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NOTA: 6 / Renato Furtado

Certos filmes são tão divertidos que faz com que o público queira que a trama dure para sempre. O filme não precisa nem ser necessariamente bom, narrativa/artisticamente falando; às vezes, basta que o filme represente uma ótima e divertida noite no cinema e isso já é o bastante. Falar, no entanto, é fácil. A teoria é, normalmente, mais simples e descomplicada que a prática. Entretenimento não é um jogo para qualquer um. Por isso, quando Paul Greengrass e Matt Damon se reuniram para anunciar a produção de um quarto filme do super-soldado Jason Bourne, o nível de esperança atingiu o teto.

Mas a esperança sozinha não faz verão e, em certas ocasiões, nem mesmo um diretor talentoso e um elenco que conta com nomes de peso pode salvar um filme. Esse é o caso de “Jason Bourne”, filme que tenta atingir o nível de entretenimento e de qualidade narrativa que a trilogia original conseguiu atingir, mas que, no fim das contas, não alcança por completo nenhum dos dois objetivos. A sensação final é que sim, é divertido assistir mais um Jason Bourne, mas que era melhor rever os outros filmes (tirando aquele equívoco estrelado pelo Jeremy Renner) ao invés de ver uma nova entrada da franquia.

Vamos por partes. Nove anos depois de ter recuperado sua memória, Bourne agora é encontrado pelo público ganhando a vida nos submundos de várias cidades do mundo através de lutas clandestinas. Tudo muda quando Nicky Parsons (Julia Stiles) ressurge na vida do agente para revelar mais um segredo que coloca Bourne em um caminho de vingança. Paralelamente a isso, a CIA, comandada pelos personagens de Tommy Lee Jones (mais cansado do que nunca) e Alicia Vikander (mais mal aproveitada do que nunca), quer capturar Bourne através da ação de um agente secreto anônimo, interpretado por Vincent Cassel.

Além disso, é óbvio que existe uma trama secundária política. Aqui, um personagem baseado em Mark Zuckerberg (é interpretado pelo talentoso Riz Ahmed, de “Abutre”) precisa colaborar com o governo e a CIA fornecendo os dados privados de seus bilhões de usuários.

Recapitulando a título de análise: em “Jason Bourne” temos o retorno de Paul Greengrass e Matt Damon, um roteiro perfeito para o trabalho de câmera e de montagem característico do cineasta no comando, bom elenco de apoio e uma trama paralela política atual e necessária. E, ainda assim, o mix resulta em uma obra problemática e esquemática, que não inova em nada – algo que não seria um problema se o texto político do filme fosse substancial, fosse mais que uma muleta na qual o filme se apoia para fazer lembrar a trilogia original.

O longa, portanto, apresenta um grande potencial desperdiçado. O roteiro cria boas sequências de ação e Greengrass é um mestre em lidar com todas elas, mas os diálogos e a construção dos personagens (principalmente em relação a motivação de cada um deles) acabam tirando boa parte dos méritos conquistados. Além disso, as personagens femininas, infelizmente, parecem ter sido escritas só para cumprir uma cota: elas são fracas e tomam decisões pouco inteligentes, não condizendo com as posições que ocupam ou que ocuparam (vale tanto para a personagem de Stiles quanto a de Vikander). É triste ver personagens femininas serem construídas com tanto descaso e desleixo.

A falta de substância da trama, como já indicada anteriormente, também é irritante. É claro que a trilogia Bourne pertence muito mais ao gênero da ação do que ao gênero do suspense, portanto é evidente que as sequências velozes e frenéticas são sim mais importantes que a história, que o enredo. No entanto, o problema desta trama é que sua importância narrativa é tão baixa que sequer empolga o espectador: era melhor que “Jason Bourne” tivesse se assumido como um filme puramente de ação, desde o princípio, do que ter feito o que fez, ou seja, ter criado uma história que não é suficientemente “engajante”, ter criado uma história só pelo propósito de possuir uma narrativa.

Outra lástima é ver a falta de tato de Paul Greengrass neste filme. Ele sempre foi um bom diretor de atores (tanto o excelente Vôo United 93 quanto o bom Capitão Philipps provam bem sua grande capacidade para extrair o melhor de seus atores). Aqui, ele fica muito aquém do próprio talento e joga fora por completo o ótimo time que possuía em mãos: o maior problema é realmente Alicia Vikander, completamente perdida durante as duas horas de “Jason Bourne”.

Nas mãos de um diretor menos talentoso, porém, “Jason Bourne” seria um dos fiascos do ano sem a menor sombra de dúvidas. Esta quarta parte da história do personagem de Matt Damon funciona e entretém, mas o seu grande problema pode ser resumido, precisamente, no fato de que o filme tinha tudo para dar certo e, ainda assim, passou longe disso. Às vezes, como diria o filósofo Slavoj Zizek, a coisa mais corajosa a se fazer é não fazer nada. No caso, a coisa mais sábia a se fazer é não fazer mais nenhum filme – ou fazer quando a obra for mais que um mero gerador de dólares.

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