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NOTA: 8 / Renato Furtado

Certas cidades são cinematográficas quase que por natureza. Seja por causa da concentração de estúdios presentes na região ou seja pela poética dessas cidades, o certo é que há uma componente verdadeiramente cinemática inscrita no coração dessas grandes aglomerações urbanas. Uma delas, porém, extrapola todos os níveis: Los Angeles.

O império hollywoodiano não foi erguido na cidade dos anjos da Califórnia por acaso. Filme após filme, é possível encontrar nos retratos feitos da cidade que Los Angeles possui atributos intangíveis que permite que ela abrigue filmes de todos os gêneros de maneira muito natural. “Dois Caras Legais” – que abre logo com um plano aéreo e aberto de Los Angeles à noite, com suas colinas e ruas iluminadas pelas luzes da cidade -, novo filme do diretor e roteirista Shane Black prova que LA (e a Califórnia como um todo) parece ter sido erguida, principalmente, para dar vida aos filmes policiais.

São vários os famosos detetives que trabalharam nas ruas californianas: Phillip Marlowe (personagem interpretado por Elliot Gould e um dos melhores detetives da literatura criado por um dos maiores autores de todos os tempos, Raymond Chandler) em “O Longo Adeus” de Robert Altman; J.J. Gittes (Jack Nicholson) em “Chinatown” de Roman Polanski; e, mais recentemente, Doc Sportello (Joaquin Phoenix) em “Vício Inerente”, longa mais recente do sempre genial Paul Thomas Anderson. Todos estas célebres figuras podem ser vistas, direta ou indiretamente, nos personagens principais de “Dois Caras Legais”: Holland March (Ryan Gosling) e Jackson Healy (Russel Crowe).

Os dois são os responsáveis por investigar um caso de suicídio de uma famosa atriz pornô de Los Angeles. Conforme eles seguem as pistas e entrevistam suspeitos, os dois percebem que precisarão lutar para sobreviver quando entendem que acabaram se metendo em um caso muito mais confuso e insano do que poderiam imaginar. Além disso, suas personalidades conflitantes (a dinâmica entre Gosling, o falastrão, e Crowe, o ético, é fantástica e as situações (frequentemente hilárias) nas quais acabam envolvidos provam apenas que Shane Black, após o fiasco de Homem de Ferro 3, está de volta à sua zona de conforto.

Roteirista dos filmes da série Máquina Mortífera e também roteirista e diretor de Beijos e Tiros (para o qual “Dois Caras Legais” serve como uma espécie de sequência espiritual, segundo o próprio escritor), Black (ao lado de Anthony Bagarozzi) escreve cenas de comédia e de ação recheadas de violência, ironia, drama e diálogos certeiros que parecem mesmo ter saído dos melhores livros de Raymond Chandler ou de Dashiell Hammett, autores que deram início ao gênero hardboiled (aquele onde os detetives e os criminosos não são mentes geniais, são urbanos, sujos, marginais, mais reais que os personagens dos livros de Agatha Christie ou Arthur Conan Doyle, por exemplo) na literatura policial – e que ajudou a criar o movimento do film noir nas décadas de 40 e 50 nos Estados Unidos.

Mas não é só o roteiro que funciona neste longa: graças ao bom comando do cineasta Shane Black, que extrai o melhor de sua equipe, todos os elementos são construídos de maneiras harmônica, como uma orquestra de sangue, tiroteios e muito humor. Todos os departamentos técnicos (destacam-se, principalmente, a fotografia de Philippe Rousselot e o design de produção de Richard Bidgland) reconstroem com maestria e eficiência a atmosfera ensolarada, suja, complexa e neo-noir da Los Angeles da década de 70 e a montagem de Joel Negron garante que a verdadeira comédia de erros do filme, mais baseada em gags físicas, funcione com perfeição e arranque boas e sonoras gargalhadas.

A boa direção de Black também traz à tona o melhor de seus atores. Se por um lado Russel Crowe demonstra um timing perfeito para dramédias, trazendo a violência e a quietude de alguns dos personagens que marcaram sua carreira, Ryan Gosling parece ter bebido diretamente da fonte de alguns dos maiores atores de comédia de todos os tempos como Charlie Chaplin e Buster Keaton, criando cenas verdadeiramente cômicas utilizando apenas caras, bocas, gestos e um timbre de voz particularmente agudo. Juntos, os dois são tão bons que se uma série de inúmeros filmes retratando a química desta dupla e as situações nos quais eles acabam se metendo não seria exagero.

A grande surpresa, no entanto, é Angourie Rice, a jovem que interpreta a filha de Ryan Gosling. No meio do mundo do entretenimento adulto e dos perigos do submundo de Los Angeles, ela é um peixe fora d’água, mas é inteligente e destemida o suficiente para se manter por perto e, mesmo com sua pouca idade, ajudar tanto o pai quanto Healy, desvendando um caso repleto de nuances e violências que se complica e se aprofunda a cada momento. A jovem é, sem sombra de dúvidas, forte candidata a se tornar uma estrela no futuro.

Entre cadáveres escondidos, pistas que surgem sem sentido aparente, um caso difícil, senhoras praticamente cegas, criminosos psicóticos, detetives insensíveis e muito, mas muito humor e violência, “Dois Caras Legais” é uma das melhores comédias do ano – lado a lado com “Deadpool” e “Ave, César!” – e também um dos melhores filmes policiais dos últimos tempos. Que Shane Black retorne às telonas o mais rápido possível: o cinema fica muito melhor com suas comédias neo-noir.

 

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