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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Certos filmes sintetizam bem sua época. Às vezes é involuntário, às vezes é o objetivo principal da narrativa do longa. Outros casos dão conta de filmes que resumem bem o contexto no qual são lançados por fatores externos à produção; em outros casos, por fatores internos. Destas categorias, “Caça-Fantasmas” provavelmente não se enquadra no caminho de objetivar sintetizar sua época. Afinal, acima de toda e qualquer coisa, este é um filme bastante divertido.

Erin Gilbert (Kristen Wiig) é uma cientista que deseja se tornar professora da prestigiada Universidade de Columbia, em Nova Iorque. No entanto, um livro que ela lançou em seu passado sobre fantasmas e sobre aparições sobrenaturais – um assunto que não é nem de perto levado a sério no departamento de física da faculdade – acaba atrapalhando suas chances na universidade. Por isso, Erin decide tirar satisfações com sua antiga colega de trabalho e co-autora do livro, Abby Yates (Melissa McCarthy). Visitando o laboratório de Yates, Erin conhece Jillian Holtzmann (Kate McKinnon). A partir daí, uma série de eventos sobrenaturais aproxima as três mulheres e também Patty Tolan (Leslie Jones). Pronto, está formado o time.

Mas, apesar do óbvio panorama científico que envolve não só a trama como as personagens, a similaridade deste “Caça-Fantasmas” com o filme original se encerra nas aparições sobrenaturais. Isto porque o novo longa traz comédia (cortesia das quatro afinadas protagonistas, da boa direção de comédia de Paul Feig e da participação mais do que hilária de Chris Hemsworth, o secretário das caçadoras de fantasma), novos  momentos de suspense e genuínas sequências de ação. De fato, este é o ponto principal: uma nova equipe requer um novo filme. Existe muita nostalgia, mas não é preciso ter visto o filme original para ver este filme. Portanto, o grande e verdadeiro mérito de “Caça-Fantasmas” é não ser um remake do filme de 1984, mas sim ser uma espécie de reboot ainda mais do que repaginado.

A estrutura do longa é sintomática dos novos tempos: trinta e dois anos depois, o jogo do cinema já é outro. Se em 1984 os blockbusters estavam apenas engatinhando, hoje eles formam a maior parte dos filmes que atingem o cinema. Por isso, “Caça-Fantasmas” mira no espetáculo: é um típico filme feito para a exibição em 3D.  Consequentemente, o contexto em que o longa foi feito muda completamente a composição do mesmo. Se a norma atual é o espetáculo, é isso que Paul Feig e Katie Dipold (a corroteirista) tentam atingir.

Há também o lado externo que auxilia a compor o fato de que “Caça-Fantasmas” sintetiza bem sua época de produção e de lançamento. Hoje, a equipe que caça fantasmas é composta integralmente por mulheres, algo que gerou bastante raiva e ódio no movimento conservador presente nas redes sociais, na indústria cinematográfica e na sociedade em geral – prepóstero movimento que chegou, inclusive, a organizar um verdadeiro boicote machista ao filme só porque as protagonistas são mulheres. Essa relação formada entre a diegese (o “mundo” do filme) e parte da audiência é um verdadeiro sinal dos tempos: ao mesmo tempo em que as mulheres cada vez mais conseguem conquistar seus espaços, é triste e deplorável ainda ter que encontrar críticas estapafúrdias do tipo “o filme é ruim porque é protagonizado por mulheres” em pleno 2016.

Filmado pelas sempre belas luzes e lentes de Robert Yeoman (fotógrafo de Wes Anderson) e contando com um design de produção mais do que competente assinado por Jefferson Sage, “Caça-Fantasmas” não é só mais um filme divertido; é também um filme necessário para os tempos atuais porque fortalece ainda mais o papel da mulher na indústria cinematográfica e, por tabela, na sociedade em geral – para ser melhor ainda nesse quesito, só se houvesse uma diretora no comando da produção. No fim das contas, as únicas falhas de “Caça-Fantasmas” são piadas que não funcionam; em certos momentos, a comédia do longa falha irremediavelmente. Entretanto, quando as quatro atrizes estão juntas, não tem para ninguém: nem para os fantasmas e muito menos para os “haters”.

 

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