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NOTA: 8,5 / Renato Furtado

Há uma frase do genial Martin Scorsese que define muito bem a arte cinematográfica: cinema é uma questão do que está em tela e do que está fora dela. No entanto, ainda que essa frase se aplique à maioria dos gêneros cinematográficos, é fato que o suspense é o gênero que mais se beneficia dessa estratégia. Para fazer um bom suspense, é preciso mostrar sem revelar, é preciso instigar sem dizer e, muitas vezes, é preciso deixar no ar.

A sorte do espectador é quando um diretor entende esse conceito: felizmente, Marco Dutra entende e o coloca para funcionar de maneira exemplar. O resultado, portanto, é o incrível “Silêncio do Céu”, filme co-produzido por Brasil, Argentina e Uruguai e que narra as consequências do estupro sofrido por Diana (Carolina Dieckmann) e os impactos na vida dela e de seu marido, Mario (Leonardo Sbaraglia).

Mantendo sua câmera quase sempre no rosto de seus personagens, Dutra cria uma estrutura de suspense que faz o público de refém: com um nó na garganta, o fôlego tomado e o estômago embolado pela tensão, é impossível tirar os olhos da tela. Até porque, se alguém piscar, é capaz de perder algo sendo dito ou revelado através de uma palavra ou de um olhar que parecem querer dizer exatamente o oposto.

O roteiro – adaptado por Sergio Bizzio a partir de seu romance homônimo (o título original do longa é “Era el Cielo” e co-escrito com Lucía Puenzo e Caetano Gotardo – oferece um veículo espetacular para que Dutra e sua equipe componham uma peça de suspense, medo, remorso, mágoas e culpa muito singular. Contribuem e muito para isso as atuações de todos os departamentos técnicos, muito bem afiados sob o comando de Dutra, onde os destaques são, certamente, a fotografia de Pedro Luque e a montagem de Eduardo Aquino.

Luque lança luzes e sombras sobre os rostos de seus personagens e mantém o foco nos olhares: aqui, um simples movimento de cabeça, passando de um lugar iluminado para a completa escuridão, pode significar muito mais do que imaginamos, coisa que o subtexto do não-dito previsto no brilhante roteiro completa de uma forma complexa e rica. Além disso, a montagem de Aquino serve para manter a precisão do suspense, dotando o filme de um ritmo invejável que favorece a construção de um ambiente muito familiar.

Ainda que seja passado em Montevidéu, capital do Uruguai, é praticamente certo que “O Silêncio do Céu” funcione como um filme universal para qualquer plateia ocidental: por meio das narrações em off, descobrimos o íntimo de Mario e as percepções de Diana em um jogo brilhante de monólogos que demonstra que este filme é sobre um ato violento mas que é também sobre os medos e as ansiedades de nossos tempos, sobre como as relações humanas se deterioram em tempos de incerteza.

Basta acompanhar a trajetória de Mario para ver essa hipótese provada. Interpretado com grande habilidade por Sbaraglia, Mario é um homem que precisa lidar com seus medos e ansiedades para conseguir proteger a sua família – ou a ideia que tem de sua família, de sua esposa e de si mesmo; afinal, como bom roteirista que é, Mario é extremamente hábil em criar cenários e personagens, algo que o roteiro de “O Silêncio do Céu” explora com perfeição.

Aliás, perfeição é uma palavra que muito bem poderia ser usada para a quieta atuação de Carolina Dieckmann: como uma mulher calada por causa de um ato que a violou, Dieckmann entrega uma performance de extrema competência cênica ao construir sua personagem com tato e carinho, utilizando palavras estritamente quando necessário. A brasileira dá uma aula de como atuar com o silêncio e de como usar todas as limitações impostas à sua personagem ao seu favor.

Ainda, o elenco é composto também por Chino Darín (filho do brilhante Ricardo Darín) e por Mirella Pascual, um dos agressores e sua mãe, respectivamente, que interpretam seus papeis com um peso invejável, funcionando como presenças que adicionam qualidade ao suspense. Marco Dutra dirige seus atores de modo que as interpretações de cada um potencialize o drama e o suspense e que o trabalho de câmera e a iluminação neo-noir da película coloquem o espectador na ponta da cadeira, a ponto de quase não respirar.

Com uma engenharia de som muito inteligente, que tira o máximo dos sons mais comuns, trazendo inquietação a cada segundo, deixando os nervos à flor da pele, em “O Silêncio do Céu” há muito no campo, mas há muito mais no extra-campo, no que não foi revelado e no que não será revelado. Definitivamente, este é um suspense feito para retumbar nas memórias do público por muito tempo. Brilhante, difícil, doloroso, preciso e necessário.

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