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Papo reto sobre a Sétima Arte

mês

julho 2016

O Bom Gigante Amigo (Steven Spielberg, 2016)

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NOTA: 8,5 / Nathalia Barbosa

Steven Spielberg fazendo filme sobre fantasia já é costume, mas uma adaptação de um dos livros de Roald Dahl, escritor britânico de clássicos infanto-juvenis, adiciona ainda mais tradicionalidade à nova obra do diretor, “O Bom Gigante Amigo”.

Anteriormente, com maestria, Wes Anderson fizera empreitada semelhante com Dahl em “O Fantástico Senhor Raposo”, adotando a técnica de stop motion. Desta vez, Spielberg continua com seu usual diretor de fotografia Janusz Kaminski, abusando de efeitos especiais e cores vivas para dar um tom mágico à atmosfera do longa, com Mark Rylance (Bom Gigante Amigo) e Jemaine Clement (gigante líder) praticamente irreconhecíveis em seus personagens por um abundante uso de motion tracking.

A história, como característica típica de Roald Dahl, gira em torno da limitação problemática entre dois mundos: o dos gigantes, sedentos por carne humana, e dos homens, especificamente composto pela população da Inglaterra, onde o filme se passa. Sophie, interpretada por Ruby Barnhill, é uma menina aventureira e que sofre de insônia, constantemente quebrando regras do orfanato onde mora. Em uma noite, a pequena garotinha vai atrás de seu gato no lado externo de seu abrigo e, quando o vento bate nas cortinas e desarruma seu curto cabelo, há o prenúncio do que virá no filme: sua vida é totalmente bagunçada quando descobre BGA, um gigante bonzinho e orelhudo que sopra sonhos pela cidade quando todos estão dormindo.

Com movimentação de câmera constante e luz e sombra realçadas ao extremo em cada sequência, há a imersão em um mundo que, com a perspectiva dos objetos de Sophie, há coisas enormes e incompreensíveis para os seres-humanos, como a linguagem estranha e divertida do novo amigo. Desajeitado e nanico para outros gigantes da “Terra dos Gigantes”, o Bom Gigante Amigo é refém de piadas por causa de seu tamanho e de seu caráter inofensivo. Ainda, o amigo de Sophie é o único vegetariano do lugar e esconde um segredo que o desestimula a manter laços com humanos.

Para deter a maldade dos gigantes e impedi-los de raptar crianças do orfanato, Sophie e seu companheiro pedem ajuda à Rainha da Inglaterra (Penelope Wilton), gerando cenas engraçadas causadas pelo estranhamento ao comportamento sem etiqueta e espontânea da novidade no Palácio Real. Logo, há a brincadeira com o ditado “tamanho não é identidade”, levando o espectador a refletir sobre questões simples, mas, diversas vezes, esquecidas dos contos infantis.

Não há muita inovação no filme, mas vale a pena se divertir observando a linda relação entre dois sujeitos peculiares de diferentes atmosferas. O Bom Gigante Amigo, com suas enormes orelhas, consegue ouvir todo o sussurro secreto do mundo, revelando enorme sensibilidade para todas as coisas, e Sophie ignora as dessemelhanças físicas, enfatizando aspectos subjetivos, dons raros em nossa sociedade que servem de moral da história.

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Jason Bourne (Paul Greengrass, 2016)

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NOTA: 6 / Renato Furtado

Certos filmes são tão divertidos que faz com que o público queira que a trama dure para sempre. O filme não precisa nem ser necessariamente bom, narrativa/artisticamente falando; às vezes, basta que o filme represente uma ótima e divertida noite no cinema e isso já é o bastante. Falar, no entanto, é fácil. A teoria é, normalmente, mais simples e descomplicada que a prática. Entretenimento não é um jogo para qualquer um. Por isso, quando Paul Greengrass e Matt Damon se reuniram para anunciar a produção de um quarto filme do super-soldado Jason Bourne, o nível de esperança atingiu o teto.

Mas a esperança sozinha não faz verão e, em certas ocasiões, nem mesmo um diretor talentoso e um elenco que conta com nomes de peso pode salvar um filme. Esse é o caso de “Jason Bourne”, filme que tenta atingir o nível de entretenimento e de qualidade narrativa que a trilogia original conseguiu atingir, mas que, no fim das contas, não alcança por completo nenhum dos dois objetivos. A sensação final é que sim, é divertido assistir mais um Jason Bourne, mas que era melhor rever os outros filmes (tirando aquele equívoco estrelado pelo Jeremy Renner) ao invés de ver uma nova entrada da franquia.

Vamos por partes. Nove anos depois de ter recuperado sua memória, Bourne agora é encontrado pelo público ganhando a vida nos submundos de várias cidades do mundo através de lutas clandestinas. Tudo muda quando Nicky Parsons (Julia Stiles) ressurge na vida do agente para revelar mais um segredo que coloca Bourne em um caminho de vingança. Paralelamente a isso, a CIA, comandada pelos personagens de Tommy Lee Jones (mais cansado do que nunca) e Alicia Vikander (mais mal aproveitada do que nunca), quer capturar Bourne através da ação de um agente secreto anônimo, interpretado por Vincent Cassel.

Além disso, é óbvio que existe uma trama secundária política. Aqui, um personagem baseado em Mark Zuckerberg (é interpretado pelo talentoso Riz Ahmed, de “Abutre”) precisa colaborar com o governo e a CIA fornecendo os dados privados de seus bilhões de usuários.

Recapitulando a título de análise: em “Jason Bourne” temos o retorno de Paul Greengrass e Matt Damon, um roteiro perfeito para o trabalho de câmera e de montagem característico do cineasta no comando, bom elenco de apoio e uma trama paralela política atual e necessária. E, ainda assim, o mix resulta em uma obra problemática e esquemática, que não inova em nada – algo que não seria um problema se o texto político do filme fosse substancial, fosse mais que uma muleta na qual o filme se apoia para fazer lembrar a trilogia original.

O longa, portanto, apresenta um grande potencial desperdiçado. O roteiro cria boas sequências de ação e Greengrass é um mestre em lidar com todas elas, mas os diálogos e a construção dos personagens (principalmente em relação a motivação de cada um deles) acabam tirando boa parte dos méritos conquistados. Além disso, as personagens femininas, infelizmente, parecem ter sido escritas só para cumprir uma cota: elas são fracas e tomam decisões pouco inteligentes, não condizendo com as posições que ocupam ou que ocuparam (vale tanto para a personagem de Stiles quanto a de Vikander). É triste ver personagens femininas serem construídas com tanto descaso e desleixo.

A falta de substância da trama, como já indicada anteriormente, também é irritante. É claro que a trilogia Bourne pertence muito mais ao gênero da ação do que ao gênero do suspense, portanto é evidente que as sequências velozes e frenéticas são sim mais importantes que a história, que o enredo. No entanto, o problema desta trama é que sua importância narrativa é tão baixa que sequer empolga o espectador: era melhor que “Jason Bourne” tivesse se assumido como um filme puramente de ação, desde o princípio, do que ter feito o que fez, ou seja, ter criado uma história que não é suficientemente “engajante”, ter criado uma história só pelo propósito de possuir uma narrativa.

Outra lástima é ver a falta de tato de Paul Greengrass neste filme. Ele sempre foi um bom diretor de atores (tanto o excelente Vôo United 93 quanto o bom Capitão Philipps provam bem sua grande capacidade para extrair o melhor de seus atores). Aqui, ele fica muito aquém do próprio talento e joga fora por completo o ótimo time que possuía em mãos: o maior problema é realmente Alicia Vikander, completamente perdida durante as duas horas de “Jason Bourne”.

Nas mãos de um diretor menos talentoso, porém, “Jason Bourne” seria um dos fiascos do ano sem a menor sombra de dúvidas. Esta quarta parte da história do personagem de Matt Damon funciona e entretém, mas o seu grande problema pode ser resumido, precisamente, no fato de que o filme tinha tudo para dar certo e, ainda assim, passou longe disso. Às vezes, como diria o filósofo Slavoj Zizek, a coisa mais corajosa a se fazer é não fazer nada. No caso, a coisa mais sábia a se fazer é não fazer mais nenhum filme – ou fazer quando a obra for mais que um mero gerador de dólares.

Dois Caras Legais (Shane Black, 2016)

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NOTA: 8 / Renato Furtado

Certas cidades são cinematográficas quase que por natureza. Seja por causa da concentração de estúdios presentes na região ou seja pela poética dessas cidades, o certo é que há uma componente verdadeiramente cinemática inscrita no coração dessas grandes aglomerações urbanas. Uma delas, porém, extrapola todos os níveis: Los Angeles.

O império hollywoodiano não foi erguido na cidade dos anjos da Califórnia por acaso. Filme após filme, é possível encontrar nos retratos feitos da cidade que Los Angeles possui atributos intangíveis que permite que ela abrigue filmes de todos os gêneros de maneira muito natural. “Dois Caras Legais” – que abre logo com um plano aéreo e aberto de Los Angeles à noite, com suas colinas e ruas iluminadas pelas luzes da cidade -, novo filme do diretor e roteirista Shane Black prova que LA (e a Califórnia como um todo) parece ter sido erguida, principalmente, para dar vida aos filmes policiais.

São vários os famosos detetives que trabalharam nas ruas californianas: Phillip Marlowe (personagem interpretado por Elliot Gould e um dos melhores detetives da literatura criado por um dos maiores autores de todos os tempos, Raymond Chandler) em “O Longo Adeus” de Robert Altman; J.J. Gittes (Jack Nicholson) em “Chinatown” de Roman Polanski; e, mais recentemente, Doc Sportello (Joaquin Phoenix) em “Vício Inerente”, longa mais recente do sempre genial Paul Thomas Anderson. Todos estas célebres figuras podem ser vistas, direta ou indiretamente, nos personagens principais de “Dois Caras Legais”: Holland March (Ryan Gosling) e Jackson Healy (Russel Crowe).

Os dois são os responsáveis por investigar um caso de suicídio de uma famosa atriz pornô de Los Angeles. Conforme eles seguem as pistas e entrevistam suspeitos, os dois percebem que precisarão lutar para sobreviver quando entendem que acabaram se metendo em um caso muito mais confuso e insano do que poderiam imaginar. Além disso, suas personalidades conflitantes (a dinâmica entre Gosling, o falastrão, e Crowe, o ético, é fantástica e as situações (frequentemente hilárias) nas quais acabam envolvidos provam apenas que Shane Black, após o fiasco de Homem de Ferro 3, está de volta à sua zona de conforto.

Roteirista dos filmes da série Máquina Mortífera e também roteirista e diretor de Beijos e Tiros (para o qual “Dois Caras Legais” serve como uma espécie de sequência espiritual, segundo o próprio escritor), Black (ao lado de Anthony Bagarozzi) escreve cenas de comédia e de ação recheadas de violência, ironia, drama e diálogos certeiros que parecem mesmo ter saído dos melhores livros de Raymond Chandler ou de Dashiell Hammett, autores que deram início ao gênero hardboiled (aquele onde os detetives e os criminosos não são mentes geniais, são urbanos, sujos, marginais, mais reais que os personagens dos livros de Agatha Christie ou Arthur Conan Doyle, por exemplo) na literatura policial – e que ajudou a criar o movimento do film noir nas décadas de 40 e 50 nos Estados Unidos.

Mas não é só o roteiro que funciona neste longa: graças ao bom comando do cineasta Shane Black, que extrai o melhor de sua equipe, todos os elementos são construídos de maneiras harmônica, como uma orquestra de sangue, tiroteios e muito humor. Todos os departamentos técnicos (destacam-se, principalmente, a fotografia de Philippe Rousselot e o design de produção de Richard Bidgland) reconstroem com maestria e eficiência a atmosfera ensolarada, suja, complexa e neo-noir da Los Angeles da década de 70 e a montagem de Joel Negron garante que a verdadeira comédia de erros do filme, mais baseada em gags físicas, funcione com perfeição e arranque boas e sonoras gargalhadas.

A boa direção de Black também traz à tona o melhor de seus atores. Se por um lado Russel Crowe demonstra um timing perfeito para dramédias, trazendo a violência e a quietude de alguns dos personagens que marcaram sua carreira, Ryan Gosling parece ter bebido diretamente da fonte de alguns dos maiores atores de comédia de todos os tempos como Charlie Chaplin e Buster Keaton, criando cenas verdadeiramente cômicas utilizando apenas caras, bocas, gestos e um timbre de voz particularmente agudo. Juntos, os dois são tão bons que se uma série de inúmeros filmes retratando a química desta dupla e as situações nos quais eles acabam se metendo não seria exagero.

A grande surpresa, no entanto, é Angourie Rice, a jovem que interpreta a filha de Ryan Gosling. No meio do mundo do entretenimento adulto e dos perigos do submundo de Los Angeles, ela é um peixe fora d’água, mas é inteligente e destemida o suficiente para se manter por perto e, mesmo com sua pouca idade, ajudar tanto o pai quanto Healy, desvendando um caso repleto de nuances e violências que se complica e se aprofunda a cada momento. A jovem é, sem sombra de dúvidas, forte candidata a se tornar uma estrela no futuro.

Entre cadáveres escondidos, pistas que surgem sem sentido aparente, um caso difícil, senhoras praticamente cegas, criminosos psicóticos, detetives insensíveis e muito, mas muito humor e violência, “Dois Caras Legais” é uma das melhores comédias do ano – lado a lado com “Deadpool” e “Ave, César!” – e também um dos melhores filmes policiais dos últimos tempos. Que Shane Black retorne às telonas o mais rápido possível: o cinema fica muito melhor com suas comédias neo-noir.

 

Um Dia Perfeito (Fernando Léon de Aranoa, 2016)

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NOTA: 8 / Nathalia Barbosa

Um Dia Perfeito, longa metragem do diretor espanhol Fernando Léon Aranoa, tenta dar ao espectador a verdadeira sensação de estar na guerra,  desenvolvendo sua narrativa na região dos Balcãs, em 1995.

O conflito proveniente do desmembramento da antiga Iugoslávia  serve como pano de fundo para as ações dos personagens atuantes da Aid Across Borders (Auxílio Além das Fronteiras). Entre eles estão Mambrú, chefe de segurança da base (Benicio Del Toro) e Sophie (Melánie Thierry), nova sanitarista na missão,  que possui forte ímpeto em resolver as situações diversas.

A cena inicial resume todo o filme. Com um contra-plongée partindo de dentro de um poço, há o contraste de um corpo moribundo sendo puxado da escuridão para a luz, presente na área externa. Tal é a representação do final da guerra, rumo ao momento de paz que todos esperam, sendo esta simbolizada pela forte iluminação presente em quase toda a fotografia do longa.

Mambrú e sua equipe, composta, além de Sophie, por B (Tim Robbins) e o intérprete Damir (Feda Stukan) não conseguem retirar o corpo devido à falta de material necessário. Com muita insistência de Sophie que, além de pensar na guerra, tenta prevenir os problemas após esta, o grupo vai em busca de uma corda para a retirada do cadáver e limpeza do poço, já que o abastecimento de água passa a ser um dos principais problemas da região.

Nesse ínterim, conhecem Nikola, uma criança moradora da região. A partir daí, fica óbvia a abordagem do filme: ao contrário de sequências sensacionalistas com alto índice de violência física, vemos estados emocionais confusos devido à subjetividade da guerra e rupturas de famílias, com mortes causadas por conflitos entre diferentes grupos étnicos.

Apesar do caráter dramático em meio ao humor sarcástico de B, talvez insensibilizado pela guerra, temos uma trilha sonora forte que, com vários hits do rock, vai desde o clássico “Pinhead”, do Ramones, até várias músicas de Lou Reed.

A trilha sonora realizada por Arbau Bataller é a única que nos envolve confortavelmente, apesar do “barulho” do rock agitado. De resto, o que temos é uma enorme sensação de desamparo que toma espaço lentamente pelo filme quase sem ação ao contrário de outras produções sobre a guerra. Diferentemente do que pensamos sobre as missões de paz, o filme propõe uma visão diferente por meio de impasses burocráticos, intolerância e mágoas presentes em quem participou da guerra e sofreu com ela. Por isso, algo mínimo, que pode ser considerado como contratempo para a maioria das pessoas, passa a ser a causa principal de um dia perfeito na vida de quem teve seu mundo quase devastado pela rivalidade e pelo conflito.

Caça-Fantasmas (Paul Feig, 2016)

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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Certos filmes sintetizam bem sua época. Às vezes é involuntário, às vezes é o objetivo principal da narrativa do longa. Outros casos dão conta de filmes que resumem bem o contexto no qual são lançados por fatores externos à produção; em outros casos, por fatores internos. Destas categorias, “Caça-Fantasmas” provavelmente não se enquadra no caminho de objetivar sintetizar sua época. Afinal, acima de toda e qualquer coisa, este é um filme bastante divertido.

Erin Gilbert (Kristen Wiig) é uma cientista que deseja se tornar professora da prestigiada Universidade de Columbia, em Nova Iorque. No entanto, um livro que ela lançou em seu passado sobre fantasmas e sobre aparições sobrenaturais – um assunto que não é nem de perto levado a sério no departamento de física da faculdade – acaba atrapalhando suas chances na universidade. Por isso, Erin decide tirar satisfações com sua antiga colega de trabalho e co-autora do livro, Abby Yates (Melissa McCarthy). Visitando o laboratório de Yates, Erin conhece Jillian Holtzmann (Kate McKinnon). A partir daí, uma série de eventos sobrenaturais aproxima as três mulheres e também Patty Tolan (Leslie Jones). Pronto, está formado o time.

Mas, apesar do óbvio panorama científico que envolve não só a trama como as personagens, a similaridade deste “Caça-Fantasmas” com o filme original se encerra nas aparições sobrenaturais. Isto porque o novo longa traz comédia (cortesia das quatro afinadas protagonistas, da boa direção de comédia de Paul Feig e da participação mais do que hilária de Chris Hemsworth, o secretário das caçadoras de fantasma), novos  momentos de suspense e genuínas sequências de ação. De fato, este é o ponto principal: uma nova equipe requer um novo filme. Existe muita nostalgia, mas não é preciso ter visto o filme original para ver este filme. Portanto, o grande e verdadeiro mérito de “Caça-Fantasmas” é não ser um remake do filme de 1984, mas sim ser uma espécie de reboot ainda mais do que repaginado.

A estrutura do longa é sintomática dos novos tempos: trinta e dois anos depois, o jogo do cinema já é outro. Se em 1984 os blockbusters estavam apenas engatinhando, hoje eles formam a maior parte dos filmes que atingem o cinema. Por isso, “Caça-Fantasmas” mira no espetáculo: é um típico filme feito para a exibição em 3D.  Consequentemente, o contexto em que o longa foi feito muda completamente a composição do mesmo. Se a norma atual é o espetáculo, é isso que Paul Feig e Katie Dipold (a corroteirista) tentam atingir.

Há também o lado externo que auxilia a compor o fato de que “Caça-Fantasmas” sintetiza bem sua época de produção e de lançamento. Hoje, a equipe que caça fantasmas é composta integralmente por mulheres, algo que gerou bastante raiva e ódio no movimento conservador presente nas redes sociais, na indústria cinematográfica e na sociedade em geral – prepóstero movimento que chegou, inclusive, a organizar um verdadeiro boicote machista ao filme só porque as protagonistas são mulheres. Essa relação formada entre a diegese (o “mundo” do filme) e parte da audiência é um verdadeiro sinal dos tempos: ao mesmo tempo em que as mulheres cada vez mais conseguem conquistar seus espaços, é triste e deplorável ainda ter que encontrar críticas estapafúrdias do tipo “o filme é ruim porque é protagonizado por mulheres” em pleno 2016.

Filmado pelas sempre belas luzes e lentes de Robert Yeoman (fotógrafo de Wes Anderson) e contando com um design de produção mais do que competente assinado por Jefferson Sage, “Caça-Fantasmas” não é só mais um filme divertido; é também um filme necessário para os tempos atuais porque fortalece ainda mais o papel da mulher na indústria cinematográfica e, por tabela, na sociedade em geral – para ser melhor ainda nesse quesito, só se houvesse uma diretora no comando da produção. No fim das contas, as únicas falhas de “Caça-Fantasmas” são piadas que não funcionam; em certos momentos, a comédia do longa falha irremediavelmente. Entretanto, quando as quatro atrizes estão juntas, não tem para ninguém: nem para os fantasmas e muito menos para os “haters”.

 

Julieta (Pedro Almodóvar, 2016)

jul

NOTA: 7 / Renato Furtado

É possível dizer que quase todo cinéfilo já imaginou, pelo menos uma vez na vida, qual seria o resultado de um determinado filme se ele não tivesse sido dirigido pelo seu diretor e sim por algum outro diretor. Esse jogo de imaginação se dá por inúmeros motivos, talvez por insatisfação individual de um membro da audiência com o resultado final do filme ou talvez por curiosidade – Como a estética de um cineasta diferente se encaixaria no tal enredo? Como a trama seria modificada com a ação de um outro cineasta no comando? Outro motivo razoável para realizar esse jogo é em relação à crítica.

“Julieta”, por exemplo, novo filme de Pedro Almodóvar, não é um filme ruim. Longe disso; afinal, o longa tem bons momentos, pontos altos em uma trama de suspense quase hitchcokiano que definitivamente prende a atenção do espectador e uma narrativa que consegue manter sua lógica interna e um bom ritmo ao cortar e cruzar as cenas escritas pelo próprio Almodóvar, em um roteiro intricado que cobre três épocas diferentes na vida de Julieta. No entanto, exatamente pelo fato de ser um filme de Almodóvar – como o próprio nos faz questão de lembrar, impondo sua assinatura tanto no início quanto no fim da projeção -, “Julieta” parece ficar aquém do que poderia ser.

Nas mãos de um diretor menos experiente, o filme poderia ser considerado realmente. Nas mãos de um diretor pouco talentoso, o filme poderia ser considerado um grande êxito. Nas mãos de Almodóvar, o filme é apenas bom, um bom suficiente para ficar um pouco acima do que é a média. Ao narrar os três momentos da vida de Julieta (vivida na juventude por Adriana Ugarte e, mais tarde, por Emma Suárez) e a deterioração da psique da personagem, Almodóvar cria uma atmosfera interessante e até mesmo chega a brincar com as estéticas utilizadas nas fases anteriores de sua carreira (por exemplo, seu belo uso de cores vivas, principalmente do vermelho, do azul e do amarelo e os estilos de direção de seus filmes situados entre o fim da década de 80 e o início dos anos 2000), mas patina em certos instantes, cometendo erros que não condizem com um cineasta de seu nível.

“Julieta” é muito mais próximo de “Abraços Partidos”, tanto no visual e na estética quanto na qualidade. Os dois filmes são muito mais sóbrios e muito mais “secos” dramaticamente que os melodramas ora divertidos, ora emocionantes e coloridos por tonalidades vibrantes que definiram a carreira do espanhol, atestando toda sua capacidade artística. No entanto, Almodóvar seguiu um estilo parecido ao desses dois filmes em “A Pele que Habito” e este longa é um dos melhores de sua carreira. Portanto, o problema não é a nova fase do cineasta; dentre os problemas, o maior deles parece ser a própria falta de apuro do roteiro, que acaba levando a uma falta de apuro na montagem.

Baseado em três contos da escritora canadense Alice Munro, prêmio Nobel de Literatura, o roteiro parece se esforçar para reunir as três histórias em uma só e, na maior parte do tempo, parece quase se esgoelar para atingir o objetivo. As amarras narrativas são muito frágeis e é comum ouvir diálogos explicativos e expositivos – erros creditados, normalmente, aos amadores ou aos roteiristas de pouco talento – que só precisam existir porque a estrutura geral do roteiro, que é interessante apesar de tudo, não consegue dar conta do recado.

A partir daí, as mesmas falhas narrativas que não conseguem unir as cenas no roteiro também se apresentam na montagem. Certas cenas parecem terminar muito cedo e outras parecem esquecer de acabar; isso prejudica o ritmo do filme – algo que sempre precisa ser do mais alto nível em relação à trama, principalmente considerando as ambições de um suspense que pende mais para o drama pessoal e psicológico do que para ações propriamente ditas.

É evidente que “Julieta” não vive só de equívocos. A atuação de cada intérprete (Emma Suárez é ótima como a Julieta mais velha e a participação, ainda que curta, de Rossy de Palma é muito divertida e traz algumas das melhores cenas do filme) é muito boa e a direção de Almodóvar é, como sempre, de altíssimo nível – para segurar uma trama fraca, é preciso ter um diretor de alta qualidade e Almodóvar cria sequências que, se amparadas por um roteiro mais afiado, tirariam o fôlego da plateia. Além disso, a fotografia do filme é bastante interessante, compondo e contrastando, nos momentos certos, de forma inteligente com as tonalidades sóbrias escolhidas pelo cineasta e por sua equipe de direção de arte.

Portanto, no fim das contas, parece que o grande problema de “Julieta” é que o Almodóvar roteirista sabotou o Almodóvar diretor. Algumas cenas, diálogos e personagens soam um pouco “crus” demais – como um prato que não cozinhou por completo – e o resultado geral da trama não lembra os grandes sucessos do espanhol. Se “Julieta” tivesse sido dirigido por outro diretor, talvez a avaliação fosse diferente, talvez não; o certo é que o filme “Julieta”, dirigido por Pedro Almodóvar, não demonstra um nível tão bom quanto poderia demonstrar.

Florence – Quem é Essa Mulher? (Stephen Frears, 2016)

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NOTA: 8 / Nathalia Barbosa

Florence – Quem é essa mulher?, novo filme de Stephen Frears, baseia-se na história real da cantora que dá nome à obra, especificamente na reviravolta em sua vida na cidade de Nova Iorque, centro dos grandes espetáculos mesmo durante grandes guerras, em 1944.

O drama, que, brevemente, aparenta ser uma comédia, é sobre a contraditória história da relação entre Florence Foster Jenkins, interpretada por Meryl Streep, e seu marido St. Clair Bayfield (Hugh Grant). No teatro fundado por Florence, o Clube Verdi, a recitaçãoo de Hamlet realizada por Bayfield , logo no início, nos dá uma dica a partir do estilo de Shakespeare: uma tragédia está por vir, expondo comportamentos imorais cometidos por pessoas consideradas nobres.

Florence, herdeira de uma fortuna de seu pai, é uma mulher generosa, excêntrica e que mima todos a sua volta com quantias de dinheiro exorbitantes. Porém, poucos sabem o que acontece no quarto 703, onde, longe do estrelato, enxergamos uma mulher portadora de sífilis desde os dezoito anos e sem cabelo. Ela luta, de todos os modos, para ignorar as tragédias de sua própria vida, acreditando que entre o céu e a terra tudo que ela deseja se realiza segundo o roteiro que imaginou. Entretanto, tudo não passa de ilusões de quem quer mantê-la longe da realidade, objetivo principal de seu marido.

A atriz e cantora quer voltar aos palcos com um grande espetáculo, cantando, almejando apresentar-se no épico Carnegie Hall. A ideia ganha força após Florence se sensibilizar ao ouvir Edna, uma mãe que liga para um programa de rádio pedindo uma música dedicada a seu filho Samuel, desaparecido nas linhas de combate da guerra. Nessa jornada de ensaios e preparativos, para quem gosta de um personagem xodó, peculiar de uma forma comedida estilo Zero Moustafa, de O Grande Hotel Budapeste (2014), impressionar-se-á com Simon Helberg interpretando o pianista Cosmé McMoon, que a acompanha, independentemente da afinação duvidosa, em suas apresentações. Florence o encontra quando faz um teste buscando um músico que toque com o coração. McMoon loga conquista a moça ao tocar Saint-Saens e, posteriormente, Chopin.

Com tantas controvérsias a respeito de sua vida com excentricidade tentando superar os traumas e sua doença, rir de Florence ali na tela é como repetir, inconscientemente, o comportamento daquelas pessoas que não conseguiram compreender que a boa música é aquela tocada com amor e paixão, sentimentos enfatizados pela cantora estadunidense. Mesmo com a fotografia de saturação mediana e tons pastel, recorrendo a várias referências da década de 40/50, os recursos utilizados por Danny Cohen, apesar da imagem diferenciada, não nos afastam dos erros daqueles que não entenderam os atos generosos de quem colocava as boas intenções e sonhos acima de qualquer estética ou qualidade técnica, mesmo que soubesse tardiamente de seus erros. O filme, apesar de não ter grandes sacadas narrativas, é ótimo para pensarmos o que está por trás das ideias de nobreza, ridicularidade e padrões mesquinhos que nos afastam da ousadia apoiada na criatividade.

 

Era do Gelo: O Big Bang (Mike Thurmeier, 2016)


NOTA: 4 / Por Caio César 

Já era passada uma hora de projeção e eu lembro de me perguntar novamente: “você tem certeza de que este não é o quinto filme?”. Ouvi mais algumas pessoas presentes na sessão de especial para jornalistas fazendo a mesma pergunta. Sem sinal de internet, muitos acreditavam estar assistindo ao quarto do filme da saga dos animais. Era mesmo o quinto – mas este questionamento em si tem muito a dizer sobre o novo longa.

Big Bang começa com uma viagem do esquilo Scrat ao espaço, procurando sua noz. Ele bagunça tudo e acaba colocando um asteroide em rota de colisão para a Terra. Deste lado daqui, Manny, Sid e Diego estão vivendo em busca de relacionamentos com suas famílias (embora Sid ainda esteja na pista). Tudo é ameaçado quando o grupo entende o tamanho da encrenca em que está metido.

Investindo mais uma vez em uma história que coloca todo o bando em perigo e os força a migrar de um lado para o outro,  o filme soa batido e repetitivo. De nada adianta, também, povoar o roteiro com uma quantidade descomunal de personagens que ficam perdidos na própria linha temporal da saga, embora alguns sejam interessantes, como a doninha Buck.

E se o roteiro continua insistindo na comédia, são poucas as piadas que realmente funcionam. Da mesma forma, as constantes intervenções na história principal para apresentar mini esquetes do esquilo Scrat no espaço, um recurso com grande potencial, mas que se esvazia pela repetição e começa a perturbar o espectador.

De excelente mesmo, só a qualidade da animação – com um vigor e apuro estético que segue o desenvolvimento das tecnologias de produção, principalmente levando em consideração que o primeiro filme foi lançado em 2002. A versão dublada traz um afiado elenco elenco de vozes, cujo ponto fraco é a escalação do youtuber Whindersson Nunes pra dublar um personagem que necessitava de algum artista com maior apuro dramático – sem contar que seu sotaque nordestino é contrastante com o de sua família é inexplicável dentro da lógica do filme.

Com mais erros que acertos e mais fatores contra sua produção que a favor de sua realização, este novo capítulo da série deve arrecadar milhões de dólares ao redor do mundo – mas até como puro entretenimento, é falho. 

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