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Cinema2Manos

Papo reto sobre a Sétima Arte

mês

setembro 2016

Demônio de Neon (Nicolas Winding Refn, 2016)

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NOTA: 5,5 / Renato Furtado

Se há uma coisa realmente triste durante a projeção de um filme, é ver o longa perder completamente o seu rumo, degringolar, sair de seu caminho de uma vez por todas. É pior ainda quando a trama, ainda que previsível, é interessante – parecendo ser capaz de render bons frutos, inclusive – e quando o diretor é o responsável principal pelo fiasco. Esse, infelizmente, é o caso do trabalho de Nicolas Winding Refn (ou NWR, como se auto-intitula) em “Demônio de Neon”.

Jesse (Elle Fanning) é uma jovem e belíssima órfã que chega à cidade de Los Angeles buscando se tornar uma modelo. Logo, sua beleza chama a atenção das agências e dos empresários e ela começa a subir na carreira rapidamente, despertando inveja e ódio por onde passa. A trama tem outros pontos que não são desenvolvidos e as coisas caminham, mal ou bem, neste caminho até que tudo começa a dar errado de fato.

Criar um bom filme a partir de um fiapo de narrativa não é tarefa estranha a NWR (seu nome é muito longo, melhor usar logo a abreviação). Afinal, “Drive” é, sem sombra de dúvidas, sua obra-prima, um filme cuja trama solta pedia uma narrativa conceitual e estilizada. Então, era de se acreditar que com uma trama mais encorpada e ambientada no mundo da moda, que NWR poderia entregar um filme bom narrativa e esteticamente – o que não acontece.

Priorizando muito mais o visual, NWR gera um produto plasticamente belo. Suas escolhas de planos e a ótima direção de fotografia de Natasha Braier fazem com que a questão visual de “Demônio de Neon” seja mais do que bem resolvida. É nítido que o diretor sabe bem o que faz e que entende a cinegrafia (a escrita em imagens cinematográficas) como poucos outros artistas hoje em dia. O problema, contudo, é que ele se convenceu de que é o melhor diretor vivo.

Essa inabalável certeza faz com que NWR não veja seus próprios exageros e insista, consequentemente, na auto-indulgência de sua obra. Daí, resulta que o filme – que não é episódico – pareça apenas uma costura mal-feita de pedaços fílmicos autônomos entre si dada a montagem quase amadora que NWR escolhe imprimir em seu longa; ainda, a obra, no fim, é apenas um arremedo de uma trama, tendo seu significado todo esvaziado por uma direção quase publicitária.

O que não é algo prejudicial dependendo de como essa estética é empregada. David Fincher, por exemplo, é dos geniais diretores contemporâneos que começou na área publicitária e que trouxe essa estética para seus filmes com muito sucesso. Portanto, o problema mesmo, neste caso, é todo de NWR, que não sabe o que fazer com seu roteiro. É o clássico caso do diretor que estraga o seu trabalho como roteirista.

É assim que, por exemplo, Keanu Reeves, que entrega um papel muito sólido e divertido em toda sua canastrice característica, se torne uma oportunidade completamente perdida dentro da trama e que todo o pano de fundo de suspense, violência e terror nunca se concretize em algo além de um show de bizarrices infundadas e inócuas que, possivelmente, não encontrará similaridades no cinema mundial recente. É tudo feito para chocar – e a sorte do diretor é que, ocasionalmente, a intenção original não é atingida, mas o público acaba se divertindo.

É provável que não existam meios termos quanto a este novo filme de NWR: é o tipo de obra ame ou odeie – é difícil ficar indiferente ao compêndio de loucuras, de excentricidades e de egocentrismos que forma este filme. E, no fim das contas, “Demônio de Neon” acaba parecendo mesmo um longo comercial de uma marca de óculos ou de um perfume qualquer. Nicolas Winding Refn (o fato do design de sua sigla, NWR, que acompanha os créditos iniciais como uma marca d’água, se assemelhar a uma grife não é mera coincidência) não fez cinema; fez publicidade – de si mesmo.

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Bruxa de Blair (Adam Wingard, 2016)

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NOTA: 3 / Por Caio César

Existem dois tipos de sequências: aquelas que os fãs aceitam porque querem ver mais do universo montado no filme original; e aquelas que NINGUÉM PEDIU para acontecerem. Este novo Bruxa de Blair, além de se encaixar neste segundo módulo, é ainda mais problemático porque o filme original é um clássico que, amado por seus fãs, foi precursor de um gênero chamado found-footage, aquelas gravações que foram “encontradas” POR UM DIRETOR DE CINEMA QUE CHAMOU O MONTADOR E TAL E VENDERAM PARA UMA DISTRIBUIDORA QUE DECIDIU LANÇAR UM LONGA MÓRBIDO DE PESSOAS MORRENDO  e montadas como um filme.

É exatamente em tentar reinventar o gênero que o filme peca: não consegue ser original o suficiente para inovar, tampouco faz o arroz com feijão da maneira correta: resulta em um filme insosso que nunca engrena e que apenas consegue resultados minimamente positivos em sua estratégia de tensão quando está livre das afetações e da auto-referência.

O fiapo de história do filme acompanha um grupo de amigos que, motivados por ajudar o irmão da vítima do filme original à encontrar pistas sobre o sumiço da garota. Eles armam uma estratégia para documentar tudo, o que inclui, convenientemente, câmeras auriculares para cada um e até mesmo um drone (!!!!). Obviamente as coisas começam a dar muito errado na floresta, por situações nem sempre muito plausíveis ou explicáveis dentro da “mitologia” criada para aquele universo.

Do elenco irregular, apenas a protagonista feminina, Callie Hernandez, parece ter um pouco mais de talento para o gênero – enquanto todos os outros apresentam tipos aborrecidos e sem nenhum carisma (algo terrível para um filme de horror, já que fazer com que o público se importe pelos herois sofredores é parte crucial para o sucesso do longa).

À medida que o filme cresce a carga de tensão, as coisas parecem começar a melhorar. Mas não dura muito até que soluções bizarras e entediantes (como a mulher que por pouco não é assassinada por um drone possuído pelo cramulhão) catapultem o espectador para muito longe do filme.

Com um desfecho abrupto e sem graça, Bruxa de Blair só diverte minimamente pelo absurdo de suas premissas. Não há terror, apenas sustos sem erro causados pela mistura de som alto e cortes secos e, convenhamos, isto não é atmosfera de terror, é matemática.  Um longa vazio,  esquecível, sem propósito e sem alma: se isso não é obra do mal, não sei o que possa ser.

Sete Homens e Um Destino (Antoine Fuqua, 2016)

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NOTA: 7 / Por Caio César

Baseado em um clássico americano – que por sua vez é a versão de um filme japônes, chega aos cinemas a nova versão de Sete Homens e Um Destino, dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento) e com um elenco multinacional de peso, encabeçado por Denzel Washington.

De cara, chama a atenção a ambientação sóbria e clássica da história. Muito bem auxiliado pela derradeira trilha composta por James Horner, falecido logo após finalizar as canções compostas para o longa. Por outro lado, este clima mais contido faz com que certas intervenções estílicas do diretor saltem aos olhos, por destoar completamente do apresentado até então – principalmente com o uso de slow motion e acrobacias absurdas de seus personagens (ambas utilizadas duas vezes cada, no terço final da projeção).

O roteiro acompanha o personagem principal, Chisolm, um oficial que trabalha como caçador de recompensas e à quem uma jovem recorre depois que seu marido é assassinado por um explorador de terras alheias. É de Denzel a maior responsabilidade dramática no filme e ele é extremamente competente (como o baita ator que é) em fazer com que suas motivações sejam sempre conhecidas do expectador – facilitando assim nossa identificação com um personagem que, no fim, mata por dinheiro.

O elenco é homogêneo e o principal destaque é Chris Pratt, mais uma vez em um tipo engraçadinho, com todo o carisma necessário para compor seu personagem, o interesseiro e beberrão Josh. Ethan Hawke, um pouco sabotado pelo roteiro, também está bom como de costume. O destaque negativo é Peter Sarsgaard, com seu vilão Bartholomew Bogue. Sempre um tom acima de seus colegas, ele nunca consegue imprimir a urgência necessária ao seu personagem, um ambicioso usurpador de terras. O ator atrapalha, mas o roteiro tampouco o ajuda, já que parece ter pouco tempo para desenvolver sua personalidade para além da vilania.

Embora demore muito tempo para engrenar na ação, o roteiro reserva bons momentos para os seus personagens em diálogos intimistas – o que aproxima seu público do longa. Entretanto, quando engrena, as cenas de ação são grandiosas e bem orquestradas – ainda que o ritmo frenético impeça maiores respiros dramáticos em seu desfecho (principalmente um cuidado à conclusão de cada um dos personagens pelos quais estamos torcendo durante a projeção).

Se não acerta o tempo todo, o filme é um bom exemplar de faroeste – um filme contemporâneo, travestido de clássico, mas que em sua essência abraça as convenções do gênero, sem reinventar a roda, tampouco negar suas origens. Um acerto, ainda que com o gostinho de que poderia ter um resultado mais positivo.

 

O Silêncio do Céu (Marco Dutra, 2016)

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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Há uma frase do genial Martin Scorsese que define muito bem a arte cinematográfica: cinema é uma questão do que está em tela e do que está fora dela. No entanto, ainda que essa frase se aplique à maioria dos gêneros cinematográficos, é fato que o suspense é o gênero que mais se beneficia dessa estratégia. Para fazer um bom suspense, é preciso mostrar sem revelar, é preciso instigar sem dizer e, muitas vezes, é preciso deixar no ar.

A sorte do espectador é quando um diretor entende esse conceito: felizmente, Marco Dutra entende e o coloca para funcionar de maneira exemplar. O resultado, portanto, é o incrível “Silêncio do Céu”, filme co-produzido por Brasil, Argentina e Uruguai e que narra as consequências do estupro sofrido por Diana (Carolina Dieckmann) e os impactos na vida dela e de seu marido, Mario (Leonardo Sbaraglia).

Mantendo sua câmera quase sempre no rosto de seus personagens, Dutra cria uma estrutura de suspense que faz o público de refém: com um nó na garganta, o fôlego tomado e o estômago embolado pela tensão, é impossível tirar os olhos da tela. Até porque, se alguém piscar, é capaz de perder algo sendo dito ou revelado através de uma palavra ou de um olhar que parecem querer dizer exatamente o oposto.

O roteiro – adaptado por Sergio Bizzio a partir de seu romance homônimo (o título original do longa é “Era el Cielo” e co-escrito com Lucía Puenzo e Caetano Gotardo – oferece um veículo espetacular para que Dutra e sua equipe componham uma peça de suspense, medo, remorso, mágoas e culpa muito singular. Contribuem e muito para isso as atuações de todos os departamentos técnicos, muito bem afiados sob o comando de Dutra, onde os destaques são, certamente, a fotografia de Pedro Luque e a montagem de Eduardo Aquino.

Luque lança luzes e sombras sobre os rostos de seus personagens e mantém o foco nos olhares: aqui, um simples movimento de cabeça, passando de um lugar iluminado para a completa escuridão, pode significar muito mais do que imaginamos, coisa que o subtexto do não-dito previsto no brilhante roteiro completa de uma forma complexa e rica. Além disso, a montagem de Aquino serve para manter a precisão do suspense, dotando o filme de um ritmo invejável que favorece a construção de um ambiente muito familiar.

Ainda que seja passado em Montevidéu, capital do Uruguai, é praticamente certo que “O Silêncio do Céu” funcione como um filme universal para qualquer plateia ocidental: por meio das narrações em off, descobrimos o íntimo de Mario e as percepções de Diana em um jogo brilhante de monólogos que demonstra que este filme é sobre um ato violento mas que é também sobre os medos e as ansiedades de nossos tempos, sobre como as relações humanas se deterioram em tempos de incerteza.

Basta acompanhar a trajetória de Mario para ver essa hipótese provada. Interpretado com grande habilidade por Sbaraglia, Mario é um homem que precisa lidar com seus medos e ansiedades para conseguir proteger a sua família – ou a ideia que tem de sua família, de sua esposa e de si mesmo; afinal, como bom roteirista que é, Mario é extremamente hábil em criar cenários e personagens, algo que o roteiro de “O Silêncio do Céu” explora com perfeição.

Aliás, perfeição é uma palavra que muito bem poderia ser usada para a quieta atuação de Carolina Dieckmann: como uma mulher calada por causa de um ato que a violou, Dieckmann entrega uma performance de extrema competência cênica ao construir sua personagem com tato e carinho, utilizando palavras estritamente quando necessário. A brasileira dá uma aula de como atuar com o silêncio e de como usar todas as limitações impostas à sua personagem ao seu favor.

Ainda, o elenco é composto também por Chino Darín (filho do brilhante Ricardo Darín) e por Mirella Pascual, um dos agressores e sua mãe, respectivamente, que interpretam seus papeis com um peso invejável, funcionando como presenças que adicionam qualidade ao suspense. Marco Dutra dirige seus atores de modo que as interpretações de cada um potencialize o drama e o suspense e que o trabalho de câmera e a iluminação neo-noir da película coloquem o espectador na ponta da cadeira, a ponto de quase não respirar.

Com uma engenharia de som muito inteligente, que tira o máximo dos sons mais comuns, trazendo inquietação a cada segundo, deixando os nervos à flor da pele, em “O Silêncio do Céu” há muito no campo, mas há muito mais no extra-campo, no que não foi revelado e no que não será revelado. Definitivamente, este é um suspense feito para retumbar nas memórias do público por muito tempo. Brilhante, difícil, doloroso, preciso e necessário.

Desculpe o Transtorno (Tomás Portella, 2016)

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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

O que acontece com a maioria das comédias românticas é que estas – como a maioria dos filmes – acabam ficando no meio termo, na área cinzenta entre o quase ruim e o quase bom. Por isso, fazer uma comédia romântica maneira já é uma conquista. No Brasil, terreno onde esse gênero ainda não se criou, “Desculpe o Transtorno” é uma adição interessante à lista de boas comédias românticas nacionais.

Eduardo (Gregorio Duvivier), noivo de Viviane (Dani Calabresa), precisa voltar ao Rio de Janeiro. Lá, algo dá errado e ele acaba assumindo uma outra personalidade: Duca. É no Rio que Eduardo/Duca também conhece Bárbara (Clarice Falcão). Pronto, dizer qualquer coisa a mais é entregar o filme inteiro. Com este filme, inclusive, parece que Tomás Portella vem se especializando na área de trabalhar em gêneros pouco difundidos no país.

O diretor, que lançou o interessante “Operações Especiais” no ano passado, um bom filme de ação bastante antenado com a realidade brasileira, poderia muito bem realizar um terror ou uma ficção científica como seu próprio projeto e também fazer com que este gênero ganhe novo impulso. Isto porque Portella tem uma boa consciência de mise-en-scène (algo que já havia demonstrado em seu filme anterior).

Utilizando a linguagem cinematográfica de maneira simples, precisa e objetiva, Portella cria planos inteligentes que narram o roteiro de maneira clara e sem firulas. Sem deixar de lado a beleza visual na decupagem, os fotógrafos Junior de Queiroz e Martina Rupp usam luzes naturais para mostrar ao máximo a dicotomia entre a paisagem de Rio e São Paulo (aspecto importante da trama) e também para aproveitar o máximo da beleza do território carioca.

Além disso, todos os outros departamentos técnicos realizam um trabalho competente – apenas a montagem escorrega em alguns momentos, principalmente em relação às cenas que parecem ser curtas demais; é evidente que isso é um problema de roteiro também, algo que pode ser visto no curto tempo de cena que o interessante personagem de Marcos Veras recebe ou do próprio desenvolvimento da sequência da noitada em São Paulo, que poderia ter sido mais trabalhada.

A direção de atores é também suficiente, um dos outros pontos em que Portella peca (isso se torna evidente no filme anterior também). O diretor se limita a deixar que os seus atores trabalhem às próprias maneiras, o que faz, por exemplo, com que Duvivier acabe se repetindo como faz nas esquetes do “Porta dos Fundos” e que, por outro lado e por sorte do público, Clarice Falcão esteja charmosa e divertida durante o filme inteiro – ela é a perfeita heroína de comédias românticas.

No fim das contas, ainda que seja previsível como a maioria das comédias românticas, “Desculpe o Transtorno” traz algumas ideias interessantes e divertidas o suficiente, que nos fazem acreditar que esse gênero pode ter um futuro no Brasil. Tomás Portella não é um diretor genial, nem um ótimo diretor, mas é um bom realizador, alguém que sabe dar agilidade aos seus filmes, entregando-os como uma boa forma de entretenimento. Esse é o seu maior mérito – e, no presente caso, é isso que importa.

Herança de Sangue (Jean-François Rinet, 2016)

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NOTA 5 / Caio César

O título brasileiro deste filme cita a herança de sangue entre um pai e sua filha. Entretanto, “herança” pode ser a palavra mais bem adequada para descrever o desenvolvimento do longa – e a sua assimilação pelo público.

Pois veja bem: Mel Gibson ainda é um baita ator de ação. O que, sinceramente, me parece uma surpresa. Persona non grata em muitos ambientes de Hollywood por causa de sua vida pessoal conturbada, ele parece trilhar o caminho da redenção com sua atuação no filme (ainda que ela seja, de longe, a melhor coisa da produção). Entretanto, a herança da qual falávamos, para além deste background, acontece por meio de homenagens quase explícitas ao passado cinematográfico de Gibson – ajudando o púbico à se afeiçoar a sua jornada.

O filme conta a história de Link, um veterano convicto de seus erros, afogado no vício do álcool, mas que em determinado ponto, deseja redenção. Seu maior motivo de falta de paz é o sumiço de sua filha. Quando ela reaparece, os dois miram na paz pessoal através da vingança por aqueles que os fizeram mal. Até aí, apenas clichês do gênero. O problema é que, infelizmente, o filme não avança.

Embora produzido por nomes indicados ao Oscar e por contar com a delicada (mas irregular) direção de Jean-François Rinet, o filme falha em sua narrativa, o que acaba por prejudicar até mesmo as atuações inspiradas de William H. Macy, por exemplo. Mas bem sucedido é o trabalho de fotografia, constantemente evocando o clima dos antigos sucessos de Gibson, como Mad Max, em cenas em alta velocidade e com precisão estilística.

Embora melhore no fim do segundo ato, Herança de Sangue nunca consegue fazer jus ao talento que emana de seu protagonista no papel. A atuação insossa de Erin Moriarty, que interpreta sua filha não ajuda nem um pouco, embora tampouco atrapalhe. A embalagem bonita jamais chega perto do resultado final, uma colcha de retalhos enfeitada com um dos maiores astros de ação do cinema.

Um ano dos Manos!

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Há exatamente um ano atrás, o Cinema2Manos entrava no ar. Durante estes 365 dias, foram mais de 230 posts sobre cinema, com análises das maiores estreias da semana nos cinemas do Brasil e do mundo. Tudo isso com muito bom humor, com uma dose de anarquia e com a broderagem de sempre. Nós demos espaço para amigos escreverem sobre filmes aqui e agradecemos por seu apoio e dedicação.

Também vimos nossa equipe crescer quando demos boas vindas à primeira mana da turma: Nathalia Barbosa, que, nos últimos meses, escreveu as críticas de filmes prestigiadíssimos como Aquarius. Esperanza Mariano continua com a gente também, a freela mais gringa que poderíamos ter.

O caminho que ainda vamos percorrer nos traz muitas novidades. Estamos preparando mudanças em nosso layout e toda nossa identidade visual. Novos conteúdos também virão. Hoje, no nosso aniversário, comemore conosco em uma nova mídia: no Instagram, no @cinema2manos.

Nos vemos durante esse novo ano 🙂

Acesse já: https://www.instagram.com/cinema2manos/

 

 

O Roubo da Taça (Caíto Ortiz, 2016)

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NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Existem comédias e comédias. Nos Estados Unidos, segundo maior produtor de filmes do mundo (perdendo apenas para a Índia), este fato fica patente: em um só país, você encontra, no mesmo ano, comédias de altíssimo nível tanto cinematográfico quanto intelectual como “Ave, César!” e “Dois Caras Legais” e também verdadeiras porcarias inúteis como “Os Caça-Noivas” e o hediondo “Tirando o Atraso”. A conclusão consequente, portanto, é: existem filmes e coisas que não são filmes tamanha a má qualidade.

No Brasil, temos o grave problema dentro de nosso cinema de termos uma produção de diversas comédias para cinema que utilizam uma estética ou teatral ou novelística. São as “globochanchadas”, as milhares de comédias que estreiam todos os anos e que passam completamente batidas porque, além de serem totalmente esquecíveis, também não são filmes. Podem divertir, mas não são filmes propriamente ditos. “O Roubo da Taça” não sofre desse mal enraizado no nosso cinema. Aliás, muito pelo contrário: pode ser a solução.

Narrando a absurda história do roubo da célebre Taça Jules Rimet, prêmio máximo do futebol, entregue somente às equipes que ganham, no mínimo, três Copas do Mundo, o segundo filme de Caíto Ortiz é tudo o que as outras comédias nacionais em geral não são: é inteligente, é divertido, é ágil, é elegante e é, sem sombra de dúvidas, um filme, um baita filme.

Antes de mais nada, o roteiro é forte, o roteiro é presente. Diferente da maioria das comédias nacionais, “O Roubo da Taça” é uma narrativa cinematográfica. O filme deriva sua comédia de sua trama e não de esquetes soltas e autônomas que não fazem o menor sentido narrativo. Aqui, o roteiro (escrito pelo próprio diretor e por Lusa Silvestre) não é uma mera muleta: os diálogos são bem construídos e o sequenciamento de eventos é como o fantástico Sidney Lumet gostava de ver: inevitáveis, porém imprevisíveis.

Contando com uma montagem precisa – assinada por Marcelo Junqueira e por Federico Brioni – que, por sua vez, confere um ritmo veloz e potente à trama, “O Roubo da Taça” envolve o espectador de maneira exemplar através de uma fluidez cômica e cinematográfica invejável, fazendo com que o hilário roteiro (que lembra, em certas ocasiões, o humor dos Irmãos Coen por causa dos improváveis personagens e de uma divertida violência) seja potencializado ao máximo.

Além disso, a perfeita, minuciosa e elegante ambientação da trama (que se passa em dezembro de 1983) é um deleite para os olhos: todo o trabalho realizado pela direção de arte (Fábio Goldfarb) e pelo departamento de figurinos e maquiagem (David Parizotti e Tayce Vale) é de um brilho imenso, uma verdadeira goleada. Não é fácil fazer com que o público se sinta em outro período de tempo; em “O Roubo da Taça” é como se estivéssemos vivendo as aventuras dos dois ladrões ao lado deles, lá na década de 80.

Aliás, falando dos personagens, é preciso falar para o verdadeiro gol de placa que cada ator do elenco marca. Com um elenco de apoio que vai de nomes como Hamilton Vaz Pereira, Stepan Nercessian, Otto Jr. e até mesmo Mr. Catra, “O Roubo da Taça” possui um grupo de atores fenomenal. Danilo Grangheia (o ladrão Borracha, parceiro de Peralta, o protagonista), o argentino Fábio Marcoff e o sempre fantástico e divertido Milhem Cortaz formam um trio de coadjuvantes de ouro que formam incríveis bases para os dois craques: Paulo Tiefenthaler e Taís Araujo.

Ela, linda, sedutora, incisiva e divertida, é a voz que guia o espectador e que serve de contraponto ao malandro Peralta; é bem provável que este seja um dos melhores papeis da carreira de Taís Araujo e seria ótimo vê-la em mais comédias como esta. Por outro lado, Paulo Tiefenthaler, que estrelava o finado e hilário Larica Total no Canal Brasil, prova que é um dos melhores atores cômicos em atividade no Brasil. As comparações com o mítico Hugo Carvana são merecidas: Paulo interpreta Peralta como o malandro essencial da boemia carioca de maneira sensacional. A ágil e divertida pulsação do longa funciona tão bem quanto funciona justamente por causa da frenética interpretação de Paulo.

Mérito também para a elegante direção de Caíto Ortiz, que sabe orquestrar bem os elementos que tem a disposição para construir aquela que é uma das melhores comédias nacionais dos últimos tempos – e uma das melhores comédias de 2016, considerando todas as estreias deste ano.

A mise-en-scène do longa (construída em parceria com a belíssima fotografia de Ralph Strelow, que trabalha cores, tonalidades e luzes de maneira inteligente, algo pouco usual em fotografia de cinema de comédia, onde o trabalho de câmera é, normalmente, feito de maneira básica e suficiente) é direta e objetiva, seguindo uma cartilha de elegância que só incrementa a comédia do longa: intercalando planos longos, planos sequência, planos fechados, câmera fixa e câmera na mão, Ortiz e Strelow utilizam todas as técnicas de que dispõem para atingir o melhor resultado possível.

Este esquema bem estruturado também faz lembrar as comédias dos Irmãos Coen, provando que a “moral da história” é a seguinte: fazer comédia não é só ligar a câmera e esperar que atores e atrizes gritem suas falas dentro de esquetes desorganizadas; para fazer comédia de qualidade é preciso fazer um filme de verdade. E é isso que Caíto e sua equipe fazem: cinema de verdade, um cinema de qualidade que nos faz esperar por dias melhores para a comédia nacional. Potencial para isso nós temos de sobra.

Últimos Dias no Deserto (Rodrigo Garcia, 2016)

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NOTA: 7 / Renato Furtado

A Bíblia, uma das narrativas mais celebradas e mais importantes na história do mundo ocidental, é fonte inesgotável de tramas prontas para serem adaptadas ao cinema. Dessa vez, o diretor colombiano Rodrigo Garcia elege a peregrinação que Jesus realizou no deserto, durante quarenta dias e quarenta noites, como a história de seu filme.

“Últimos Dias no Deserto”, portanto, segue os últimos momentos da jornada de Yeshua (Ewan McGregor). No caminho, repleto de tentações e de desafios, Yeshua precisa enfrentar a fome (ele decide fazer jejum durante a jornada), manter não só sanidade como também sua fé enquanto dribla as armadilhas postas pelo Diabo (também interpretado por McGregor) e tenta salvar uma família que vive no deserto.

Escrito e dirigido por Garcia, este é, no fundo, um íntimo drama familiar sobre as relações entre pais e filhos. Yeshua serve quase como um intermediário entre o Homem (Ciaran Hinds) e o rapaz (Tye Sheridan); tal natureza da trama tira um peso das costas do filme e permite que Garcia explore tanto o drama de seus personagens quanto a questão da fé de maneira mais segura e confiante, humanizando a figura de Jesus e criando diálogos, quase aforismos filosóficos, bastante interessantes.

No geral, tudo funciona bem (ainda que o filme perca ritmo em certas passagens, por causa de certas decisões de montagem): a edição é ótima e faz com que McGregor possa contracenar consigo mesmo livremente – algumas das melhores cenas são geradas nesse embate. Ele lidera bem o enxuto elenco, cujo maior destaque é Tye Sheridan, que rouba a cena sempre que possível. Além disso, a trilha sonora e o design de produção também tem méritos.

No entanto, o brilho do longa vem mesmo do trabalho realizado por Emmanuel Lubezki. Cada vez que estreia um filme que o mexicano fotografou, fica mais claro porque ele já é um dos melhores diretores de fotografia da história do cinema.

Aqui, ele mescla aspectos e técnicas que empregou nos filmes de Terrence Malick e de Alejandro G. Iñarritú para conjurar belíssimas imagens – baseadas no poder da luz natural que Lubezki bem sabe utilizar – que fazem jus ao tom divino da película. Seu uso de sombras e de planos abertos é fantástico e a narrativa ganha peso com a construção imagética de Lubezki. Sem ele, é provável que o filme não funcionasse; o mexicano é indispensável.

Somando mais altos do que baixos, “Últimos Dias no Deserto” é um filme em que a beleza das imagens, por si só, já conquista a audiência. Peregrinações podem ser complexas e dolorosas, mas essa, repleta de quietude, fúria, dúvidas e fé, é certamente uma peregrinação dramática e cinematograficamente bem-sucedida.

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