STAR TREK BEYOND

NOTA: 7 / Renato Furtado

Em tempos em que os blockbusters imperam nas salas de cinema de todo o mundo, daqui até a China (um mercado que não para de crescer), é fácil encontrar uma tonelada de filmes terríveis, verdadeiras aberrações cinematográficas. 2016, então, não foi um bom ano para os blockbusters. Tirando a surpresa do ano, “Deadpool”, e o extremamente divertido e eficiente “Guerra Civil”, nenhum outro filme fez bonito e nenhuma sequência honrou sua franquia. Nenhuma até “Star Trek: Sem Fronteiras”.

Dirigido por Justin Lin (diretor de quatro filmes da franquia “Velozes & Furiosos” e escrito por Simon Pegg (o Montgomery Scott da USS Enterprise) e Doug Jung, o novo filme da nova franquia Star Trek tem uma “vibração” muito similar aos episódios da série original escritos por Gene Roddenberry. Neste novo longa, a tripulação acaba sendo separada e precisa achar um jeito de retomar a união para impedir um grande vilão de levar um plano maléfico a cabo.

A premissa não é lá muito original, é verdade e durante a projeção é possível perceber que o roteiro apresenta algumas inconsistências e alguns pontos falhos (algo que os roteiros dos filmes anteriores da saga, comandados por JJ Abrams e escritos pela ótima dupla formada por Roberto Orci e Alex Kurtzman, raramente apresentavam). Contudo, o grande acerto de Pegg e de Jung é adicionar novas interações e novos caminhos para as aventuras da trupe da Enterprise sem deixar de lado a tonalidade estabelecida pelos dois filmes anteriores.

“Sem Fronteiras”, portanto, funciona como uma extensão repaginada de certo modo. JJ Abrams é mais diretor que Justin Lin, mas o novato na franquia “Star Trek” não faz feio. Lin sabe conduzir muito bem sequências de ação, mas seu senso de comédia também é certeiro. Os ótimos diálogos entre Bones (Karl Urban) e o favorito dos fãs, Spock (Zachary Quinto), promovem interações muito divertidas; além disso, Lin e a dupla de roteiristas também adiciona ainda mais charme aos personagens já conhecidos e introduz muito bem Jaylah (Sofia Boutella) à trama como um todo.

Mas quem rouba a cena, em questões cênicas, sem sombra de dúvidas, é Idris Elba. Mesmo com uma tonelada de maquiagem sobre o rosto, Elba consegue ser ameaçador ao interpretar o perigoso vilão Krall. Elba, um dos melhores atores da atualidade, é tão bom que as  motivações do vilão (que ficam um pouco enevoadas por alguns problemas de desenvolvimento do roteiro) não atrapalham sua performance. Elba é um mestre em fazer muito com pouco material e brilha de qualquer maneira.

Aliás, essa característica de Elba parece ter se estendido ao filme como um todo. Lin e sua equipe conseguem maquiar todas as falhas do roteiro e algumas das falhas da montagem – que fazem com que o longa não siga um ritmo impecável em determinados momentos da projeção, algo que pode ser devido às oito mãos que assinaram o processo de edição do longa – ao compensar, de maneira muito ágil, enérgica e divertida todos os equívocos que poderiam ter sido cometidos.

Se por um lado Pegg e Jung fazem os personagens brilharem com linhas de diálogo que são fantásticas e muito bem escritas, repletas de espírito e de humor, injetando uma leveza e uma graça à trama, Lin é o capitão do barco. Como já mencionado anteriormente, o que ele melhor sabe fazer é orquestrar sequências de ação. Algumas delas são dignas de nota (como a sequência da motocicleta e a sequência do ataque à Enterprise) mas é a sequência embalada pelo clássico “Sabotage” (referida como música clássica no filme) dos Beastie Boys que marca o filme.

Unir uma canção não original com uma sequência inteira é trabalho para poucos mas Lin faz isso de maneira sensacional. Tudo se encaixa perfeitamente e até mesmo uma estação espacial parece ter sido desenhada como um alto-falante quando o potente rap dos Beastie Boys rouba a cena. Aliás, esta também é uma outra qualidade do roteiro de Pegg e Jung: se a escrita apresenta inconsistências quanto à motivações, os cenários e o encadeamento de ações é muito eficiente, principalmente quando os dois utilizam o método da “pista-recompensa” (lançar uma informação que será retomada à frente) como forma de mover a trama.

Com pelo menos uma sequência de ação memorável e momentos empolgantes, divertidos e vibrantes, “Star Trek: Sem Fronteiras” honra não só a série original (que completa 50 anos em 2016) como também os filmes dirigidos por JJ Abrams. Não é um filme perfeito, longe disso. Inclusive, para a que a equipe da Enterprise continue expandindo fronteiras, muitas coisas precisam ser melhoradas. No entanto, o fato é que “Sem Fronteiras” funciona o suficiente para ser um filme bom e divertido. E isso é algo muito valioso no cinema descartável de hoje em dia.

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