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NOTA: 5 / Renato Furtado

É uma tendência industrial, é difícil lutar contra: a (óbvia) predileção de Hollywood pelos blockbusters por causa do fácil retorno em dinheiro e pelos possíveis lucros exorbitantes, faz com que a indústria decida, cada vez mais, fazer sagas, sequências, reboots, remakes e continuações. Afinal, por que fazer algo do zero se você pode “apenas” expandir algo que já foi feito antes e que obteve sucesso? De um ponto de vista comercial, realmente não faz sentido algum. Pelo dinheiro, é melhor ficar com o que já se conhece. Ainda mais se o seu filme possuir uma ação frenética que prende (no mau sentido) o olhar do espectador. Por isso, outro caminho que o cinema mundial comercial tem seguido é o caminho da pressa.

Há uma razão para que a montagem conhecida como clássica (em que temos várias linhas narrativas com vários personagens que são alternadas conforme uma certa sequência atinge seu clímax, que preza pela continuidade de movimentos e ações e que busca ser invisível para manter o espectador na trama, realizando uma verdadeira imersão), criada, aproximadamente, em 1915 por D. W. Griffith, pioneiro do cinema, ainda seja utilizada: ela funciona. Mas, para usar a montagem clássica e apresentar bem sua situação e seus personagens e fazer com que o espectador se identifique com a trama, um filme precisa de tempo; hoje em dia, parece faltar paciência à grande maioria dos longas.

A combinação das duas tendências, normalmente, faz com que os filmes, no fim das contas, resultem em experiências pouco empolgantes, pouco interessantes e pouco empáticas. Na esteira da reutilização de cenas e motivos cinematográficos e do ritmo frenético do cinema de ação contemporâneo (do qual Michael Bay é o verdadeiro papa), Independence Day: O Ressurgimento é justamente assim: um reboot de um filme que fez sucesso vinte anos atrás e que não dá nenhum respiro suficiente para que a audiência possa sequer “entrar” no filme.

Vinte anos depois, a Terra, agora verdadeiramente unida como uma só comunidade por causa da solidariedade causada – de maneira forçada – pelo ataque alienígena de 1996, um ambiente extremamente evoluído por causa dos avanços trazidos pelos estudos das tecnologias que os aliens deixaram em nosso planeta, precisa encarar um desafio ainda maior: o retorno dos mesmos alienígenas, agora muito mais fortes e muito mais determinados a nos destruir. Por consequência, a estrutura do filme é idêntica à do primeiro: a humanidade precisa se unir para sobreviver uma vez mais.

Portanto, se a trama e a estrutura dos dois filmes são muito similares, o que diferencia um do outro? O que faz com que o primeiro seja melhor – ainda que tenha envelhecido mal durante esses vinte anos – do que o segundo? Não existe uma só resposta, mas uma das respostas é bem simples: o primeiro filme respeita o seu tempo. O grande problema de “O Ressurgimento” é o mesmo problema que filmes como “Batman V Superman” e “X-Men: Apocalipse” enfrentaram nesse ano: todos estes longas parecem ter um roteiro de cinco horas de duração que foi montado em um filme de duas horas/duas horas e meia.

Com tantas coisas acontecendo, não sobra nenhum tempo para que a audiência goste dos personagens. Se no primeiro filme vemos as vidas dos personagens, ainda que um pequeno pedaço delas, neste filme só é possível gostar dos personagens de Jeff Goldblum, Bill Pullman, Vivica A. Fox, Judd Hirsch e Brent Spiner porque já vimos os seus desenvolvimentos no primeiro filme. Não é questão de desmerecer o mérito do carisma dos atores em cena ou algo do gênero, é simplesmente uma questão de ritmo, uma questão de tempo.

Quando nenhum dos personagens novos (Liam Hemsworth, Maika Monroe e o novato Jessie T. Usher se esforçam em seus papeis, é verdade) causa identificação com o público, é porque tem algo errado. Ainda, isso traz uma problemática estrutural muito maior que a empatia causada pelos personagens ou não em um primeiro momento: se nenhum dos heróis é carismático o suficiente, se a Terra do filme não é exatamente a nossa Terra, como é possível se importar com a destruição ou não do planeta? Em outras palavras, se não há ninguém para quem você possa torcer (e em um filme como esse é essencial que exista uma figura para torcer por), por que ver o filme? Não faz sentido algum, é a mais pura verdade.

O roteiro é, portanto, risível. Os diálogos são péssimos, a construção dos personagens é pífia, o encadeamento de ações e relações entre personagens e narrativa é complicado demais para um filme desse tipo e as saídas encontradas pela escrita do longa são horrorosas. Não há um acerto sequer no âmbito político e o exercício de imaginação de uma sociedade utópica em “O Ressurgimento” é uma das maiores falhas de todo o projeto. É uma imaginação falha em si. Existem outros graves problemas.

A única coisa que salva o filme é quando as sequências de ação começam a engatar e as coisas entram em um ritmo mais plausível ao projeto. Os esforços técnicos do filme (a não ser pela montagem, que faz muito pouco para tentar resolver alguns problemas que poderiam ser solucionados de um material ruim), principalmente de fotografia e de design de produção, são suficientes – médios, melhor dizendo – e dão um bom espetáculo. Ainda que algumas sequências pudessem ter sido melhor exploradas, não falta ação ao filme e, mesmo não sendo da mais alta qualidade, cumpre bem o seu papel e o longa, no fim das contas, entrega o que promete. Roland Emmerich, por sua vez, não compromete, mas também não ajuda.

Podia ter sido melhor? Sem sombra de dúvidas. Poderia ter sido um filme inesquecível? Não, não mesmo. O material não é bom o suficiente – nem deste filme e nem do filme original. Pode ser que esse filme cumpra as expectativas monetárias do estúdio, pode ser que as decepcione. Pode ser que as pessoas gostem dele e pode ser que elas não gostem. No fim, tudo o que esta sequência representa é o seu extremo nível mediano. Enquanto o cinema tiver pressa (para ganhar dinheiro e para fazer filmes), as coisas continuarão do jeito que estão: cada vez mais enormes filmes medianos (que a maioria do público verá, de uma forma ou de outra) atingindo o cinema e o lugar cativo dedicado a eles no esquecimento da audiência geral.

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