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NOTA: 6,5 / Renato Furtado

O que acontece com a maioria das comédias românticas é que estas – como a maioria dos filmes – acabam ficando no meio termo, na área cinzenta entre o quase ruim e o quase bom. Por isso, fazer uma comédia romântica maneira já é uma conquista. No Brasil, terreno onde esse gênero ainda não se criou, “Desculpe o Transtorno” é uma adição interessante à lista de boas comédias românticas nacionais.

Eduardo (Gregorio Duvivier), noivo de Viviane (Dani Calabresa), precisa voltar ao Rio de Janeiro. Lá, algo dá errado e ele acaba assumindo uma outra personalidade: Duca. É no Rio que Eduardo/Duca também conhece Bárbara (Clarice Falcão). Pronto, dizer qualquer coisa a mais é entregar o filme inteiro. Com este filme, inclusive, parece que Tomás Portella vem se especializando na área de trabalhar em gêneros pouco difundidos no país.

O diretor, que lançou o interessante “Operações Especiais” no ano passado, um bom filme de ação bastante antenado com a realidade brasileira, poderia muito bem realizar um terror ou uma ficção científica como seu próprio projeto e também fazer com que este gênero ganhe novo impulso. Isto porque Portella tem uma boa consciência de mise-en-scène (algo que já havia demonstrado em seu filme anterior).

Utilizando a linguagem cinematográfica de maneira simples, precisa e objetiva, Portella cria planos inteligentes que narram o roteiro de maneira clara e sem firulas. Sem deixar de lado a beleza visual na decupagem, os fotógrafos Junior de Queiroz e Martina Rupp usam luzes naturais para mostrar ao máximo a dicotomia entre a paisagem de Rio e São Paulo (aspecto importante da trama) e também para aproveitar o máximo da beleza do território carioca.

Além disso, todos os outros departamentos técnicos realizam um trabalho competente – apenas a montagem escorrega em alguns momentos, principalmente em relação às cenas que parecem ser curtas demais; é evidente que isso é um problema de roteiro também, algo que pode ser visto no curto tempo de cena que o interessante personagem de Marcos Veras recebe ou do próprio desenvolvimento da sequência da noitada em São Paulo, que poderia ter sido mais trabalhada.

A direção de atores é também suficiente, um dos outros pontos em que Portella peca (isso se torna evidente no filme anterior também). O diretor se limita a deixar que os seus atores trabalhem às próprias maneiras, o que faz, por exemplo, com que Duvivier acabe se repetindo como faz nas esquetes do “Porta dos Fundos” e que, por outro lado e por sorte do público, Clarice Falcão esteja charmosa e divertida durante o filme inteiro – ela é a perfeita heroína de comédias românticas.

No fim das contas, ainda que seja previsível como a maioria das comédias românticas, “Desculpe o Transtorno” traz algumas ideias interessantes e divertidas o suficiente, que nos fazem acreditar que esse gênero pode ter um futuro no Brasil. Tomás Portella não é um diretor genial, nem um ótimo diretor, mas é um bom realizador, alguém que sabe dar agilidade aos seus filmes, entregando-os como uma boa forma de entretenimento. Esse é o seu maior mérito – e, no presente caso, é isso que importa.

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