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NOTA: 7 / Renato Furtado

É possível dizer que quase todo cinéfilo já imaginou, pelo menos uma vez na vida, qual seria o resultado de um determinado filme se ele não tivesse sido dirigido pelo seu diretor e sim por algum outro diretor. Esse jogo de imaginação se dá por inúmeros motivos, talvez por insatisfação individual de um membro da audiência com o resultado final do filme ou talvez por curiosidade – Como a estética de um cineasta diferente se encaixaria no tal enredo? Como a trama seria modificada com a ação de um outro cineasta no comando? Outro motivo razoável para realizar esse jogo é em relação à crítica.

“Julieta”, por exemplo, novo filme de Pedro Almodóvar, não é um filme ruim. Longe disso; afinal, o longa tem bons momentos, pontos altos em uma trama de suspense quase hitchcokiano que definitivamente prende a atenção do espectador e uma narrativa que consegue manter sua lógica interna e um bom ritmo ao cortar e cruzar as cenas escritas pelo próprio Almodóvar, em um roteiro intricado que cobre três épocas diferentes na vida de Julieta. No entanto, exatamente pelo fato de ser um filme de Almodóvar – como o próprio nos faz questão de lembrar, impondo sua assinatura tanto no início quanto no fim da projeção -, “Julieta” parece ficar aquém do que poderia ser.

Nas mãos de um diretor menos experiente, o filme poderia ser considerado realmente. Nas mãos de um diretor pouco talentoso, o filme poderia ser considerado um grande êxito. Nas mãos de Almodóvar, o filme é apenas bom, um bom suficiente para ficar um pouco acima do que é a média. Ao narrar os três momentos da vida de Julieta (vivida na juventude por Adriana Ugarte e, mais tarde, por Emma Suárez) e a deterioração da psique da personagem, Almodóvar cria uma atmosfera interessante e até mesmo chega a brincar com as estéticas utilizadas nas fases anteriores de sua carreira (por exemplo, seu belo uso de cores vivas, principalmente do vermelho, do azul e do amarelo e os estilos de direção de seus filmes situados entre o fim da década de 80 e o início dos anos 2000), mas patina em certos instantes, cometendo erros que não condizem com um cineasta de seu nível.

“Julieta” é muito mais próximo de “Abraços Partidos”, tanto no visual e na estética quanto na qualidade. Os dois filmes são muito mais sóbrios e muito mais “secos” dramaticamente que os melodramas ora divertidos, ora emocionantes e coloridos por tonalidades vibrantes que definiram a carreira do espanhol, atestando toda sua capacidade artística. No entanto, Almodóvar seguiu um estilo parecido ao desses dois filmes em “A Pele que Habito” e este longa é um dos melhores de sua carreira. Portanto, o problema não é a nova fase do cineasta; dentre os problemas, o maior deles parece ser a própria falta de apuro do roteiro, que acaba levando a uma falta de apuro na montagem.

Baseado em três contos da escritora canadense Alice Munro, prêmio Nobel de Literatura, o roteiro parece se esforçar para reunir as três histórias em uma só e, na maior parte do tempo, parece quase se esgoelar para atingir o objetivo. As amarras narrativas são muito frágeis e é comum ouvir diálogos explicativos e expositivos – erros creditados, normalmente, aos amadores ou aos roteiristas de pouco talento – que só precisam existir porque a estrutura geral do roteiro, que é interessante apesar de tudo, não consegue dar conta do recado.

A partir daí, as mesmas falhas narrativas que não conseguem unir as cenas no roteiro também se apresentam na montagem. Certas cenas parecem terminar muito cedo e outras parecem esquecer de acabar; isso prejudica o ritmo do filme – algo que sempre precisa ser do mais alto nível em relação à trama, principalmente considerando as ambições de um suspense que pende mais para o drama pessoal e psicológico do que para ações propriamente ditas.

É evidente que “Julieta” não vive só de equívocos. A atuação de cada intérprete (Emma Suárez é ótima como a Julieta mais velha e a participação, ainda que curta, de Rossy de Palma é muito divertida e traz algumas das melhores cenas do filme) é muito boa e a direção de Almodóvar é, como sempre, de altíssimo nível – para segurar uma trama fraca, é preciso ter um diretor de alta qualidade e Almodóvar cria sequências que, se amparadas por um roteiro mais afiado, tirariam o fôlego da plateia. Além disso, a fotografia do filme é bastante interessante, compondo e contrastando, nos momentos certos, de forma inteligente com as tonalidades sóbrias escolhidas pelo cineasta e por sua equipe de direção de arte.

Portanto, no fim das contas, parece que o grande problema de “Julieta” é que o Almodóvar roteirista sabotou o Almodóvar diretor. Algumas cenas, diálogos e personagens soam um pouco “crus” demais – como um prato que não cozinhou por completo – e o resultado geral da trama não lembra os grandes sucessos do espanhol. Se “Julieta” tivesse sido dirigido por outro diretor, talvez a avaliação fosse diferente, talvez não; o certo é que o filme “Julieta”, dirigido por Pedro Almodóvar, não demonstra um nível tão bom quanto poderia demonstrar.

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