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NOTA: 7 / Renato Furtado

A Bíblia, uma das narrativas mais celebradas e mais importantes na história do mundo ocidental, é fonte inesgotável de tramas prontas para serem adaptadas ao cinema. Dessa vez, o diretor colombiano Rodrigo Garcia elege a peregrinação que Jesus realizou no deserto, durante quarenta dias e quarenta noites, como a história de seu filme.

“Últimos Dias no Deserto”, portanto, segue os últimos momentos da jornada de Yeshua (Ewan McGregor). No caminho, repleto de tentações e de desafios, Yeshua precisa enfrentar a fome (ele decide fazer jejum durante a jornada), manter não só sanidade como também sua fé enquanto dribla as armadilhas postas pelo Diabo (também interpretado por McGregor) e tenta salvar uma família que vive no deserto.

Escrito e dirigido por Garcia, este é, no fundo, um íntimo drama familiar sobre as relações entre pais e filhos. Yeshua serve quase como um intermediário entre o Homem (Ciaran Hinds) e o rapaz (Tye Sheridan); tal natureza da trama tira um peso das costas do filme e permite que Garcia explore tanto o drama de seus personagens quanto a questão da fé de maneira mais segura e confiante, humanizando a figura de Jesus e criando diálogos, quase aforismos filosóficos, bastante interessantes.

No geral, tudo funciona bem (ainda que o filme perca ritmo em certas passagens, por causa de certas decisões de montagem): a edição é ótima e faz com que McGregor possa contracenar consigo mesmo livremente – algumas das melhores cenas são geradas nesse embate. Ele lidera bem o enxuto elenco, cujo maior destaque é Tye Sheridan, que rouba a cena sempre que possível. Além disso, a trilha sonora e o design de produção também tem méritos.

No entanto, o brilho do longa vem mesmo do trabalho realizado por Emmanuel Lubezki. Cada vez que estreia um filme que o mexicano fotografou, fica mais claro porque ele já é um dos melhores diretores de fotografia da história do cinema.

Aqui, ele mescla aspectos e técnicas que empregou nos filmes de Terrence Malick e de Alejandro G. Iñarritú para conjurar belíssimas imagens – baseadas no poder da luz natural que Lubezki bem sabe utilizar – que fazem jus ao tom divino da película. Seu uso de sombras e de planos abertos é fantástico e a narrativa ganha peso com a construção imagética de Lubezki. Sem ele, é provável que o filme não funcionasse; o mexicano é indispensável.

Somando mais altos do que baixos, “Últimos Dias no Deserto” é um filme em que a beleza das imagens, por si só, já conquista a audiência. Peregrinações podem ser complexas e dolorosas, mas essa, repleta de quietude, fúria, dúvidas e fé, é certamente uma peregrinação dramática e cinematograficamente bem-sucedida.

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