aqua

NOTA: 9,5 / Nathalia Barbosa

O novo filme de Kleber Mendonça Filme, diretor pernambucano que ganhou destaque ao denunciar o coronelismo, ainda presente, no Nordeste por meio de “O Som ao Redor”, volta às salas de exibição com “Aquarius”, consagrando-se como um Sérgio Buarque de Holanda do cinema devido a suas duras críticas a respeito da sociedade brasileira.
Mesmo sem nenhum prêmio em Cannes, o novo filme do diretor causa enorme polêmica desde antes de seu lançamento no Brasil. Como a própria filmografia de Mendonça mostra, ele e sua equipe são extremamente interessados por política e críticos à sociedade brasileira. Consequentemente, em plena época de votação do impeachment, os cineastas aproveitaram a expressividade do evento para denunciar o golpe em andamento no País, alinhados com a classe que defende uma era de fomento à indústria audiovisual, a qual, segundo eles, está sob ameaça, junto à democracia, com as novas configurações políticas.

“Aquarius” gira em torno de Clara, interpretada, brilhantemente, por Sonia Braga: uma jornalista progressista, independente e convicta de seus ideais. Sua preferência por mídia física, incluindo vinis em detrimento do uso de MP3 é um detalhe fundamental na construção da personagem. Por ser uma espécie de saudosista, como denuncia seu apartamento com móveis antigos de familiares já falecidos, recusa-se a vender seu lar para Diego (Humberto Carrão), um engenheiro ambicioso que pretende construir um condomínio de alta classe no local que o prédio “Aquarius” ocupa, este que dá nome ao filme.

Para montar sua trajetória e justificar seu apego à simples moradia à beira da praia, o filme começa na década de 80, mostrando uma família reunida no aniversário da tia de Clara, Lúcia, com pessoas fazendo discursos afetuosos – incluindo sobre a superação do câncer da jornalista – e flashbacks da libertação sexual e resistência à ditadura militar vividas por Lúcia.

Viúva no momento atual do filme, Clara é apegada a toda história construída em sua moradia. Seus filhos, principalmente Ana Paula (Maeve Jinkings, figura repetida no trabalho de Mendonça Filho), não entendem seu caráter saudosista e, por vezes, contra a vontade da mãe, contrariam-na por tentarem entrar em acordo com a construtora Bonfim a fim de encerrar o estresse, já que só há uma moradora no prédio considerado “fantasma”.

É com base na sequência de atitudes abusivas, incisivas e antiéticas, que o filme, por meio das ações de Diego e seu avô, donos da construtora Bonfim, denuncia as raízes, muito marcantes, das relações paternalistas, do poder da imprensa – que funciona por meio de ligações familiares –, do famoso “você sabe com quem está falando?” junto à impunidade de criminosos de classes mais abastadas e, também, centrado a família de Clara, reflete sobre a exploração de babás, principalmente negras, lembrando as amas de leite dos tempos coloniais.

Toda essa densa crítica social reunida com saudosismo e questões afetuosas tentando sobressair a valores quantitativos traz a ideia que o tempo nunca se esgota completamente para Clara, sendo reforçada pelo mesmo efeito aplicado ao início e ao fim do longa, ou seja, o filme começa e termina com o barulho do mar em frente à sua casa, reafirmando sua permanência no local – não só física, mas, também, simbólica. Considerando a montagem quase impecável, ora com foco muito próximo a objetos ou a pessoas que ressaltam a tensão do filme e dão importância criativa a cada detalhe, ora com transições muito bem feitas a partir do close em alguma parte do plano, Eduardo Serrano organiza o filme, com muita fluidez do clímax, a partir de três elementos marcantes, não deixando escapar nenhum aspecto importante da narrativa: o cabelo, o amor e o câncer de Clara.

A polêmica que “Aquarius” traz à tona vai além dele mesmo e, ainda antes de sua estreia, a nova questão é se sua Classificação Indicativa – avaliada para 18 anos – foi uma decisão justa do Ministério da Justiça ou se foi uma manobra vingativa do governo alvo de protestos, liderado pelo presidente Michel Temer. O fato é que, os melhores filmes são aqueles que rendem fora das salas de cinema, expandido o pensamento sobre outras discussões para o exterior do próprio. Em suma, uma obra-prima não só do cinema, mas da história do Brasil por ser crucial no entendimento do contexto social em que vivemos, mostrando que nem só de filme pastelão vive o audiovisual nacional ao ressaltar o potencial da sétima arte no terreno político.

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