveza da vida poetizada e entre o dever e o prazer, é possível ver a jornada de Xico sendo trabalhada com bastante carinho e coração pelas mãos de Claudio Assis.

O cineasta, acostumado a trabalhar com temas mais duros e com personagens marginalizados e marginais em seus filmes anteriores, aqui demonstra um novo lado – mais palpável, palatável, lúdico e poético – de suas capacidades como diretor e entrega aquele que provavelmente é o melhor filme de sua carreira. Contando algumas das suas técnicas favoritas – seu uso do recurso de quebra da quarta parede é fantástico e muito preciso, caindo como uma luva no momento certo da projetção – e fazendo referências a alguns outros filmes que também se encaixam na categoria do “Bildungsroman” (como “Os Incompreendidos” e “Os Boas Vidas”), Assis prova ter atingido uma maturidade cinematográfica.

Ajuda bastante ter ao seu lado a direção de fotografia de Marcelo Durst, que realiza um trabalho de câmera, de coloração e iluminação que dão o tom correto de poeticidade que a trama necessita. Com cores quentes, com uma predominância de tons alaranjados e com baixa saturação, Durst cria imagens de um sertão árido, mas vivo, pulsante e lírico, exatamente como visto pelas lentes do jovem Xico, cujas imagens criadas em sua mente saem diretamente da sua cabeça diretamente para a tela. Além disso, seus movimentos de câmera e enquadramentos são simples e precisos – justamente, são perfeitos para a narrativa.

Os departamentos de design de produção e de som são muito competentes e ajudam a construir todas as tonalidades e contrastes que Peixe de Pedra precisa ter. Muitos desses elementos, no entanto, são construídos através da polarização realizada pelos personagens interpretados por Nachtergaele – que só funcionam, aliás, por causa da imensa capacidade do ator. Seu poder em tela é tão grande que ele ter se dividido em duas pessoas diferentes dadas as diferenças entre seus personagens. Aliado por um elenco que também é ótimo (também constituído por Marcélia Cartaxo como a mãe e Jards Macalé como o poeta da cidade), Nachtergaele é, com certeza, um dos melhores atores da atualidade.

Contudo, no fim das contas, o melhor de todo o filme é o roteiro de Hilton Lacerda (diretor do ótimo “Tatuagem) e Ana Carolina Francisco. Os dois criam uma fábula e constroem a questão do “duplo” de maneira exemplar. Como duas metades antagônicas (Francisco e Nelson, Nachtergaele e Nachtergaele), os dois personagens são como Yin e Yang – cada um deles possui um pouco do outro dentro de si; um sem o outro não pode existir – e é justamente o antagonismo e a confluência dos dois (como já mencionado anteriormente no texto) que constrói Peixe de Pedra e a poesia.

Os subtextos são incríveis e é possível analisar por muito tempo todos os símbolos trazidos pelo filme e pela poesia da narrativa, mas o fato maior é que (ainda que a película perca força em alguns momentos por causa de certos problemas de ritmo – que não acabam com os méritos do roteiro e nem da montagem, vale ressaltar) Big Jato é um filme bastante objetivo por fazer seu slogan valer, letra por letra: além de ser um belo romance de formação, Big Jato é um “filme que fede verdade e que cheira sonho”.

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