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NOTA: 10 / Nathalia Barbosa

O novo filme de Laurie Anderson não é fácil de nenhuma maneira. Não é fácil de assistir, entender ou explicar. Com uma narração super criativa e acolhedora, Anderson, de uma forma inesperada – assim como toda a sua carreira – e espetacular, fala sobre perdas e mortes a partir da história de sua cadelinha, uma Rat terrier, chamada Lolabelle.

O documentário, com uma forte presença do gênero subjetivo, revira lembranças da diretora relacionadas à sua mãe, sua cadela e ao seu marido Lou Reed, a quem dedica sua recente obra. Ironicamente, Reed, que, para nós, é uma figura imortalizada, agora reaparece de uma forma sutil e sem performances chocantes do rock. Com uma perda ainda recente, ocorrida em 2013, Anderson, para organizar suas memórias, monta uma fotografia com repetições de quadros, imagens lentas e distorcidas e gotas caindo pela tela como se realmente houvesse dois lados materializados na sala do cinema: o da vida e o da morte.

A narração aconchegante parece ser algo sobrenatural que sussurra em nossos ouvidos quando morremos, como mostram especulações sobre o óbito. Mas o filme supera qualquer clichê. Não há cenas com Laurie Anderson falando sobre como a morte é ruim ou triste. Toda a narrativa perpassa pelo mundo da filosofia – principalmente o budismo –, citando pensadores como Kierkgaard, Wittgenstein e James Joyce. Um ponto importante, que vai de encontro com a incessante expressão verbal da diretora, é a centralidade da linguagem, como se nada existisse para além do uso da palavra. O mundo é linguagem e estar mudo é, em todos os sentidos, estar morto.

Ainda há espaço para combinar questões de nossa existência – vida, morte, amor, tempo – com os registros cada vez mais incisivos e minuciosos do mundo da informação, ultra vigilante e high-tech após o atentado às Torres Gêmeas, em 2001. Mesmo com assuntos aparentemente diferentes, o longa é totalmente fluído em seu roteiro e tudo se encaixa perfeitamente. Toda a memória delicada e íntima colocada em cena é arrebata pelas brilhantes músicas de Laurie, com direito a interpretação de Reed. Sem dúvida, um dos melhores filmes no cinema em 2016 – ou, até mesmo, o melhor!

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