roubo

NOTA: 7,5 / Renato Furtado

Existem comédias e comédias. Nos Estados Unidos, segundo maior produtor de filmes do mundo (perdendo apenas para a Índia), este fato fica patente: em um só país, você encontra, no mesmo ano, comédias de altíssimo nível tanto cinematográfico quanto intelectual como “Ave, César!” e “Dois Caras Legais” e também verdadeiras porcarias inúteis como “Os Caça-Noivas” e o hediondo “Tirando o Atraso”. A conclusão consequente, portanto, é: existem filmes e coisas que não são filmes tamanha a má qualidade.

No Brasil, temos o grave problema dentro de nosso cinema de termos uma produção de diversas comédias para cinema que utilizam uma estética ou teatral ou novelística. São as “globochanchadas”, as milhares de comédias que estreiam todos os anos e que passam completamente batidas porque, além de serem totalmente esquecíveis, também não são filmes. Podem divertir, mas não são filmes propriamente ditos. “O Roubo da Taça” não sofre desse mal enraizado no nosso cinema. Aliás, muito pelo contrário: pode ser a solução.

Narrando a absurda história do roubo da célebre Taça Jules Rimet, prêmio máximo do futebol, entregue somente às equipes que ganham, no mínimo, três Copas do Mundo, o segundo filme de Caíto Ortiz é tudo o que as outras comédias nacionais em geral não são: é inteligente, é divertido, é ágil, é elegante e é, sem sombra de dúvidas, um filme, um baita filme.

Antes de mais nada, o roteiro é forte, o roteiro é presente. Diferente da maioria das comédias nacionais, “O Roubo da Taça” é uma narrativa cinematográfica. O filme deriva sua comédia de sua trama e não de esquetes soltas e autônomas que não fazem o menor sentido narrativo. Aqui, o roteiro (escrito pelo próprio diretor e por Lusa Silvestre) não é uma mera muleta: os diálogos são bem construídos e o sequenciamento de eventos é como o fantástico Sidney Lumet gostava de ver: inevitáveis, porém imprevisíveis.

Contando com uma montagem precisa – assinada por Marcelo Junqueira e por Federico Brioni – que, por sua vez, confere um ritmo veloz e potente à trama, “O Roubo da Taça” envolve o espectador de maneira exemplar através de uma fluidez cômica e cinematográfica invejável, fazendo com que o hilário roteiro (que lembra, em certas ocasiões, o humor dos Irmãos Coen por causa dos improváveis personagens e de uma divertida violência) seja potencializado ao máximo.

Além disso, a perfeita, minuciosa e elegante ambientação da trama (que se passa em dezembro de 1983) é um deleite para os olhos: todo o trabalho realizado pela direção de arte (Fábio Goldfarb) e pelo departamento de figurinos e maquiagem (David Parizotti e Tayce Vale) é de um brilho imenso, uma verdadeira goleada. Não é fácil fazer com que o público se sinta em outro período de tempo; em “O Roubo da Taça” é como se estivéssemos vivendo as aventuras dos dois ladrões ao lado deles, lá na década de 80.

Aliás, falando dos personagens, é preciso falar para o verdadeiro gol de placa que cada ator do elenco marca. Com um elenco de apoio que vai de nomes como Hamilton Vaz Pereira, Stepan Nercessian, Otto Jr. e até mesmo Mr. Catra, “O Roubo da Taça” possui um grupo de atores fenomenal. Danilo Grangheia (o ladrão Borracha, parceiro de Peralta, o protagonista), o argentino Fábio Marcoff e o sempre fantástico e divertido Milhem Cortaz formam um trio de coadjuvantes de ouro que formam incríveis bases para os dois craques: Paulo Tiefenthaler e Taís Araujo.

Ela, linda, sedutora, incisiva e divertida, é a voz que guia o espectador e que serve de contraponto ao malandro Peralta; é bem provável que este seja um dos melhores papeis da carreira de Taís Araujo e seria ótimo vê-la em mais comédias como esta. Por outro lado, Paulo Tiefenthaler, que estrelava o finado e hilário Larica Total no Canal Brasil, prova que é um dos melhores atores cômicos em atividade no Brasil. As comparações com o mítico Hugo Carvana são merecidas: Paulo interpreta Peralta como o malandro essencial da boemia carioca de maneira sensacional. A ágil e divertida pulsação do longa funciona tão bem quanto funciona justamente por causa da frenética interpretação de Paulo.

Mérito também para a elegante direção de Caíto Ortiz, que sabe orquestrar bem os elementos que tem a disposição para construir aquela que é uma das melhores comédias nacionais dos últimos tempos – e uma das melhores comédias de 2016, considerando todas as estreias deste ano.

A mise-en-scène do longa (construída em parceria com a belíssima fotografia de Ralph Strelow, que trabalha cores, tonalidades e luzes de maneira inteligente, algo pouco usual em fotografia de cinema de comédia, onde o trabalho de câmera é, normalmente, feito de maneira básica e suficiente) é direta e objetiva, seguindo uma cartilha de elegância que só incrementa a comédia do longa: intercalando planos longos, planos sequência, planos fechados, câmera fixa e câmera na mão, Ortiz e Strelow utilizam todas as técnicas de que dispõem para atingir o melhor resultado possível.

Este esquema bem estruturado também faz lembrar as comédias dos Irmãos Coen, provando que a “moral da história” é a seguinte: fazer comédia não é só ligar a câmera e esperar que atores e atrizes gritem suas falas dentro de esquetes desorganizadas; para fazer comédia de qualidade é preciso fazer um filme de verdade. E é isso que Caíto e sua equipe fazem: cinema de verdade, um cinema de qualidade que nos faz esperar por dias melhores para a comédia nacional. Potencial para isso nós temos de sobra.

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