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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

Não são todos os diretores que podem ser chamados de autores. Essa nomenclatura é reservada àqueles cineastas que realizaram ou realizam um impacto no cinema através de uma linguagem autoral (daí o termo “autor”, evidentemente), carregada de aspectos e toques que podem ser chamados de marcas registradas, que estes conseguem instituir em cada um de seus filmes.

Sem sombra de dúvidas, Woody Allen é um dos cineastas que figuram na categoria dos realizadores-autores. Suas comédias românticas e dramáticas, que receberam pitadas de realismo, de surrealismo e de metalinguagem durante sua longa e prolífica carreira, mudaram o panorama do gênero na história do cinema. Depois de toda essa caminhada, basta assistir aos créditos iniciais de um filme de Allen para que o espectador saiba que assistindo a um filme do diretor.

Com “Café Society” não é diferente. Desde o segundo inicial e durante o decorrer da história de Bobby Dorfman (Jesse Eisenberg), um jovem judeu nova-iorquino que se muda para Los Angeles com o objetivo de tentar a vida na glamourosa indústria de Hollywood – composta pela café society do título, o high society, os círculos sociais dos ricos – , é possível encontrar todos os vocábulos da linguagem cinematográfica de Allen. No entanto, as coisas que salvam o filme do lendário diretor são justamente as coisas que não fazem parte de seu repertório de sempre.

Com um roteiro fraco (que gradualmente afasta o público por causa de um ato final mal resolvido tanto em termos narrativos quanto em termos estruturais), “Café Society” escancara, uma vez mais, um problema já constatado anteriormente: fazer um filme por ano parece ser um desafio que só tem feito mal ao conjunto da obra de Woody Allen.
É claro que seus filmes clássicos são inesquecíveis e essenciais e que nos últimos anos ele entregou obras de alto nível como “Vicky Cristina Barcelona” e “Blue Jasmine” e até mesmo um dos melhores filmes de sua carreira em “Meia-Noite em Paris”, mas o fato é que a norma recente para Allen tem sido lançar filmes medianos cujas tramas parecem ter sido desenvolvidas da noite para o dia só para que o cineasta possa manter sua média de um filme por ano.

Em “Café Society”, temos, novamente, o protagonista (Jesse Eisenberg é um dos atores mais insuportáveis dos últimos tempos) arquetípico de Allen (ou seja, ele mesmo), que acaba sendo ofuscado por personagens coadjuvantes cujas personalidades e cujos arcos narrativos são muito mais interessantes. O que acontece, então, é que Steve Carrel, Kristen Stewart e Corey Stoll – três atores que entendem corretamente o ritmo dos diálogos e da comédia de Allen e que entregam boas performances neste filme – são subaproveitados por causa do desejo incontornável de Allen em se auto-inserir no filme.

Ainda, Allen também faz uso de uma narração (feita por ele mesmo) completamente dispensável e que em nada acrescenta à narrativa de seu longa. O que se torna cada vez mais patente é que as marcas registradas de Allen só tem diminuído o impacto de suas obras; a criatividade de outrora, que está presente em diálogos que lembram os áureos tempos do diretor e que se faz presente em bons momentos do filme que funcionariam se fossem esquetes autônomas entre si, parece estar se apagando.

Mas é evidente que o cineasta não perdeu sua genialidade. Neste filme, seu grande mérito é coordenar as atuações do lendário diretor de fotografia Vittorio Storaro (três vezes ganhador do Oscar) e do designer de produção Santo Loquasto (colaborador frequente de Allen). É a performance conjunta desses dois artistas que salva o filme ao recriar o sedutor, dourado e exuberante microcosmos da Era de Ouro de Hollywood, gerando um mundo do qual o espectador não deseja sair, apesar de todos os pesares. Aliás, “Café Society” é, provavelmente, o filme mais belo visualmente de toda a carreira de Allen. As cores, o trabalho de câmera, os belíssimos planos e a iluminação de Storaro são tão fantásticos que fazem com que este novo longa rivalize com a beleza monocrática de “Manhattan” – fotografado por outro gigante da história do cinema, Gordon Willis.

“Café Society “, filme cujos trabalhos de montagem e de trilha sonora são bastante competentes, é portanto um indicativo claro de que Allen só tem duas saídas: se reinventar ou se reinventar. Sua fantástica carreira merece obras melhores e mais bem desenvolvidas, dignas da filmografia de um gigante como Allen. Como (e se) ele fará isso é um mistério; o que todos esperamos, para o ano que vem, é ver um ótimo filme de Woody Allen por causa, e não apesar, dele e de suas marcas registradas.

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