narcos

NOTA: 9,5 / Renato Furtado

O retorno é sempre mais difícil. Em diversas áreas artísticas, é comum ver que o segundo trabalho de muitos artistas que foram muito celebrados por suas estreias, acabam sendo mais fracos ou mais criticados. Isso acontece, evidentemente, porque o primeiro trabalho estabeleceu um padrão muito alto. Fazer uma estreia muito boa é para poucos; manter o nível de qualidade é para pouquíssimos.

Esse cenário também se repete com a primeira e segunda temporadas de muitas séries (vide o caso da queda de qualidade de “How to Get Away With Murder”, por exemplo), séries cujas premissas iniciais eram tão únicas que o padrão de qualidade estabelecido se tornou muito alto. Felizmente, “Narcos”, uma das melhores séries da Netflix, não sofre dessa maldição. Como seu personagem principal, “Narcos” possibilitou o impossível: a segunda temporada é ainda mais fantástica que a primeira.

O que a estrutura de boas sequências dos cinemas podem nos informar é que, normalmente, o sucesso destas continuações se dá a uma fórmula bem simples: esquema (ou seja, a estrutura apresentada durante a primeira temporada) + variação. Os showrunners de “Narcos” parecem ter entendido a mensagem de maneira perfeita e cumpriram a missão à própria maneira: eles retiraram o que não funcionava muito bem, mantiveram o espírito e a estética e procuraram variações dramáticas em uma arma que já possuía.

Antes de mais nada, um dos grandes esforços da primeira temporada era como integrar o personagem e a família de Boyd Holbrook, o agente da DEA Steven Murphy, ao mundo do narcotráfico colombiano de Medellín. Quando queríamos acompanhar alguma ação, evento ou personagem mais interessante, acabávamos forçados a seguir os passos de Murphy. Agora, Holbrook está muito mais sólido (melhorou imensamente como ator) como narrador do que protagonista.

Além disso, a estética trazida por José Padilha, produtor executivo da série, e pelo talentosíssimo diretor de fotografia brasileiro Lula Carvalho é mantida e o caráter de docudrama (documentário dramatizado, em uma tradução livre) continua conduzindo a narrativa de modo a imergir o espectador mais facilmente na trama. A montagem da série continua impecável, as escolhas de canções estão ainda melhores e as composições do também brasileiro Pedro Bromfman continuam mantendo a atmosfera de “Narcos” no mais alto nível.

Mas, sem sombra de dúvidas, o que faz da segunda temporada de “Narcos” ser tão incrível quanto é, é a arma que os produtores já possuíam: Wagner Moura. É fato que o maior desenvolvimento do agente Javier Peña, personagem do ótimo Pedro Pascal e a introdução do fiel Limón, muito bem interpretado por Leynar Gomez faz com que o elenco seja ainda maior, mas é inegável que a joia da produção é a performance de Moura. Em resumo: ele é um monstro da atuação.

Nesta temporada, o que Moura faz é de cair o queixo. Sua tarefa, complicadíssima, é realizada de maneira exemplar: Moura humaniza Pablo Escobar ainda mais e conquista o público. Ele é, como os estadunidenses gostam de dizer, magnético. É impossível tirar os olhos dele e cada vez que aparece em cena, toda a série ganha um brilho a mais.

Sua variação de emoções é gigantesca e suas capacidades cênicas parecem ser inesgotáveis; Wagner Moura tem aquilo que só os grandes possuem: ocupa confortavelmente o coração da narrativa – como se tivesse nascido ali – e transmite sentimentos e emoções e captura o olhar do público com o mais leve gesto – o dedo que roça o cabo do telefone, as palavras que não saem, os olhos penetrantes. Se ele – e a série – não vier a ser indicado aos prêmios de atuação em séries no Globo de Ouro e no Emmy do ano que vem, será um verdadeiro crime.

Com Pablo Escobar, Wagner Moura entra definitivamente na categoria dos maiores atores do mundo e ajuda a inserir tanto o seu personagem quanto “Narcos” na história da televisão mundial. Uma temporada memorável para uma série memorável.

 

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