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Papo reto sobre a Sétima Arte

mês

agosto 2016

Nerve: Um Jogo Sem Regras (Henry Joost e Ariel Schulman, 2016)

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NOTA: 7 / Esperanza Mariano

Baseado no livro de Jeanne Ryan e dirigido pelos criadores de “Catfish” (2010), Henry Joost e Ariel Schulman, “Nerve: Um Jogo Sem Regras” é um filme que faz a audiência questionar todo o seu comportamento na internet de forma realista, crua e provocadora.

“Are you a watcher or a player?”, é assim que somos introduzidos ao universo de Nerve. Em uma realidade basicamente idêntica à nossa, jovens viciados em compartilhar suas vidas na internet e que buscam cada vez mais por formas de exposição e exibicionismo, tornam um jogo bem parecido com verdade ou desafio (sem a parte da verdade) viral na rede. Apesar de não ser legalizado, “Nerve” tem uma audiência absurda e é dividido em dois grupos: os observadores e os jogadores. O primeiro grupo paga uma taxa diária para assistir aos jogadores em tempo real e sugerir desafios, enquanto o segundo grupo aceita os desafios e, caso os complete com sucesso, recebe uma recompensa em dinheiro.

Vee (Emma Roberts) é a típica garota tímida e apagada da escola e sua melhor amiga, Sydney (Emily Meade), é a garota mais popular e famosa jogadora do Nerve. Após um desentendimento com a amiga, Vee decide se tornar uma jogadora também e não demora a se tornar tão viral quanto sua amiga. O primeiro desafio, beijar um estranho, faz com que observadores peçam para que Vee passe a jogar com Ian (Dave Franco) e logo os dois estão completamente imersos naquela realidade, reféns dos observadores e seus desafios perversos e sádicos.

É impossível não deixar de associar Nerve com o recém-lançado Pokémon Go. A ideia é basicamente a mesma, assim como a reação dos jogadores, que saem pela cidade procurando Pokémons sem pudor algum (alguém ainda se lembra do caso em Nova York?). O timing não poderia ser mais perfeito.

Em geral, o filme é um bom thriller para jovens, com ótimas imagens (uma pegada bem parecida com Tron, de 2010), atuações lineares e convincentes e um ótimo ritmo. O maior defeito do filme, no entanto, é o final clichê e imaturo, que não combina com toda a provocação e crítica que o roteiro vinha tentando passar ao longo dos seus 96 minutos.

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Café Society (Woody Allen, 2016)

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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Não são todos os diretores que podem ser chamados de autores. Essa nomenclatura é reservada àqueles cineastas que realizaram ou realizam um impacto no cinema através de uma linguagem autoral (daí o termo “autor”, evidentemente), carregada de aspectos e toques que podem ser chamados de marcas registradas, que estes conseguem instituir em cada um de seus filmes.

Sem sombra de dúvidas, Woody Allen é um dos cineastas que figuram na categoria dos realizadores-autores. Suas comédias românticas e dramáticas, que receberam pitadas de realismo, de surrealismo e de metalinguagem durante sua longa e prolífica carreira, mudaram o panorama do gênero na história do cinema. Depois de toda essa caminhada, basta assistir aos créditos iniciais de um filme de Allen para que o espectador saiba que assistindo a um filme do diretor.

Com “Café Society” não é diferente. Desde o segundo inicial e durante o decorrer da história de Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg), um jovem judeu nova-iorquino que se muda para Los Angeles com o objetivo de tentar a vida na glamourosa indústria de Hollywood – composta pela café society do título, o high society, os círculos sociais dos ricos – , é possível encontrar todos os vocábulos da linguagem cinematográfica de Allen. No entanto, as coisas que salvam o filme do lendário diretor são justamente as coisas que não fazem parte de seu repertório de sempre.

Com um roteiro fraco (que gradualmente afasta o público por causa de um ato final mal resolvido tanto em termos narrativos quanto em termos estruturais), “Café Society” escancara, uma vez mais, um problema já constatado anteriormente: fazer um filme por ano parece ser um desafio que só tem feito mal ao conjunto da obra de Woody Allen.
É claro que seus filmes clássicos são inesquecíveis e essenciais e que nos últimos anos ele entregou obras de alto nível como “Vicky Cristina Barcelona” e “Blue Jasmine” e até mesmo um dos melhores filmes de sua carreira em “Meia-Noite em Paris”, mas o fato é que a norma recente para Allen tem sido lançar filmes medianos cujas tramas parecem ter sido desenvolvidas da noite para o dia só para que o cineasta possa manter sua média de um filme por ano.

Em “Café Society”, temos, novamente, o protagonista (Jesse Eisenberg é um dos atores mais insuportáveis dos últimos tempos) arquetípico de Allen (ou seja, ele mesmo), que acaba sendo ofuscado por personagens coadjuvantes cujas personalidades e cujos arcos narrativos são muito mais interessantes. O que acontece, então, é que Steve Carrel, Kristen Stewart e Corey Stoll – três atores que entendem corretamente o ritmo dos diálogos e da comédia de Allen e que entregam boas performances neste filme – são subaproveitados por causa do desejo incontornável de Allen em se auto-inserir no filme.

Ainda, Allen também faz uso de uma narração (feita por ele mesmo) completamente dispensável e que em nada acrescenta à narrativa de seu longa. O que se torna cada vez mais patente é que as marcas registradas de Allen só tem diminuído o impacto de suas obras; a criatividade de outrora, que está presente em diálogos que lembram os áureos tempos do diretor e que se faz presente em bons momentos do filme que funcionariam se fossem esquetes autônomas entre si, parece estar se apagando.

Mas é evidente que o cineasta não perdeu sua genialidade. Neste filme, seu grande mérito é coordenar as atuações do lendário diretor de fotografia Vittorio Storaro (três vezes ganhador do Oscar) e do designer de produção Santo Loquasto (colaborador frequente de Allen). É a performance conjunta desses dois artistas que salva o filme ao recriar o sedutor, dourado e exuberante microcosmos da Era de Ouro de Hollywood, gerando um mundo do qual o espectador não deseja sair, apesar de todos os pesares. Aliás, “Café Society” é, provavelmente, o filme mais belo visualmente de toda a carreira de Allen. As cores, o trabalho de câmera, os belíssimos planos e a iluminação de Storaro são tão fantásticos que fazem com que este novo longa rivalize com a beleza monocrática de “Manhattan” – fotografado por outro gigante da história do cinema, Gordon Willis.

“Café Society “, filme cujos trabalhos de montagem e de trilha sonora são bastante competentes, é portanto um indicativo claro de que Allen só tem duas saídas: se reinventar ou se reinventar. Sua fantástica carreira merece obras melhores e mais bem desenvolvidas, dignas da filmografia de um gigante como Allen. Como (e se) ele fará isso é um mistério; o que todos esperamos, para o ano que vem, é ver um ótimo filme de Woody Allen por causa, e não apesar, dele e de suas marcas registradas.

Águas Rasas (Jaume Collet Serra, 2016)

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NOTA: 6,5 / Por Nathalia Barbosa

“-Ahhh, mais um filme de tubarão!” pode ser o pensamento predominante antes de assistir ao novo filme de Jaume Collet-Serra e, ao final do longa, descobrimos que ele não está tão errado.
Ao contrário do clássico estadunidense “Tubarão”, que é cheio de significados políticos por meio de uma disputa para retirar os avisos do perigo e manter o turismo na cidade, Águas Rasas faz jus ao seu título e demonstra ser super fraco intelectualmente. É algo para nos entreter em um fim de tarde com sustos – coisa que, aliás, acontece mais do que muito filme de terror por aí.

Nancy, interpretada por Blake Lively, é uma estudante de medicina que acabou de perder sua mãe. Como tradição de família, vai a uma praia paradisíaca e isolada, local que desperta lembranças de sua recente perda. Com a surfista e exploradora, há toda uma erotização – clichê que, infelizmente, não nos surpreende muito – da personagem. Os poucos papéis que aparecem além dela quase não têm importância, apenas fazem brincadeiras triviais com a nova visitante da praia.

Após uma discussão com seu pai, Nancy entra no mar em horário inadequado e, enfim, começa o que resume o filme todo: é atacada por um tubarão e tenta sobreviver. Tirando isso, Águas Rasas mais parece uma publicidade bem elaborada da Sony com recursos de edição que remetem ao celular da empresa, pois há uma interação com a interface do smartphone da turista.

De fato, o filme prende muito a atenção do público. O suspense foi tão bem elaborado e colocado em cena com a câmera mostrando um lindo cenário de uma praia paradisíaca. Mas é só isso. Não tem potencial para ser um novo clássico e as imagens mais bonitas são dos créditos, com fotografia elaborada por Flávio Labiano.

Quando as Luzes se Apagam (David F. Sandberg, 2016)

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NOTA: 7,5 / Por Caio César

A internet dá voz e espaço para muitos produtos de qualidade questionável. Entretanto, de tempos em tempos, alguns deles realmente se destacam pela originalidade de seus conceitos e por uma boa execução. Um exemplo é o curta de terror Lights Out, que após percorrer e ganhar alguns prêmios em festivais de curtas metragens, viralizou na internet. Não demorou muito para que o filmete e seu diretor, David F. Sandberg, fossem descobertos por Hollywood. Bom saber que o padrinho foi ninguém menos que James Wan, o mestre do terror contemporâneo e diretor de Invocação do Mal e sua sequência. Desenvolvido pela Warner, finalmente Quando as Luzes se Apagam estreia com a missão de agradar os fãs do curta original e, potencialmente, iniciar uma nova série de terror. 

A história gira em torno da família de Sophie (Maria Bello, prejudicada pela falta de nuances da personagem), uma mulher atormentada que não esconde que tem uma amiga invisível com quem se relaciona – particularmente mais após a morte de seu segundo marido. Seus filhos começam a se preocupar com a situação, que fica fora do controle quando fomos começam a ver uma espécie de fantasma maligno chamado Diana, um espírito malvado que parece ter medo de luz.

Digo parece porque o filme jamais coloca as cartas na mesa sobre como funciona a estrutura de ameaça do monstro. Tudo fica subentendido até demais em um roteiro que parece temer ser didático demais – e embora seja bem sucedido nestas horas, peca nas explicações finais, que além inverossímeis, não despertam maiores medos.

Com um conceito original, uma ambientação e um trabalho competente do elenco principal, capitaneado por Teresa Palmer, o filme brilha ao investir em soluções práticas para causar os sustos. Também é um ponto positivo a sua duração – embora os enxutos 80 minutos nunca pareçam passar rápidos demais, algumas questões são desenvolvidas de maneira muito rápida, demonstrando um certo afobamento do roteiro.

Ainda que não seja uma pequena obra prima do gênero como Invocação do Mal, o filme é competente e eficiente. Seus deméritos podem ser desconsiderados quando se avalia que o filme é acima da média – ainda mais em um gênero onde ser acima da média já é uma das maiores virtudes.

Ben Hur (2016, Timur Bekmambentov)

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NOTA: 7 / Por Nathalia Barbosa

O cinema parece uma eterna imitação de si mesmo, com remakes dominando, cada vez mais, as salas de exibição. Com Ben-Hur não é diferente. As adaptações do best-seller escrito por Lew Wallace – no total, três  –  poderiam ter sido finalizadas com o sucesso do filme de 1959, dirigido por William Wyler, que bateu recorde ao arrebatar onze Oscar. Porém, o diretor russo Timur Bekmambetov quis ir além: com a tecnologia evoluída do cinema, reconta, em seu novo filme, a história épica entre os irmãos Messala (Toby Kebbel) e Judah Ben-Hur (Jack Juston) com corridas de bigas e todo o gosto por sangue dos romanos em 3D e efeitos especiais mais sofisticados.

Acontece que Bekmambetov e os roteiristas Keith Clarke e John Ridley esqueceram de desenvolver a história com continuidade lógica. O que temos são fusões confusas que parecem ter sido jogadas para solucionar a falta de criatividade – ou necessidade de encurtar o tempo do filme – em fazer um longa bem embasado sobre um conflito histórico e ideológico – no enredo que se passa 33 d.C – sem perder o entusiasmo do público por causa de uma maior complexidade.

Messala, um romano adotado pela família de Judah, busca honra e glória para assumir uma identidade própria, desprendendo-se da linhagem judaica adotiva a fim de conseguir ficar junto de sua irmã de criação, Tirzah (Sofia D’Elia). Com esse propósito, afasta-se de seus parentes e consegue ascensão no exército romano com importantes vitórias, sem deixar de lado seu interesse em reconciliação com as cidades que invade, incluindo Jerusálem. Com contratempos, Messala decide acatar a postura rígida e autoritária que o exército lhe exige, traindo sua família e levando Ben-Hur à pior situação como escravo de Roma por uma causa injusta.

Todos esses impasses alimentam o desejo de vingança de Judah, que encontra apoio no africano rico e interessado na queda dos romanos, Sheik Ildarin, interpretado por Morgan Freeman, que empresta ao filme sua voz de juízo final e sabedoria. Nesse espírito religioso, uma das figuras mais marcantes da nova adaptação é Rodrigo Santoro no papel de Jesus, dando um tom de compaixão e redenção acima da vingança em torno dos irmãos.

O final sintetiza bem a intenção do diretor Timur em experimentar uma nova abordagem com aspectos ressaltados por meio das ações de Jesus, ponto alto do filme. Por outro lado, peca em erros de montagem que tiram a consistência do romance de Wallace e desaponta, extremamente, com um desfecho que coloca todos os acertos de Ben-Hur a perder por causa de um erro bobo ao colocar uma música que não se encaixa com a última cena – e nem com alguma parte da produção – de nenhuma forma. Não superará, nem chegará perto, à maestria da obra de Wyler, mas, saindo do campo de comparações, é bom na dinamicidade em um tempo econômico e pode ser um bom caminho para pensarmos a necessidade – ou falta dela – em repetir adaptações para o cinema.

 

 

Coração de Cachorro (Laurie Anderson, 2016)

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NOTA: 10 / Nathalia Barbosa

O novo filme de Laurie Anderson não é fácil de nenhuma maneira. Não é fácil de assistir, entender ou explicar. Com uma narração super criativa e acolhedora, Anderson, de uma forma inesperada – assim como toda a sua carreira – e espetacular, fala sobre perdas e mortes a partir da história de sua cadelinha, uma Rat terrier, chamada Lolabelle.

O documentário, com uma forte presença do gênero subjetivo, revira lembranças da diretora relacionadas à sua mãe, sua cadela e ao seu marido Lou Reed, a quem dedica sua recente obra. Ironicamente, Reed, que, para nós, é uma figura imortalizada, agora reaparece de uma forma sutil e sem performances chocantes do rock. Com uma perda ainda recente, ocorrida em 2013, Anderson, para organizar suas memórias, monta uma fotografia com repetições de quadros, imagens lentas e distorcidas e gotas caindo pela tela como se realmente houvesse dois lados materializados na sala do cinema: o da vida e o da morte.

A narração aconchegante parece ser algo sobrenatural que sussurra em nossos ouvidos quando morremos, como mostram especulações sobre o óbito. Mas o filme supera qualquer clichê. Não há cenas com Laurie Anderson falando sobre como a morte é ruim ou triste. Toda a narrativa perpassa pelo mundo da filosofia – principalmente o budismo –, citando pensadores como Kierkgaard, Wittgenstein e James Joyce. Um ponto importante, que vai de encontro com a incessante expressão verbal da diretora, é a centralidade da linguagem, como se nada existisse para além do uso da palavra. O mundo é linguagem e estar mudo é, em todos os sentidos, estar morto.

Ainda há espaço para combinar questões de nossa existência – vida, morte, amor, tempo – com os registros cada vez mais incisivos e minuciosos do mundo da informação, ultra vigilante e high-tech após o atentado às Torres Gêmeas, em 2001. Mesmo com assuntos aparentemente diferentes, o longa é totalmente fluído em seu roteiro e tudo se encaixa perfeitamente. Toda a memória delicada e íntima colocada em cena é arrebata pelas brilhantes músicas de Laurie, com direito a interpretação de Reed. Sem dúvida, um dos melhores filmes no cinema em 2016 – ou, até mesmo, o melhor!

#VISÃO2MANOS: Esquadrão Suicida (David Ayer, 2016)

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NOTA: 5,5

A pressa é inimiga da perfeição. Para criar um bom clima cinematográfico, é sempre preciso ter paciência. Não importa o gênero do filme. Não faz diferença se é um drama cult romeno ou se é um filme blockbuster com quinze mil explosões por segundo (evidentemente dirigido pelo Michael Bay, é claro): para fazer um bom filme, com um bom ritmo, é preciso ter paciência. O ritmo, no cinema, vem de muitas áreas diferentes que conversam entre si como a direção, o roteiro e a montagem. Estes três departamentos são os principais quando se fala em ritmo, quando se fala em clima. São estes os três departamentos que controlam a respiração do filme (e, por consequência, a respiração da audiência).

Dentro do resultado final de “Esquadrão Suicida”, dentro desse filme, há um bom filme, vivo e respirando. Por trás da grande bagunça, às vezes, é possível ver um longa-metragem divertido e ágil tentando achar seu caminho. Não sabemos se esta é a versão do diretor David Ayer ou se é a versão que os estúdios da Warner queriam fazer. Nunca saberemos. A única coisa que saberemos é que, por trás de toda a pressa, há um filme muito melhor do que o meio-termo escolhido entre as duas versões (a mais sombria e a mais agradável, direcionada para o público).

Após os eventos de “Batman v Superman”, a alta funcionária do governo, Amanda Waller (Viola Davis em uma ótima interpretação, roubando várias cenas, mais badass e malvada do que nunca, assustando até mesmo a destemida e impiedosa advogada que interpreta em “How To Get Away With Murder”) decide que os Estados Unidos precisam de uma equipe de pessoas com superpoderes para poder se defender. Por isso, ela propõe reunir uma equipe de “vilões que podem fazer algo de bom”, segundo a própria. É aí que entra o Esquadrão.

Os problemas do filme ficam escancarados logo na primeira metade do filme (que é, de longe, a melhor metade do filme). No primeiro ato, vemos coisas que funcionam e coisas que não funcionam misturadas umas às outras sem a menor coerência ou lógica narrativa. A sensação que fica é que existiam pelo menos uns três profissionais comandando cada área dadas as mudanças bruscas de tonalidade de cada departamento. A montagem do sempre competente John Gilroy começa muito bem, lembrando os filmes de Guy Ritchie e de Edgar Wright ao apresentar os personagens com uma edição veloz e divertida e, aos poucos, vai se encaminhando para uma montagem tradicional até se tornar a montagem de um filme de Zack Snyder (há uma cena em slow motion que destoa do filme inteiro).

Isso também se reflete na direção e no roteiro, ambos assinados por David Ayer. O comandante de filmes como “Marcados Para Morrer” e “Corações de Ferro” parece não saber o que quer fazer com seus personagens e com sua trama. Como diretor, ele sabota seu roteiro ao fazer escolhas que pouco condizem com o material e como roteirista, ele sabota sua direção ao escrever diálogos e soluções risíveis. O seu direcionamento muda muito durante a projeção que é difícil saber qual caminho será tomado em seguida; é uma forma de imprevisibilidade, e uma que é muito incômoda, no fim das contas. A dúvida eterna será: o que teria acontecido se Ayer tivesse tempo e autonomia para trabalhar? Nunca saberemos.

Além disso, a trilha sonora do vencedor do Oscar Steven Price não combina nem um pouco com os rocks clássicos escolhidos para compor a narrativa. As duas trilhas, tanto a original quanto a não-original, não conversam e as únicas áreas que parecem ter uma movimentação constante são a fotografia de Roman Vasyanov e o design de produção assinado por Oliver Scholl. É, de fato, surpreendente ver uma equipe técnica tão competente e experiente parecer perdida como uma equipe de iniciantes.

Dos atores, Will Smith como o Pistoleiro e Margot Robbie como a Arlequina realmente roubam o filme. Os dois são, evidentemente, os protagonistas. Além deles, Joel Kinnaman também está muito bem e convence em seu papel do soldado Rick Flagg, o comandante do “circo de aberrações” que é o Esquadrão. O resto do elenco recebe tão pouco tempo de tela que fica difícil dizer que eles comprometem ou melhoram a situação geral da película. A decepção mesmo fica com o Coringa de Jared Leto, que não parece ter entendido o personagem e se limita a fazer uma caricatura dos trabalhos de Heath Ledger e Jack Nicholson, os intérpretes anteriores do personagem.

O fato é que a pressa (que fez com que Ayer fosse obrigado a escrever o roteiro em apenas seis semanas) matou o filme. A primeira metade, que serve como introdução, acaba sendo encurtada para que cheguemos logo à ação do filme e a segunda metade é uma colcha de retalhos que não faz o menor sentido. As motivações dos personagens mudam de uma hora para a outra sem a menor explicação e os vilões do filme extrapolam os limites da credibilidade. O problema não é que eles são fantásticos ou mágicos ou surreais; o problema é que os vilões do filme não fazem o menor sentido, nem no mundo real e nem no mundo do filme.

E, no fim das contas, o bom filme escondido dentro de “Esquadrão Suicida”, que às vezes mostra sua cara durante o ágil e divertido primeiro ato (que merecia uma nota 7), um ato que faz jus à loucura prometida nos trailers e na premissa do Esquadrão, acaba sendo detonado pela pressa e pelo segundo ato, que chega a ser absurdo de tão narrativamente complicado (esta parte merece uma nota 3). A média final é: vamos esperar que a Warner perceba o que está fazendo. O que todos, espectadores e críticos, queremos mesmo é ver ótimos filmes de super-herói. Potencial para isso a DC tem para dar e vender. Ainda dá tempo de consertar para o futuro.

#falaCaio

NOTA: 4

A decepção é um dos piores sentimentos da vida. No cinema não é diferente. Ela pode ser motivada por causa de uma expectativa desmedida criada por um material publicitário muito bem produzido; pela reunião de pessoas muito talentosas em um mesmo projeto; ou ainda pelo imenso potencial do material original, que poderia resultar em um produto infimamente melhor do que aquele que foi para as telas. Some todos estes fatores ao meu desejo real de que os filmes da DC Comics sempre sejam muito bons e você terá o tamanho do meu desapontamento após sair da sessão para jornalistas de Esquadrão Suicida.

Escrito e dirigido por David Ayer, o longa carregava a responsabilidade de reabilitar o universo cinematográfico da DC Comics após o “fracasso” de BvS, tanto na parte comercial, já que o filme arrecadou míseros (quase) 900 MILHÕES DE DÓLARES e falhou tanto em ser o longa que os fãs esperavam quanto em ser um começo decente para a nova empreitada de longas integrados no universo capitaneado pela Warner. O caldo, entretanto, entorna de vez.

Em algum lugar, seja escondido nos escritórios da Warner, ou na casa de Ayer, deve estar uma versão boa do roteiro original – que jamais teremos a possibilidade de ver. Isso porque não existe a menor possibilidade de que o filme tenha sido idealizado desta maneira (ao menos eu não quero acreditar nisso). O fiapo de história é diluída em uma montagem truncada e ininteligível que prejudica o desenvolvimento de seus personagens, a empatia do público com eles e, principalmente, sepulta quaisquer chances do filme ser bem sucedido.

Ao prometer um longa diferenciado e entregar apenas mais do mesmo, o filme diminui sua força dramática. Ao passo que é extremamente decepcionante constatar que, o marketing eficiente que eu tanto louvei nas últimas semanas (pelo fato de ter “entregue muito pouco da trama”), na verdade havia entregue tudo de uma história vazia e prejudicada pelos fracos argumentos que movem seus personagens principais. Destes, destaque negativo para Cara Delevinge, cuja personagem é o supra-sumo dos clichês e é vivida de maneira risível pela péssima atriz.

O resultado prejudica as boas atuações de Will Smith, cujo personagem se destaca dos demais, ao receber maior tempo de tela (muito provavelmente também pelo apelo do ator) e de Margot Robbie, que faz o que pode com sua Harley Quiin, que ao mesmo tempo recebe um tratamento cuidadoso em seu relacionamento abusivo com o Coringa e os resultados disso em sua consciência, mas também é renegada à alívio cômico forçado, sempre interrompendo as ações para lançar frases de efeito formulaicas que nem sempre funcionando – além de um apelo sexual desmedido, sendo filmada sempre com a bunda em evidência e com planos que a pintam como objeto de desejo de todos os homens do filme.

Dos “herois” é El Diablo que surpreende e rouba as cenas nas quais participa, sendo também o personagem pelo qual o público mais se importa – não sendo coincidência, já que é nele que o filme mais investe tempo de qualidade para remontar o seu passado. Viola Davis é sensacional até lendo o dicionário Aurélio, mas brilha especialmente mais em personagens fortes como a sua Amanda Walker, chefona da operação e que, mesmo prejudicada pela insensatez dos planos que o roteiro lhe monta, consegue encher a tela de respeito e força.

Logo após o lançamento do filme, uma matéria do The Hollywood Reporter escancarou que a produção do longa (especialmente depois dos resultados de BvS) foram uma bagunça. E essa bagunça está exposta em tela: o longa padece com falta de ritmo: fontes dão conta de que o editor chefe do filme foi afastado e que mais de cinco profissionais foram convocados às pressas para salvar o filme (resultando na corrida e entediante apresentação dos personagens no primeiro ato); sua fotografia escura demais contrasta com todas as peças publicitárias veiculadas antes do lançamento do filme – e as refilmagens parecem ter servido, especialmente, para encaixar flash backs desnecessários ou piadinhas fora de lugar; e a trilha sonora soa intrusiva (o maior exemplo é a cena de Arlequina no elevador, que mais parece o play de uma playlist aleatória do que servir à alguma coisa na história).

É fácil elencar os defeitos, mas é difícil admitir que o filme em certos momentos diverte o expectador – o que torna ainda mais difícil a tarefa de concluir que o longa é um fracasso. Seja nos aspectos técnicos ou mesmo na utilização de personagens icônicos sem o menor tipo de cerimônia ou necessidade prática (o que o superestimado Coringa de Jared Leto está fazendo nesse filme?), Esquadrão Suicida é uma confusão sem fim. O futuro da DC Comics no cinema é muito incerto…

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