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NOTA: 8 / Nathalia Barbosa

Florence – Quem é essa mulher?, novo filme de Stephen Frears, baseia-se na história real da cantora que dá nome à obra, especificamente na reviravolta em sua vida na cidade de Nova Iorque, centro dos grandes espetáculos mesmo durante grandes guerras, em 1944.

O drama, que, brevemente, aparenta ser uma comédia, é sobre a contraditória história da relação entre Florence Foster Jenkins, interpretada por Meryl Streep, e seu marido St. Clair Bayfield (Hugh Grant). No teatro fundado por Florence, o Clube Verdi, a recitaçãoo de Hamlet realizada por Bayfield , logo no início, nos dá uma dica a partir do estilo de Shakespeare: uma tragédia está por vir, expondo comportamentos imorais cometidos por pessoas consideradas nobres.

Florence, herdeira de uma fortuna de seu pai, é uma mulher generosa, excêntrica e que mima todos a sua volta com quantias de dinheiro exorbitantes. Porém, poucos sabem o que acontece no quarto 703, onde, longe do estrelato, enxergamos uma mulher portadora de sífilis desde os dezoito anos e sem cabelo. Ela luta, de todos os modos, para ignorar as tragédias de sua própria vida, acreditando que entre o céu e a terra tudo que ela deseja se realiza segundo o roteiro que imaginou. Entretanto, tudo não passa de ilusões de quem quer mantê-la longe da realidade, objetivo principal de seu marido.

A atriz e cantora quer voltar aos palcos com um grande espetáculo, cantando, almejando apresentar-se no épico Carnegie Hall. A ideia ganha força após Florence se sensibilizar ao ouvir Edna, uma mãe que liga para um programa de rádio pedindo uma música dedicada a seu filho Samuel, desaparecido nas linhas de combate da guerra. Nessa jornada de ensaios e preparativos, para quem gosta de um personagem xodó, peculiar de uma forma comedida estilo Zero Moustafa, de O Grande Hotel Budapeste (2014), impressionar-se-á com Simon Helberg interpretando o pianista Cosmé McMoon, que a acompanha, independentemente da afinação duvidosa, em suas apresentações. Florence o encontra quando faz um teste buscando um músico que toque com o coração. McMoon loga conquista a moça ao tocar Saint-Saens e, posteriormente, Chopin.

Com tantas controvérsias a respeito de sua vida com excentricidade tentando superar os traumas e sua doença, rir de Florence ali na tela é como repetir, inconscientemente, o comportamento daquelas pessoas que não conseguiram compreender que a boa música é aquela tocada com amor e paixão, sentimentos enfatizados pela cantora estadunidense. Mesmo com a fotografia de saturação mediana e tons pastel, recorrendo a várias referências da década de 40/50, os recursos utilizados por Danny Cohen, apesar da imagem diferenciada, não nos afastam dos erros daqueles que não entenderam os atos generosos de quem colocava as boas intenções e sonhos acima de qualquer estética ou qualidade técnica, mesmo que soubesse tardiamente de seus erros. O filme, apesar de não ter grandes sacadas narrativas, é ótimo para pensarmos o que está por trás das ideias de nobreza, ridicularidade e padrões mesquinhos que nos afastam da ousadia apoiada na criatividade.

 

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