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#falaRenato

NOTA: 5,5

A pressa é inimiga da perfeição. Para criar um bom clima cinematográfico, é sempre preciso ter paciência. Não importa o gênero do filme. Não faz diferença se é um drama cult romeno ou se é um filme blockbuster com quinze mil explosões por segundo (evidentemente dirigido pelo Michael Bay, é claro): para fazer um bom filme, com um bom ritmo, é preciso ter paciência. O ritmo, no cinema, vem de muitas áreas diferentes que conversam entre si como a direção, o roteiro e a montagem. Estes três departamentos são os principais quando se fala em ritmo, quando se fala em clima. São estes os três departamentos que controlam a respiração do filme (e, por consequência, a respiração da audiência).

Dentro do resultado final de “Esquadrão Suicida”, dentro desse filme, há um bom filme, vivo e respirando. Por trás da grande bagunça, às vezes, é possível ver um longa-metragem divertido e ágil tentando achar seu caminho. Não sabemos se esta é a versão do diretor David Ayer ou se é a versão que os estúdios da Warner queriam fazer. Nunca saberemos. A única coisa que saberemos é que, por trás de toda a pressa, há um filme muito melhor do que o meio-termo escolhido entre as duas versões (a mais sombria e a mais agradável, direcionada para o público).

Após os eventos de “Batman v Superman”, a alta funcionária do governo, Amanda Waller (Viola Davis em uma ótima interpretação, roubando várias cenas, mais badass e malvada do que nunca, assustando até mesmo a destemida e impiedosa advogada que interpreta em “How To Get Away With Murder”) decide que os Estados Unidos precisam de uma equipe de pessoas com superpoderes para poder se defender. Por isso, ela propõe reunir uma equipe de “vilões que podem fazer algo de bom”, segundo a própria. É aí que entra o Esquadrão.

Os problemas do filme ficam escancarados logo na primeira metade do filme (que é, de longe, a melhor metade do filme). No primeiro ato, vemos coisas que funcionam e coisas que não funcionam misturadas umas às outras sem a menor coerência ou lógica narrativa. A sensação que fica é que existiam pelo menos uns três profissionais comandando cada área dadas as mudanças bruscas de tonalidade de cada departamento. A montagem do sempre competente John Gilroy começa muito bem, lembrando os filmes de Guy Ritchie e de Edgar Wright ao apresentar os personagens com uma edição veloz e divertida e, aos poucos, vai se encaminhando para uma montagem tradicional até se tornar a montagem de um filme de Zack Snyder (há uma cena em slow motion que destoa do filme inteiro).

Isso também se reflete na direção e no roteiro, ambos assinados por David Ayer. O comandante de filmes como “Marcados Para Morrer” e “Corações de Ferro” parece não saber o que quer fazer com seus personagens e com sua trama. Como diretor, ele sabota seu roteiro ao fazer escolhas que pouco condizem com o material e como roteirista, ele sabota sua direção ao escrever diálogos e soluções risíveis. O seu direcionamento muda muito durante a projeção que é difícil saber qual caminho será tomado em seguida; é uma forma de imprevisibilidade, e uma que é muito incômoda, no fim das contas. A dúvida eterna será: o que teria acontecido se Ayer tivesse tempo e autonomia para trabalhar? Nunca saberemos.

Além disso, a trilha sonora do vencedor do Oscar Steven Price não combina nem um pouco com os rocks clássicos escolhidos para compor a narrativa. As duas trilhas, tanto a original quanto a não-original, não conversam e as únicas áreas que parecem ter uma movimentação constante são a fotografia de Roman Vasyanov e o design de produção assinado por Oliver Scholl. É, de fato, surpreendente ver uma equipe técnica tão competente e experiente parecer perdida como uma equipe de iniciantes.

Dos atores, Will Smith como o Pistoleiro e Margot Robbie como a Arlequina realmente roubam o filme. Os dois são, evidentemente, os protagonistas. Além deles, Joel Kinnaman também está muito bem e convence em seu papel do soldado Rick Flagg, o comandante do “circo de aberrações” que é o Esquadrão. O resto do elenco recebe tão pouco tempo de tela que fica difícil dizer que eles comprometem ou melhoram a situação geral da película. A decepção mesmo fica com o Coringa de Jared Leto, que não parece ter entendido o personagem e se limita a fazer uma caricatura dos trabalhos de Heath Ledger e Jack Nicholson, os intérpretes anteriores do personagem.

O fato é que a pressa (que fez com que Ayer fosse obrigado a escrever o roteiro em apenas seis semanas) matou o filme. A primeira metade, que serve como introdução, acaba sendo encurtada para que cheguemos logo à ação do filme e a segunda metade é uma colcha de retalhos que não faz o menor sentido. As motivações dos personagens mudam de uma hora para a outra sem a menor explicação e os vilões do filme extrapolam os limites da credibilidade. O problema não é que eles são fantásticos ou mágicos ou surreais; o problema é que os vilões do filme não fazem o menor sentido, nem no mundo real e nem no mundo do filme.

E, no fim das contas, o bom filme escondido dentro de “Esquadrão Suicida”, que às vezes mostra sua cara durante o ágil e divertido primeiro ato (que merecia uma nota 7), um ato que faz jus à loucura prometida nos trailers e na premissa do Esquadrão, acaba sendo detonado pela pressa e pelo segundo ato, que chega a ser absurdo de tão narrativamente complicado (esta parte merece uma nota 3). A média final é: vamos esperar que a Warner perceba o que está fazendo. O que todos, espectadores e críticos, queremos mesmo é ver ótimos filmes de super-herói. Potencial para isso a DC tem para dar e vender. Ainda dá tempo de consertar para o futuro.

#falaCaio

NOTA: 4

A decepção é um dos piores sentimentos da vida. No cinema não é diferente. Ela pode ser motivada por causa de uma expectativa desmedida criada por um material publicitário muito bem produzido; pela reunião de pessoas muito talentosas em um mesmo projeto; ou ainda pelo imenso potencial do material original, que poderia resultar em um produto infimamente melhor do que aquele que foi para as telas. Some todos estes fatores ao meu desejo real de que os filmes da DC Comics sempre sejam muito bons e você terá o tamanho do meu desapontamento após sair da sessão para jornalistas de Esquadrão Suicida.

Escrito e dirigido por David Ayer, o longa carregava a responsabilidade de reabilitar o universo cinematográfico da DC Comics após o “fracasso” de BvS, tanto na parte comercial, já que o filme arrecadou míseros (quase) 900 MILHÕES DE DÓLARES e falhou tanto em ser o longa que os fãs esperavam quanto em ser um começo decente para a nova empreitada de longas integrados no universo capitaneado pela Warner. O caldo, entretanto, entorna de vez.

Em algum lugar, seja escondido nos escritórios da Warner, ou na casa de Ayer, deve estar uma versão boa do roteiro original – que jamais teremos a possibilidade de ver. Isso porque não existe a menor possibilidade de que o filme tenha sido idealizado desta maneira (ao menos eu não quero acreditar nisso). O fiapo de história é diluída em uma montagem truncada e ininteligível que prejudica o desenvolvimento de seus personagens, a empatia do público com eles e, principalmente, sepulta quaisquer chances do filme ser bem sucedido.

Ao prometer um longa diferenciado e entregar apenas mais do mesmo, o filme diminui sua força dramática. Ao passo que é extremamente decepcionante constatar que, o marketing eficiente que eu tanto louvei nas últimas semanas (pelo fato de ter “entregue muito pouco da trama”), na verdade havia entregue tudo de uma história vazia e prejudicada pelos fracos argumentos que movem seus personagens principais. Destes, destaque negativo para Cara Delevinge, cuja personagem é o supra-sumo dos clichês e é vivida de maneira risível pela péssima atriz.

O resultado prejudica as boas atuações de Will Smith, cujo personagem se destaca dos demais, ao receber maior tempo de tela (muito provavelmente também pelo apelo do ator) e de Margot Robbie, que faz o que pode com sua Harley Quiin, que ao mesmo tempo recebe um tratamento cuidadoso em seu relacionamento abusivo com o Coringa e os resultados disso em sua consciência, mas também é renegada à alívio cômico forçado, sempre interrompendo as ações para lançar frases de efeito formulaicas que nem sempre funcionando – além de um apelo sexual desmedido, sendo filmada sempre com a bunda em evidência e com planos que a pintam como objeto de desejo de todos os homens do filme.

Dos “herois” é El Diablo que surpreende e rouba as cenas nas quais participa, sendo também o personagem pelo qual o público mais se importa – não sendo coincidência, já que é nele que o filme mais investe tempo de qualidade para remontar o seu passado. Viola Davis é sensacional até lendo o dicionário Aurélio, mas brilha especialmente mais em personagens fortes como a sua Amanda Walker, chefona da operação e que, mesmo prejudicada pela insensatez dos planos que o roteiro lhe monta, consegue encher a tela de respeito e força.

Logo após o lançamento do filme, uma matéria do The Hollywood Reporter escancarou que a produção do longa (especialmente depois dos resultados de BvS) foram uma bagunça. E essa bagunça está exposta em tela: o longa padece com falta de ritmo: fontes dão conta de que o editor chefe do filme foi afastado e que mais de cinco profissionais foram convocados às pressas para salvar o filme (resultando na corrida e entediante apresentação dos personagens no primeiro ato); sua fotografia escura demais contrasta com todas as peças publicitárias veiculadas antes do lançamento do filme – e as refilmagens parecem ter servido, especialmente, para encaixar flash backs desnecessários ou piadinhas fora de lugar; e a trilha sonora soa intrusiva (o maior exemplo é a cena de Arlequina no elevador, que mais parece o play de uma playlist aleatória do que servir à alguma coisa na história).

É fácil elencar os defeitos, mas é difícil admitir que o filme em certos momentos diverte o expectador – o que torna ainda mais difícil a tarefa de concluir que o longa é um fracasso. Seja nos aspectos técnicos ou mesmo na utilização de personagens icônicos sem o menor tipo de cerimônia ou necessidade prática (o que o superestimado Coringa de Jared Leto está fazendo nesse filme?), Esquadrão Suicida é uma confusão sem fim. O futuro da DC Comics no cinema é muito incerto…

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